Apagão geral na cidade
O ruído ininterrupto dos eletrônicos
trocado pelo murmúrio tímido das vozes.
Ensaios balbuciados de risos;
Gargalhadas experimentais.
Trocas de olhares nunca trocados
sem telas, sem traves, sem travas.
Brigas à moda antiga, olhos nos olhos;
sem indiretas virtuais;
lágrimas na face e sal nas mãos;
doces abraços de reconciliação.
Longe da crueza substantivada dos sentidos,
a transcendência do verbo: o sentir,
a dominância de sinestesias, de poesias.
Quando a luz artificial se foi,
houve luto e ouviu-se silêncio.
Dia de folga para as inteligências artificiais.
Dia de glória para as inteligências naturais, milênios guardadas
a desempoeirar sua presença no tempo.
Hora de explorar os ruídos do silêncio,
Hora de namorar as estrelas boiando em alto-luar,
Hora de reunir todo mundo para contar histórias e prosear,
Hora de brincar de dar vida às sombras nas paredes,
Hora de perder a hora...
e descobrir que a luz vem de dentro.