Doce Limite

Fala comigo só com poesia…
Esquece o vil significado das palavras,
embaralha a semântica do léxico,
preenche todos os sentidos com o lírico.
As palavras:
Faz elas bailarem para mim, só pra mim.
Põe elas na ponta da língua, do lápis, dos dedos.

Sopra teu encanto ao pé dos meus ouvidos,
me olha com esses olhos de incredulidade;
Bagunça meu cabelo e diz que estou linda,
linda, linda, linda…
Abraça esse corpo que te quer.
Que te quer bem, que te quer logo.
Aquele abraço-oásis.
Forte, encaixado, na medida do desejo.
E só, só nosso.

Vem, me deixa encabulada com o silêncio,
diz que viu o horizonte em meus olhos.
Claro que eu vi!
Eu vi o brilho transbordando nos seus
enquanto fitava os meus.

Me tira do prumo,
Me faz extravasar nessa escrita errática
qual criança experimentando as pernas,
atropelada pela vontade de você.

É muito coração pra dar.

Me leva nas suas palavras,
Nas suas cartas,
Na sua estação de trem,
Na viagem pra qualquer lugar,
Na fotografia instantânea da memória:
cortina estrelada, lua crescente,
palmeiras em novos ângulos,
areia gelada, som de mar à noite,
brisa noturna, beijos quentes,
Me leva.

Me leva pra outro tempo,
Outro século, outra época…
Só me tire de onde não há você,
Onde a ideia insiste no papel de projeção
Me mostra a tua concretude –
– ainda que efêmera.
O que deseja?
Só uns minutos meus? Te dou.
Uma hora minha? Te dou.
Um dia inteiro meu? Te dou.
Uma vida? Te dou.
Ainda deseja? Te dou.

Mas não esquece,
Fala comigo só com poesia.

Precipitação

Incisuras luzidias invadem um céu
de homogênea inércia impregnado.
Fração temporal sus-pen-sa
no exato espaço-instante prévio.
Mistério prestes a desabar
Imerso em surda audição
Clama o cortante grito celeste
Enquanto a íris vitrificada
Segue hipnotizada pelo ato:
Arte em tempo real
Irreal
Surreal
Fantasia tresloucada,
Ansiada histeria das nuvens
Desfazendo-se;
Purificando-se;
Liquidificando-se…
Coloniza todas as frestas
– Insistentes feridas abertas –
Avassaladora ânsia no propósito
de inaugurar recomeços.

Precipita-te.

Tímida Ousadia

Ah… a ousadia dos tímidos
Escondida, misteriosa, furtiva!
Saborosa intensidade
Nas entrelinhas, nas vírgulas,
no fôlego perdido, no olhar,
Simplesmente está.
Como um segredo
Como os mistérios do mundo
Como as estrelas todinhas
-do outro lado do telescópio-
Todos os astros celestes
Todos os seres invisíveis
Simplesmente estão.

Só saber onde olhar.

Não me chama pelo nome

Quero a poesia que não.
A música, a sintonia.
Há música? Há sintonia?
Notas ignotas
Vazias de informação e barganha

Onde o colorido do outono
Perdido onde?
Grama fofa de um parque nunca visitado
Pés gélidos de orvalho
Descalços?
Janela descortinada
Quadro sem moldura
Tarde turquesa, trivialidades, amenidades
Moldes?
Brisa sem cheiro
Vento sem vendaval
Descabelado?

Suspiro suprimido, suspenso
Contido, travado
No ar

Lágrima que não nasce
Abortada
Ectópica
Imparida, infértil, indesejada, imóvel
A es-pe-rar
Do verbo mesmo
Não do substantivo.
Sedenta de substância
Que súbito faça quedar
Em nossa prosa infinita
Nas marcas e nos sorrisos
Nas mãos que não se entrelaçam
No despedir-se sem olhar para trás
Na ausência
E
Nos braços daquele
que não me chama pelo nome.

23 de abril.

De repente, avesso.
Num piscar de olhos o mundo se inverte.
E ainda se é o mesmo. (Ainda?)
Trocaram o cenário com a cena inacabada.
A sensação de deslocamento sufoca.
Esse não é o seu ato.
Essa não é a sua deixa.
Esse não é o seu momento.
Essa não é a sua vida.
Um denso vazio se infiltra com a surpresa.
Perceber tamanho engano é paralisante.
O mundo sempre esteve ao contrário
E você que não reparou?

Ex-amor

Depois despencou vertiginosamente
Como montanha-russa na primeira queda.
Sem gritos;
sem frio na barriga;
só uma poça de lágrimas no fim da descida.

Decida!
Não se morre de amor-delírio,
só de amor-amor.
E os dias seguem taciturnamente vívidos.

Claramente foi um devaneio,
Um efêmero de brilho nos olhos,
beijos fantásticos,
incrível jeito de amar.

E se foi.
De repente, não mais que de repente.
Deixou alcançar o ápice e:
se foi.

Deslize

Acordei querendo
Cometer um deslize
Da sua pele na minha…

Há tantos desejos
Ora palpáveis, ora etéreos
A transbordar em grito,
Tremores, abraços, olhares.

Sem planos, só vem!
Todo dia – ou quase –
Vira meu vício.

Pássaros noturnos

Pássaros noturnos são prenúncios
De agradáveis noites de serenidade.
Apenas ouvidos atentos os ouvem
E percebem seus cantos delicados.

O reles passageiro do mundo
Sempre transbordado de inutilidades
E ouvidos ocupados de palavreados
Não nota o lírico som da noite…

Os pássaros sempre lá estarão
A bater ponto na cortina estrelada
Como fiéis mensageiros da paz.

Quando os ouvidos forem coração
A doce presença será incontestada
E nítido será o som que a noite faz.