Oásis de Paz

Acostumada a um sentir morno
– sem arrepios, sem frisson, sem entrega –
empedrado, engessado, enferrujado.
De coração a-pa-ga–d—o…
Tropeço. (leia de novo, pois falo do verbo)
E, trôpega, levanto-me: vacilante,
à guisa de rebento parido.

Em um mundo quente e iluminado,
inauguro a íris cansada de ser-cristal.
Ávida por fluidez,
em sede desértica de sentir.

Só Sentir.

– como há tanto nem um vislumbre há, !
– como condenado à solitária em banho de sol,
– como cego que experimenta a visão,
– como paraplégico voltando a deambular,
– como cético que descobre a fé.

Sentir…
Quase beirando a insanidade
– impossível, impensável, inenarrável.

Mirando um novo começo,
danço.
Só danço.
Eu sou a dança.

Nada mais há para ser ou fazer.
A Nova Era não exige compreensão,
não cobra roteiros, não lança prazos.
E não, definitivamente, não calcula seu alcance.
Ela se enfeita de todo o tempo que se pode chamar
“agora”,
nutre-se de detalhes, de vírgulas, de entrelinhas:
sombra das árvores,
arrepio dos ventos,
som dos pássaros,
gosto da chuva,
calor da pele,
respiração,
sussurros,
sorrisos,
olhares.

Repouso as pálpebras e, em longos goles,
tomo ciência.
Algo grandioso se aproxima, ganha terreno,
explora todos os limites, coloniza.
Tempestade anunciada.
Inevitável.
Garanto que uma lágrima nasceu.
(É prima dissonante da flor de Drummond,
que rompeu o asfalto.)
Não pude conter o medo.
Sopro de angústia no coração desgovernado
quase cessa o batimento,
sufoca a respiração,
emudece o brado retumbante
de qualquer peito-nação.
Eu quis gritar, !
Eu quis fugir, ! Ora, essa é a hora de.
Vá! Agora! Quer ir!? Vá!


Mas a alma não se moveu,
tampouco se move,
não se afasta um único milímetro-dúvida
da inebriante fonte geradora de todo
esse confuso amontoado de palavras.

Pois lá,
somente lá,
ela encontra
seu oásis de paz.

Dreams of home – LSAuth 2016 – Guache sobre tecido

Já não sinto o coração livre

Já não sinto o coração livre
Contudo, mais leve ele se encontra
Preenchido de elementos etéreos:
Sim, sentimentos.
Pasmem, sentimentos.
Venham todos porque aqui há,
há Sentimentos!

Janelas e portas abertas:
Luz do sol entrando tímida
Mapeando frestas, cantos, quinas.
O frescor da manhã preenchendo tudo
Nesse coração-casa
Outrora fechado sem data de reabertura.

A propriedade foi invadida
Calmamente; Serenamente.
Brisa mansa, novos ares, outros ventos:
Invadida de beleza,
Colonizada de afeto.

Um cenário de aparência onírica:
Dois seres fantásticos se encontraram
Disseram sim um ao outro
Como para o nascimento da vida
no começo do mundo: a hora da estrela.
Disseram sim e, desde então,
tudo parece certo!
Perfeitamente construído.
Construindo-se.

A razão parece não concordar
Mas perde deliberadamente, pois
O ato é grandioso, é maior do que se pensa
Nem os atores-autores sabem o tamanho da cena
Apenas vivem a poesia
Obedecendo a comandos invisíveis
Sem ciência de roteiros
Lépidos, leves…
E perdidos no olhar um do outro.

Apaixonados?
Já não sinto o coração livre.

Alba Sáenz – Madrid 2018 – @ilustralba

Quereres

Nem sei, só sei
que te quero.

Meu querer é morada,
é pousada pro teu cansaço,
é carinho pra tua pele quente,
é abraço pro teu corpo fatigado de prazer,
é proximidade que faz perder o ar,
perder a linha, o senso, o controle.
Perder-se de mim.

Me achar em ti:
No olhar de desejo e cumplicidade;
Na respiração, ora intensa, ora entrecortada;
No sorriso lascivo e insistente
sem força de seriedade;
No jeito incrível de se aproximar,
de se fazer presente.
– Sorrateiramente delicioso –
No nome não dito, mas
em perfeita consonância de compreensão.

Incrível como você chega
com teu querer manso, despretensioso…
Ensinando-me que viver é arriscar-se.
Ah, bem sei, viver é um risco!
Porém, mais arriscado é não viver.
Obrigada!
Obrigada por teu doce querer.

Alba Sáenz – Madrid 2018 – @ilustralba

Cronicidades

Inexiste o presente.

Enquanto substância densa,
bloco de tempo, tempo em bloco.
O presente é limbo, linha, portal.

O futuro-nube: vasto, alvo, profícuo!
deliberadamente caminha nas horas
e é pó.
O passado-poeira: estéril, imutável, débil…
varre vacilante a cinza cronológica.
O presente-traço: tênue, fugaz, implacável!
é a dobra, a quina, a curva,

Espaço-instante que não se estabelece.
Só passa e é memória.

A Persistência da Memória – Salvador Dalí – 1931

Só uma dança

A gente no quintal do mundo
Sentindo a brisa das eras
No rosto, no cabelo, na pele.
Tudo em volta gira.
É uma dança, uma dança idílica.
A gente zonzo de tanto se amar
enquanto o mundo só faz rodar.
Só quero dançar e dançar
e dançar com você.

LSAuth 2019
BlueMoonRiver ©️2019 LSAuth. Acrílico sobre tecido.

Amor-delírio

Matar saudade,
Afogar-se em beijos.
Vem morrer comigo, meu bem,
É doce morrer nesse mar de lembrar
– de ti – e nunca esquecer.
Mas eu fico com Gonçalves Dias:
Se se morre de amor! Não,
não se morre.

Retalho de silêncio

Sim, naturalmente as palavras são nossas ferramentas de sobrevivência, afinal, como colocar nossos desejos sem a linguagem? Isso, claro, em se falando da linguagem verbal, que é a principal e rege a comunicação.

Ah… mas existe o silêncio: um grande imperativo nas relações que é quase como o ar, como a ideia de Deus, onipresente, onde tudo se apoia. As palavras são o burburinho imaturo que dança no espesso tecido do silêncio. Espesso sim, pois está longe de ser somente a ausência de som. Antes, é o berço de toda nota musical que ecoa, seja em prosa ou em verso.

Pena não sabermos lidar com sua múltipla significância e, como bobos, tentarmos evitá-lo, não acreditando em seu poder. Ora, o silêncio é anterior à linguagem, é eterno, sempre existiu, sempre existirá. As palavras são como as almas errantes que vagueiam no universo, têm começo, meio e fim.

E fim.

23h23

Quando acho que já estou
impregnada de poesia,
vem você e transborda
a sua beleza em mim…

Fotografia de Priscila Talita – @pri.talita