De manhã acordo
Escrevo de madrugada minhas juras virtuais
Releio tudo
Tomo uma dose de coragem de dia
Espero que encontre cama quente para os meus suspiros virtuais
De madrugada sonho
(te quero)
De manhã acordo
Escrevo de madrugada minhas juras virtuais
Releio tudo
Tomo uma dose de coragem de dia
Espero que encontre cama quente para os meus suspiros virtuais
De madrugada sonho
(te quero)
Dane-se a razão
tudo milimetricamente
Quadrado sem curva
Reto e sem corpo
Gosto de sentir
Razão serve pra trabalho
Pro amor é outra coisa
Sonhar
Suspirar
Saudade
Beijo
Mãos dadas
Teu sorriso
Li no jornal:
“A maior frente fria do ano”
Mal sabem, fria é como ela está comigo
Pode ser a pior do século
Durando para sempre
Sábado ela deve passar
Todos estão torcendo
Escutei na rua:
“Nenhum carioca gosta de frio”
Concordo com ele
Como competir com o silêncio?
Acalma e aborrece
Presente na totalidade do dia
Que injusta concorrência
Não fico mais em silêncio
Não gosto dele
Apenas quando tem olhos
Pele com o pelo
A boca que o rompe, cede
Encosta em outra boca
Transmite o melhor silêncio
Só esse me interessa
Apenas o justo silêncio
Quero resolver com você a nossa vida.
Os traços
Os contornos
Que lápis ou pincel vamos usar
Se vai ser um quadro ou um texto
Se vai ser a óleo ou carta
Mas quero acabar com essa angústia
Que sobe do estômago ao coração
Pesa aos olhos
Lava-os
Qualquer música faz sentido e é certeira.
Estive pensando há algum tempo se realmente quero ficar assim. Tem um tempo que não me importo com coisas importantes, nem ligo se é sábado ou sexta. Se quem canta é Caê ou Bethania. Não escuto mais, estou no automático. Sou uma pessoa triste porque fiz uma soma fácil que qualquer um pode fazer. Não há possibilidade de volta. Agora daqui pra frente é seguir o melhor caminho. Era para ser tudo lindo e não é. Chega! não quero mais!
Não quero mais…
Quero admitir que errei o cálculo, a soma não era essa. Fiz uma soma porque levei o principio contábil à risca: “principio da prudência”, que é basicamente colocar mais valor para coisas negativas do que as positivas, a fim de não trazer distorções e falsas percepções. Infelizmente errei.
Quando falei que era triste, não levei em conta a sua coeficiência. Sempre trazemos para si os problemas do imperativo categórico cotidiano burocrático como uma mochila pesada que incomoda; por ser um fardo não nos esquecemos.
Porém há outros fatores que mudam essa soma, e são coisas simples, como aqueles cinemas em lugares incomuns que íamos para ver filmes pouco vistos no Brasil. Ir para uma ilha para transar – no meu caso fazer amor (tom sério). Os teatros que fomos, desde o Tartufo a Baker. Até mesmo aquele que não entrei, mas te levei na porta (Kafka). Todos os sábados que conversamos sobre TUDO, sem exceções. Todas as manhãs que acordamos tarde. Pão de queijo com vinho e batata frita. Gramas. Morros cariocas. Sair para tomar um drink com nome de cantor espanhol e ouvir música boa. Ler livros juntos. Batizar as plantas com nome de gente e misturar com a espécie, uma tentativa pífia de rimar, quase como um “zorra total”. Subir morros e olhar para baixo e depois descer (rs).
E o principal: olhar para o outro, aquele que você quer naquele instante, e ter medo de falar tudo. Achar que está entregando o ouro, deixar ele saber que está feliz, mas não muito para não achar “coisas demais”. Não dizer todas as palavras que saltam o coração. Dormir com toda a segurança de onde vem as batidas do peito. Fazer casa sem teto e parede.
Por isso não quero mais…
Não quero mais ficar sem esse elemento no meu balanço, esse elemento é VOCÊ.
“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.” Clarice Lispector
(Texto em carta)
Se ela não tivesse ido ao forró
Se ela tivesse deitado comigo na primeira noite
Se ela não tivesse olhado o app relacionamento
Se ela não tivesse pegado dengue
Se ela não escrevesse poesia
Se ela não gostasse de música
Se ela não tivesse o cabelo de fogo
Se ela não fizesse as suas intervenções poéticas no meu desodorante
Se ela não lesse junto
Se ela não pegasse na mão tão doce
Se ela não tomasse banho junto
Dormisse
Conversasse
Olhasse
Respirasse e
Dissesse as coisas tão juntas..
Não sei se estaríamos aqui
Sim, eu sei que os imperativos cotidianos minguam nossas energias. O prognóstico só piora com o cada vez mais precoce retorno do calor empenhado em fritar nossa sanidade mental. Calor e cotidiano: sugam até o tutano de nossas forças até nos tornarem cópias de zumbis protagonistas de macabras comédias. Só rindo para não doer. Aquela trilha sonora de matar: motores demais, buzinas demais, excessivos alarmes de portas-se-fechando, profetas do vagão organizando o trem da salvação, ambulantes com próteses amplificadoras nas cordas vocais, ecléticos adoradores musicais que esqueceram o fone em casa, galos de briga (galinhas, cavalos, porcos, desce logo o celeiro todo) que não conhecem línguas menos afiadas para diluir desavenças. Em meio às caóticas notas da vida moderna, que, para nós, célebres líricos, já poderiam compor canções obsoletas e esquecidas em gavetas; pausa;
existe eu e existe você.
E que sorte a nossa. Existe o alívio surdo da nossa presença no mundo, por aí existindo, qualquer que seja a esquina de eternidade em que nos encontramos e, por sorte, nos desencontramos desse mundo. Mas não vá muito longe, quero me desfazer só-desse-mundo – rabiscado aos tropeços pelo grafite errático da Entidade Contemporânea.
A Entidade Contemporânea: esse monstro desengonçado, que equilibra uma miríade de penduricalhos despejados pela tecnologia nas já tão desequilibradas cabeças humanas. Mais um carregador de lixo que de utilidades. Nos olhos, óculos de irrealidades virtuais; nos ouvidos, fones hipnotizadores de tímpanos; no pescoço, almofadas em C para, em pé mesmo, quem sabe dormir um sono tão injusto. Na face, maquiagem pesada para esconder a vergonha de não saber-se – afinal, é feito de quê? Sobre os ombros, o peso de um mundo parco de humanidades. Obsolescência programada para a alegria de viver. O que sobra nem sei. Nem sei se sobra.
Mas sei dos nossos cantinhos cativos, nossos refúgios, ora povoados de eu sem tu ou tu sem eu, ora repletos de nós, nós de laços e nós de emaranhados. Leituras, passeios, vinho bem gelado, nosso espaço em cama de solteiro. Delícia aquela impaciência nossa de cada dia, tão antagônica à profunda gentileza nas “brigas”. Ah! e aquela sua vontade de brigar é tão gostosa! Seu argumento é que é péssimo: não dá pra viver sem emoção. Concordo sobremaneira! Só prefiro a emoção do amor: O súbito querer estar junto a qualquer custo; a certeza que basta a presença do outro em qualquer destino; o “queria só dormir contigo, pode ser?”; beijar depois de discutir relação; o “te quero” imprevisto; pegar um barquinho…
Esses detalhes cotidianos sobressaltam meu coração e é dessa emoção que eu estou falando, essa emoção que eu me esforço em manter e que me entristece tanto quando esmorece. Está longe de ser uma declaração diária obrigatória, é mais um deixar o outro saber que faz parte da lista de nossas urgências, e de nossas calmarias.
Se fizer, é claro.
Bem, se existe um problema ou uma família de problemas, como proposto por Leminski, certeza que é aí que eles moram. Se o interesse não é verbalizado como saber que não é desinteresse? Grande falácia, isso sim. Eu sei que esse questionamento parece um bom dilema argumentativo, mas francamente, é só mais um capítulo de “Verdades cruéis demais para serem ditas sem eufemismos” (em “eufemismos” leia-se “cachaça”).
Preciso de uma interjeição de emergência para tentar arrumar toda essa dessincronia de palavras. UAU! Esse texto dá uma puta reviravolta, parece até que suas partes foram escritas por pessoas diferentes em épocas diferentes! É porque foram mesmo. O eu do início nem sei mais onde estava, apesar de também não ter muita certeza de onde está o eu de agora, principalmente agora enquanto lês. Está confuso, eu sei, eu estou confusa. Não sei se quero este cenário, mas acho que não e o acho cada vez mais.
Não houve planos. Pela primeira vez, meu raciocínio-engrenagem não soube como proceder e isso era embaraçosamente espantoso.
Eu era especialista em roteirizar, sempre senti a presença fria e tácita do fim, dos finais das minhas novelas. Banhada em lágrimas dissonantes, vi passarem por mim meus amores – pessoas e possibilidades – até perderem, ou não, seus status de amor. Sofria sem dó de sofrer. Eu era a inspiração etimológica da palavra sofrência, tão comum nas composições musicais da atualidade.
Em minha repartição, as lágrimas eram fiéis funcionárias, batiam ponto até em dias santos! Foi no feriado de 23 de abril de 2018 que eu me despedi de um casamento de nove anos e inúmeras impossibilidades. E, não pelo cônjuge, sim pelo conjunto da obra, chorei. Não é fácil fechar um livro com tantas páginas escritas, tantas seguranças já catalogadas e se aventurar em folhas brancas, fantasmagoricamente alvas. Com tinta e sem pena, continuei a escrever.
Quando um certo ele chegou, não tive mais forças para estar no controle. Logo eu, ah, eu não, socorro. Até um livro meu – até um livro! – voou de minhas incrédulas mãos e pousou nas dele com a naturalidade de um presente de aniversário. Suas páginas versavam sobre silêncio. Eu estava ali me entregando até na ausência de palavras, como um grito contido, mudo de perplexidade. Um mar de potências infinitas se abria para nós, e talvez isso carregasse uma intimidação inesperada e até assustadora. Minha voz se habituou a dizer que ele tinha potencialidades para ser o amor da minha vida. Deveras piegas, é claro. Esse discurso apenas ouvidos amigos guardaram. Até o “você sabe que eu já te amo” de um sonho que tive na primeira noite que dormimos juntos, até isso, ficou guardado comigo na pasta mental de sentimentos insanos.
Eu escancarei – mas muito – o nosso amor (havia aspas aqui, até elas se cansarem da minha indecisão de mantê-las e partirem à revelia), nossa história virou assunto, babado forte, “olha isso aqui, melhor ler pra entender”. Ora, a raridade era demais e, como rastro de pólvora, como reação em cadeia, não pode ficar presa nas nossas entrelinhas. Virou um livro aberto, uma “face news”, uma medida para bons encontros. Se vocês acham que eu sofri quando acabou com P, imagina quando acabar com B. Evidente como preto no branco.
Jamais lhe falei tão claramente sobre o labirinto em que me encontrava perdida depois do sem-fim de palavras, deliciosas palavras, que trocamos em delicadas e dedicadas cartas virtuais. Sim, eram verdadeiras cartas. Em tudo havia um viés idílico, quase como um sonho de uma noite de verão. Consonante até nisso, pois que era janeiro. A autoria poética folgava apenas nas inúmeras letras de músicas que serviram de porta-vozes para os sentimentos. Meus sentimentos.
“Meus sentimentos” é a expressão dualística perfeita para intitular este trecho de vida; um enredo solitário sem plateia, sem picadeiro, sem piedade, isso para ficar só no “P”. Monólogo fúnebre sobre a morte do que nem sequer nasceu: um aborto entregue à sorte num qualquer beco de memória. Tua lábia astuta travestida de dócil eloquência me enganou, mas nas entrelinhas me avisou, afinal tem uma beleza nas coisas que se transformam e somem. Incrível como o famigerado “bom demais pra ser verdade” parece fazer tanto sentido depois da sua passagem.
– Meus sentimentos pela sua perda. (Fim do ato.)
Foste tu uma espécie de “ele” tão lindo, estonteantemente belo. Só com o léxico, forjamos um exemplar de amor absurdo. Era um amor-semente, como todo amor saudável. Eu disse lábia astuta? Oh não, eu me enganei. Foram as mais lindas palavras articuladas a mim. Não posso ser injusta ou ingrata com tanta beleza nas falas porque isso seria pura leviandade. A poesia era o ar que nós respirávamos e depois que tu partiste, tudo aqui ficou tão triste e eu fiquei com o silêncio. Ainda bem que éramos velhos amigos, o silêncio e eu, e do insonoro fiz nascer um lirismo genuíno. Há certas ações que nos suprimem o ar e preenchem os vazios da voz.
Mixórdia urbana
Tudo muito confuso.
Imersa num calor delirante,
eu só queria uma água.
Minha sede de garganta seca
Versus tua sede de nó na garganta
Eu sem dinheiro em espécie
Versus teu dinheiro-espécie em extinção
Minha perplexidade congelada na retina
Frente tua fala generosa:
“não passa cartão, mas vende fiado”
Seis verbetes revolucionariamente unidos, !
Tua confiança de que eu voltaria
tão certa quanto tua escassez de perspectiva:
“depois você me paga”
Um depois do tamanho da tua vida camelódica
e eu quero é que esse canto torto, feito faca,
corte a carne de vocês
A consciência ferida aqui ainda é sangrante
Sangue vivo escarlate escorrendo espraiado
até a morte, mas não a minha, a tua.
Tua vida gritada de severinilidade
Versus a minha privilegiada vida.
Tonalidades e tons teimosos
desta tua-nossa Central do Brasil.