Estive pensando há algum tempo se realmente quero ficar assim. Tem um tempo que não me importo com coisas importantes, nem ligo se é sábado ou sexta. Se quem canta é Caê ou Bethania. Não escuto mais, estou no automático. Sou uma pessoa triste porque fiz uma soma fácil que qualquer um pode fazer. Não há possibilidade de volta. Agora daqui pra frente é seguir o melhor caminho. Era para ser tudo lindo e não é. Chega! não quero mais!
Não quero mais…
Quero admitir que errei o cálculo, a soma não era essa. Fiz uma soma porque levei o principio contábil à risca: “principio da prudência”, que é basicamente colocar mais valor para coisas negativas do que as positivas, a fim de não trazer distorções e falsas percepções. Infelizmente errei.
Quando falei que era triste, não levei em conta a sua coeficiência. Sempre trazemos para si os problemas do imperativo categórico cotidiano burocrático como uma mochila pesada que incomoda; por ser um fardo não nos esquecemos.
Porém há outros fatores que mudam essa soma, e são coisas simples, como aqueles cinemas em lugares incomuns que íamos para ver filmes pouco vistos no Brasil. Ir para uma ilha para transar – no meu caso fazer amor (tom sério). Os teatros que fomos, desde o Tartufo a Baker. Até mesmo aquele que não entrei, mas te levei na porta (Kafka). Todos os sábados que conversamos sobre TUDO, sem exceções. Todas as manhãs que acordamos tarde. Pão de queijo com vinho e batata frita. Gramas. Morros cariocas. Sair para tomar um drink com nome de cantor espanhol e ouvir música boa. Ler livros juntos. Batizar as plantas com nome de gente e misturar com a espécie, uma tentativa pífia de rimar, quase como um “zorra total”. Subir morros e olhar para baixo e depois descer (rs).
E o principal: olhar para o outro, aquele que você quer naquele instante, e ter medo de falar tudo. Achar que está entregando o ouro, deixar ele saber que está feliz, mas não muito para não achar “coisas demais”. Não dizer todas as palavras que saltam o coração. Dormir com toda a segurança de onde vem as batidas do peito. Fazer casa sem teto e parede.
Por isso não quero mais…
Não quero mais ficar sem esse elemento no meu balanço, esse elemento é VOCÊ.
“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.” Clarice Lispector
(Texto em carta)