toma-me de repente o peito uma taquicardia da falta,
a saudade de penetrar em teus abismos
e perceber-me em queda livre para dentro de mim mesma
quando acho que já estou impregnada de poesia,
vem você e transborda a sua beleza ou a sua escuridão,
seus olhos fechados de constelações...
o brilho das estrelas é um passado que reluz nas retinas futuras
temos muito medo e também muita água atrás dos olhos
navegamos no oceano das nossas ideias fragmentadas
sempre com receio de naufragar em ilhas de gerúndios
e nunca chegar,
sem saber ao certo aonde ir,
mas sempre com a ideia de nunca parar em metáforas incomprendidas
morremos um pouco por dia
desde o primeiro mergulho, no ventre de nossas mães
o restante do tempo é só um longo afogamento em terra firme
exceto no próximo hoje ali contigo, lá
onde toda perplexidade é permitida e quiçá compreendida
consegue nos ver? tão lunáticas...
andar daqui até o sol, tirar a pele, lançar às chamas e deixar queimar
hoje pedra, amanhã água
no próximo amanhã depois de depois de amanhã,
consegue nos ver? tão fantásticas...
inteiramente água ou correnteza sem margens
voar e brincar de ser lua no palco espacial iluminado
em experimentações de luz e sombras
a mover, inocentemente, as marés...
embrumada de sono, obriguei-me
a dignificar minha existência de não-homem
e entreguei-me ao trabalho.
daí quando abri a boca para bocejar
tomei uma lufada de sol goela abaixo!
o coletivo lotado, não consegui ao menos me segurar...
ajeitei a postura, sequei a areia dos olhos
e despertei na língua do mundo.
Faltou luz, Sobrou lua
Apagão geral na cidade
O ruído ininterrupto dos eletrônicos
trocado pelo murmúrio tímido das vozes.
Ensaios balbuciados de risos;
Gargalhadas experimentais.
Trocas de olhares nunca trocados
sem telas, sem traves, sem travas.
Brigas à moda antiga, olhos nos olhos;
sem indiretas virtuais;
lágrimas na face e sal nas mãos;
doces abraços de reconciliação.
Longe da crueza substantivada dos sentidos,
a transcendência do verbo: o sentir,
a predominância de sinestesias, de poesias.
Quando a luz artificial se foi,
houve luto e ouviu-se silêncio.
Dia de folga para as inteligências artificiais.
Dia de trabalho para as inteligências naturais, milênios guardadas
a desempoeirar sua presença no tempo.
Hora de explorar os ruídos do silêncio,
Hora de namorar as estrelas boiando em alto-luar,
Hora de reunir todo mundo para contar histórias e prosear,
Hora de brincar de dar vida às sombras nas paredes,
Hora de perder a hora...
e descobrir que a luz vem de dentro.
Antologia Poética
Eu te guardei na minha estante
Cuidadosamente
Como uma história que só existe dentro de um livro
Uma coleção de futuros de pretéritos
Hipotéticos no tempo verbal imperfeito
Guardei os poemas que esperavam ser escritos
No reino das palavras, em estado de dicionário
Estrofes, versos adversos, algo inconvenientes
De uma (des)cumprida poesia mal nascida
E já transformada em mudez
"Agora era fatal que o faz de conta terminasse assim"
Com as poesias entornadas no chão, e
Vigiadas pelo esquecimento
um jeito de ser feliz
como se o mundo fosse nosso
o ar sempre puro nos pulmões
toda fonte com gosto de mel
todo céu estrelado
todo solo fértil
toda maldade extinta
todo sorriso franco
os olhos sempre brilhando
todo abrigo seguro
o medo ausente dos dicionários
e tendo percebido
oportunamente
a imensa vulnerabilidade
de um corpo
em suas camadas de nudez,
tratou de desaprender
a função de vestir,
então,
amigou-se com o vento
até sentir a beleza
de andar nas nuvens
deixe-se tragar
pelo breu de minhas pupilas
que se esgarçam ao te ver
são portais para a dimensão
onde uma larga vida
cabe em nossas mãos
Eu, oceano
Aterrisso meus pés de nuvens
nos teus temporais e,
incrédula,
mapeio nossos passos na terra úmida.
Sinto-me marejada quando tu passas
a me navegar.
Qualquer estrela do imenso céu noturno
perde em brilho para os teus olhos.
Nenhum bunker se compara ao abrigo
da tua companhia.
No dia da tua chegada,
tenho certeza que aprendi a voar.
Planta-se um lar
Quando se planta uma semente de luz na terra,
o fogo nasce é nos olhos.
Um raio de luz recém-nascido percorre os rios de dentro
até sair pelos poros e inundar as retinas.
Aquele pôr de sol inaugurou o fogo
no íntimo das nossas certezas.
E ardeu.
O crepitar das chamas dilata as pupilas
e derrama constelações em nossos olhos.
Tentei plantar em ti meu avesso
mas tu sempre só me colhes o verso.
Cada palavra trocada cultiva [nossa] poesia,
história sem fim de amor e permanência.
Teus olhos. Meus olhos. Um horizonte.
a manhã
nem bem amanheci em teus olhos
e já catava torrões de nuvem para adoçar-lhe o café
assistia brotarem as sementes das horas
sem perceber que era em mim que germinavam
o tempo se multiplicando com as gotas de chuva
nossos passos correndo juntos até uma porta
toda uma galáxia escondida e recém-inaugurada
astros, estrelas, mundos e fundos a cantarolar
a música universal dos que sonham acordados
a sinfonia dos que têm a cabeça na lua
a melodia dos distraídos
nem bem amanheci em teus olhos
e era como se toda a vida coubesse naquela manhã