Eu, oceano

Aterrisso meus pés de nuvens
nos teus temporais e,
incrédula,
mapeio nossos passos na terra úmida.
Sinto-me marejada quando tu passas
a me navegar.
Qualquer estrela do imenso céu noturno
perde em brilho para os teus olhos.
Nenhum bunker se compara ao abrigo
da tua companhia.
No dia da tua chegada,
tenho certeza que aprendi a voar.

Planta-se um lar

Quando se planta uma semente de luz na terra,
o fogo nasce é nos olhos.
Um raio de luz recém-nascido percorre os rios de dentro
até sair pelos poros e inundar as retinas.

Aquele pôr de sol inaugurou o fogo
no íntimo das nossas certezas.
E ardeu.
O crepitar das chamas dilata as pupilas
e  derrama constelações em nossos olhos.

Tentei plantar em ti meu avesso
mas tu sempre só me colhes o verso.
Cada palavra trocada cultiva [nossa] poesia,
história sem fim de amor e permanência.

Teus olhos. Meus olhos. Um horizonte.

a manhã

nem bem amanheci em teus olhos
e já catava torrões de nuvem para adoçar-lhe o café
assistia brotarem as sementes das horas
sem perceber que era em mim que germinavam
o tempo se multiplicando com as gotas de chuva
nossos passos correndo juntos até uma porta
toda uma galáxia escondida e recém-inaugurada
astros, estrelas, mundos e fundos a cantarolar
a música universal dos que sonham acordados
a sinfonia dos que têm a cabeça na lua
a melodia dos distraídos
nem bem amanheci em teus olhos
e era como se toda a vida coubesse naquela manhã

viver é quando

viver é o tempo de um suspiro, 
de uma falta de ar,
é o tempo da palavra que foge da boca,
viver é um piscar de olhos,
viver dura o tempo de queda de uma lágrima

viver é um afogamento,
viver é navegar pele e pelos,
é beijo nas mãos, cafuné na cabeça,
massagem nos pés, é dançar no meio da sala,
é olhos nos olhos, pé ante pé,
viver é presença

viver é divagar, devagar,
mirar as nuvens e acertar as ideias
viver é o tempo de vida de uma estrela,
é o brilho que insiste em navegar o espaço,
mesmo depois da morte de sua fonte,
mesmo sem ter para onde voltar

viver é deitar a cabeça no travesseiro
e poder sonhar,
viver é ficar nu dentro de um sorriso,
é ter olhos de horizonte,
é vento nos cabelos
viver é observar baleias
e pores de sol e constelações
viver é a soma das entrelinhas,

viver é acordar cantando,
amar silêncios,
cultivar o tempo...

Análises Estilísticas

Ouço meu nome sair de tua boca
E faço amor com a tua voz
Quero inteira navegar em teus lábios
Descobrir um novo continente
Abrir caminhos em teus relevos
Cartografar tua pele com as pontas de meus seios
Singrar os rios que brotam de tua nudez
Dar-te um nome e o poder de uma nação
Tão vastos são os teus horizontes...

A Eternidade é Atemporal

"Penso que chega um momento na vida da gente, em que o único dever é lutar ferozmente por introduzir, no tempo de cada dia, o máximo de eternidade." - Guimarães Rosa
Uma água para fazer um café
A eternidade está no cheiro e nos olhos que se fecham para sentir
Despertar e não se levantar tão já
Eternidade são os sons dos pássaros que preenchem a bruma da manhã
Conversas corriqueiras sobre coisa alguma
A eternidade é a troca de olhares que se demora um segundo completo
Uma vitrola empoeirada ligada
Eternidade é o ruído nostálgico de fundo em cada faixa musical
Caminhar sob o céu repleto de estrelas
Eternidade é reconhecer júpiter ou a constelação de escorpião
Entrar em casa todos os dias exausta
A eternidade está no ronronar das gatas quando a porta se abre
O dia todo falando amenidades
Eternidade é quando os sorrisos e os olhares se encaixam
A vida passando à custa do tempo
Eternidade é um lapso transbordante de significado
No desconceito inventivo
A eternidade é atemporal, um temporal, uma chuva de beleza e de mistério.

Rendição

Atiraram-me um beijo pela janela
Em vez de desviar do tiro,
lancei-me como louca em ser o alvo.
O beijo-míssel flutuante e certeiro
atingiu-me da cabeça aos pelos.
Arrepiei-me toda;
senti o corpo inteiro beijado.
Meus passos descompassaram, e
com as faces rubras e febris,
viajei para o país dos ósculos.
Aquele beijo-bala atirou-me à poesia
e declarou fim às minhas guerras.

O ponto de fuga é o delírio da perspectiva

Ler acompanhada pelo céu e pelas árvores;
Ouvir passarinhos piando em outras línguas;
Viver com a cabeça na lua;
Caminhar palavra pelo silêncio de novos passos;
Praticar turismo disruptivo;
Desejar o fruto em sua inteireza;
Parir poesia das frases grávidas de palavras;
Sentir o cheiro derramado de café no tecido da manhã;
Embriagar-se de horizontes e tropeçar nos detalhes;
Andar sem rumo sem se perder de si;
Nunca terminar esse poema;

a paixão: puro afã (ou, amar é um deserto)

Antes de abrir os olhos,
sentia o crepitar granulado das areias
descoloridas dos teus olhos verde-ausências.

Ver-te já não era mais uma opção sensorial.

Explícita e incansável, visitei a folia das memórias
na ânsia de estar abrigada em tuas retinas;
sem cordas e blocos, sem sirenes e hospitais entre nós.

Era a forma mais palpável de tê-lo:
Fechar os olhos e tocar a tela das lembranças.

Carrego o peso de um corpo que inteiro
é capaz de recordar-te;
cada parte com seu jeito único e visceral de sentir.

Minha existência-colônia lançando areias
sobre os teus automóveis de Roma.
Tua existência-metrópole nem chega a me ver.

Cintilam areias consteladas numa noite qualquer
tal qual lágrimas suspensas e inertes
no deserto de dias que se somam ao silêncio.

Novamente viro a ampulheta
e o tempo nos escorre.