Cronicidades

Inexiste o presente.

Enquanto substância densa,
bloco de tempo, tempo em bloco.
O presente é limbo, linha, portal.

O futuro-nube: vasto, alvo, profícuo!
deliberadamente caminha nas horas
e é pó.
O passado-poeira: estéril, imutável, débil…
varre vacilante a cinza cronológica.
O presente-traço: tênue, fugaz, implacável!
é a dobra, a quina, a curva,

Espaço-instante que não se estabelece.
Só passa e é memória.

A Persistência da Memória – Salvador Dalí – 1931

Só uma dança

A gente no quintal do mundo
Sentindo a brisa das eras
No rosto, no cabelo, na pele.
Tudo em volta gira.
É uma dança, uma dança idílica.
A gente zonzo de tanto se amar
enquanto o mundo só faz rodar.
Só quero dançar e dançar
e dançar com você.

LSAuth 2019
BlueMoonRiver ©️2019 LSAuth. Acrílico sobre tecido.

Amor-delírio

Matar saudade,
Afogar-se em beijos.
Vem morrer comigo, meu bem,
É doce morrer nesse mar de lembrar
– de ti – e nunca esquecer.
Mas eu fico com Gonçalves Dias:
Se se morre de amor! Não,
não se morre.

Retalho de silêncio

Sim, naturalmente as palavras são nossas ferramentas de sobrevivência, afinal, como colocar nossos desejos sem a linguagem? Isso, claro, em se falando da linguagem verbal, que é a principal e rege a comunicação.

Ah… mas existe o silêncio: um grande imperativo nas relações que é quase como o ar, como a ideia de Deus, onipresente, onde tudo se apoia. As palavras são o burburinho imaturo que dança no espesso tecido do silêncio. Espesso sim, pois está longe de ser somente a ausência de som. Antes, é o berço de toda nota musical que ecoa, seja em prosa ou em verso.

Pena não sabermos lidar com sua múltipla significância e, como bobos, tentarmos evitá-lo, não acreditando em seu poder. Ora, o silêncio é anterior à linguagem, é eterno, sempre existiu, sempre existirá. As palavras são como as almas errantes que vagueiam no universo, têm começo, meio e fim.

E fim.

23h23

Quando acho que já estou
impregnada de poesia,
vem você e transborda
a sua beleza em mim…

Fotografia de Priscila Talita – @pri.talita

Doce Limite

Fala comigo só com poesia…
Esquece o vil significado das palavras,
embaralha a semântica do léxico,
preenche todos os sentidos com o lírico.
As palavras:
Faz elas bailarem para mim, só pra mim.
Põe elas na ponta da língua, do lápis, dos dedos.

Sopra teu encanto ao pé dos meus ouvidos,
me olha com esses olhos de incredulidade;
Bagunça meu cabelo e diz que estou linda,
linda, linda, linda…
Abraça esse corpo que te quer.
Que te quer bem, que te quer logo.
Aquele abraço-oásis.
Forte, encaixado, na medida do desejo.
E só, só nosso.

Vem, me deixa encabulada com o silêncio,
diz que viu o horizonte em meus olhos.
Claro que eu vi!
Eu vi o brilho transbordando nos seus
enquanto fitava os meus.

Me tira do prumo,
Me faz extravasar nessa escrita errática
qual criança experimentando as pernas,
atropelada pela vontade de você.

É muito coração pra dar.

Me leva nas suas palavras,
Nas suas cartas,
Na sua estação de trem,
Na viagem pra qualquer lugar,
Na fotografia instantânea da memória:
cortina estrelada, lua crescente,
palmeiras em novos ângulos,
areia gelada, som de mar à noite,
brisa noturna, beijos quentes,
Me leva.

Me leva pra outro tempo,
Outro século, outra época…
Só me tire de onde não há você,
Onde a ideia insiste no papel de projeção
Me mostra a tua concretude –
– ainda que efêmera.
O que deseja?
Só uns minutos meus? Te dou.
Uma hora minha? Te dou.
Um dia inteiro meu? Te dou.
Uma vida? Te dou.
Ainda deseja? Te dou.

Mas não esquece,
Fala comigo só com poesia.

Precipitação

Incisuras luzidias invadem um céu
de homogênea inércia impregnado.
Fração temporal sus-pen-sa
no exato espaço-instante prévio.
Mistério prestes a desabar
Imerso em surda audição
Clama o cortante grito celeste
Enquanto a íris vitrificada
Segue hipnotizada pelo ato:
Arte em tempo real
Irreal
Surreal
Fantasia tresloucada,
Ansiada histeria das nuvens
Desfazendo-se;
Purificando-se;
Liquidificando-se…
Coloniza todas as frestas
– Insistentes feridas abertas –
Avassaladora ânsia no propósito
de inaugurar recomeços.

Precipita-te.