Daqui a pouco vou,
faço um café
e as coisas vão se ajeitando.
Sem mas.
Amar é fácil
Depois de se livrar
dos poréns.
Escrever oprime
Escrever é foda!
A palavra é traiçoeira:
Por maior que seja o esforço de tradução,
o que sai em verbetes ganha outro formato.
A emoção traveste-se no que foi escrito.
Já não é aquilo que nasceu na abstração.
O concreto rearranjo do léxico engessa
o significado prévio e o diminui,
mas tanto que dá pena.
A palavra, tão abusada, rouba o lugar da ideia,
tão subjetivamente lírica.
Terrível necessidade de aprisionar sentimentos em linguagem verbal.
O mundo das ideias é vastidão
Não cabe nas fronteiras do real.
Justiça Enzimática
Vontade de comer o mundo,
afogar num mar de suco ácido
toda amargura que vagueia sombria e pegajosa
em exaustas retinas de vívida opressão.
Engolir tristezas milenares,
ruminar polímeros de dor e convertê-los
em meros monômeros de esquecimento.
Catabolizar as fibras hipertrofiadas da iniquidade.
Justiça Enzimática.
Aprisionar no ventre toda fala torta que ignora o direito de outras vozes.
Aos poucos, bem aos poucos,
(a mudança exige urgência,
contudo mudar requer paciência)
digerir em silêncio os excessos.
Os excessos de toxicidade das espécies reativas.
Quando à sua forma mais primitiva
o tudo do mundo estiver reduzido,
a ressignificação das ruínas sociais
dar-se-á implacavelmente
como riso desenfreado, irrestrito, revolucionário.
A via de eliminação virá aos que a risada da justiça parecer macabra.
Não haverá espaço para os espaçosos.
Serão eles pesados, medidos
e considerados insuficientes
ao organismo da nova era.
Ignorada a alternância diária imposta,
os injusticeiros serão naturalmente expurgados. Quase por conta própria.
O ambiente será hostil àqueles que outrora hostilizaram seus semelhantes.
O novo SER homeostático será dono do mundo.
Do ser-tão ao ser-vir:
Entre substantivos e verbos equânimes,
nada escapará do compasso peristáltico do porvir.

A-mar
Às vezes me flagro em armadilhas
-pela minha própria mente armadilhadas.
Tão ardilosa!
Bem sabe onde o calo aperta,
sabe bem onde há ferida aberta.
Mergulha deleitosa no mar de dor
onde a rima óbvia se afogou.
Sinto muito.
Apaixonados não é a palavra.
Talvez ainda. Talvez nunca.
Passeiam almas num trecho de vida.
(Quer-se algo?)(Há algo a se querer?)
(Se é que se quer) O que se quer não se diz:
Nomear pode petrificar, encarcerar na palavra,
esterilizar.
O cerebelo à espreita para tornar tudo
maquinalmente vivível.
Dar forma pode calar para sempre o que
podia ter sido.
Opressivo é a palavra?
O carcereiro canta como sereia:
Carcereia, Carsereia.
Um passo pro cárcere, um passo pro fim.
Passam pássaros.
Seus cantos-bolhas rompem-se em música
num auxílio de garganta seca
aos pensamentos que não aprenderam a silenciar.
Ah, confesso, acuso, delato:
Há um grito contido aqui!
aquietado pela sensatez tão matrona, tão
cúmplice do ego e da maturidade.
E está errada? não está.
O grito é pueril, nada sabe do difícil
ofício viver.
Melhor que brinque de ser só aqui dentro.
Lá fora seria inconvenientemente emocionado.
Mas fica por aqui, não deixa tua casa,
meu filho-grito:
Pro peito não achar que é Só
só uma caixa de bulhas.
Pra saber que ainda tem pulso.
Deixa teu ensaio arrítmico
no gatilho do potencial de ação.
Só pra eu não pensar que morri.
Se eu chorasse seria mais fácil?
Sinto falta de chorar.
Ah, sinto muito.
Desenha-me uma Saudade
Desviver
Eu digo não
Eu digo sim
Digo ou desdigo
Não é bem assim
Estou certa disso
Claro como água
Água turva
Não sei, espera
Espera um pouco
Com certeza
Estou em dúvida
Confusamente
Certamente
Vivo ou desvivo
(2016)
Hey, Baby
Nem te chamo pelo nome,
mas já és o mais presente na minha vida.
Silêncio que fala amor.
Às vezes grita.
O silêncio entre nomes e sentimentos
Todas as palavras ditas e não ditas
estão presentes entre nós
disponíveis como numa imensa vitrine:
Nomes próprios, apelidos, vocativos,
sentimentos dos mais variados,
grandes, pequenos, médios, fortes, fracos.
Todos lá esperando cumprirem suas funções.
Funções puramente linguísticas.
Mas nós vamos além.
Nossa comunicação (posso dizer?) é transcendental.
Está no silêncio,
nos já conhecidos detalhes,
nas mãos que se acariciam e tão facilmente se entrelaçam,
nos sorrisos apaixonados que o brilho nos olhos já entrega,
na tácita certeza das potencialidades sentimentais.
A comunicação nasceu antes das palavras
e nesse aspecto somos conservadores.
Num mundo onde a semântica do vasto léxico
pode ser uma prisão,
nossa liberdade é incalculável.
Que sensação incrível!
Nunca havia experimentado ser livre dessa forma.
Liberdade através do silêncio.
Do silêncio mais repleto de significado que pode existir.

