Os dois lados da janela

(ao amigo Ronaldo)
Meu isolamento é nada
Enquanto eu só, muitos voltam ao pó
Eu desço nessa solidão, aterrizo
As plantas dos pés, as digitais
Digitálicos são insuficientes
Ao meu coração congesto
Os dígitos estão a esmagar-nos
Faltam contadores
Para as nossas histórias interrompidas
Rompeu-se a linha do meio. Milhão

Milhões de vezes eu lá sorri
Naquele beco de corujas. Lá
Naquele Trem das Cores
Mel de olhos luz, a Vista que embaça
Difícil ser Alegre, difícil ser.
A máscara cobre o grito, cobre o canto
Teu canto que não encantará mais
Mas ecoará na pura memória, de algum lugar
Em comemoração à tua passagem
Seremos vivos dia após dia
Dia após dia os átomos todos a dançar
Como crianças cor de romã
Seremos vivos

Azul

Como pode não gostar
de azul
Azul a cor da imensidão
Azul o céu que invade-me
Todas as manhãs

Todas as manhãs
não são mais as mesmas
Já não acordo bonita
de olhos misteriosos e asiáticos
Pesam-me olheiras opacas
Não de noites mal dormidas
Sim de dias mal vividos

Nas pálpebras envergadas
carrego o instante-quase
o ponto de inflexão
entre o que sou
e o que poderia ter sido

São sete horas da manhã
Não vejo o Cristo da janela
O azul é pesado
E desaba sobre mim
esperar-te entre serenas paredes
que versam sobre o ar que respiras
é como estar diante dos instantes
que antecedem um grande acontecimento
daqueles que alteram a polaridade do globo
que modificam a rota dos astros
que mudam uma - ou duas - vidas
para sempre
(ao artista Paulo Gustavo)
rir até faltar o ar
jamais faltar o ar
até não poder rir
miríades
de sorrisos desfeitos
mais de 400 mil
para ser inexata
de filhos deste solo
que a este solo voltam
risos afogados
em lágrimas diluvianas
este circo
minha gente
acaba quando?

Quase um Monet

hoje é domingo
e logo em abril
um sol de banho
brisas de inspirações
e expirações demoradas
luz de dourar os cabelos
de contrair pupilas
cerrar os olhos; um sorriso
no encontro dos lábios
superior e inferior
da mesma boca
sempre sempre ali
pios de pássaros
árvores verdes
céus azuis
etcetera
hoje é domingo
ah, e logo em abril
o cenário perfeito
para esconder a lágrima
uma nascente de lágrimas
poço enchente represa
dilúvio cachoeira oceano
granulados de cintilantes lágrimas
brilhando pesadamente o silêncio
céus-verdes-árvores-azuis
um exílio sofisticado
disfarçado
de obra de arte
quase um Monet

É morte

metade de mim é silêncio
silêncio de morte
a outra metade é espera
e desesperança

os risos soltos presos
no cárcere da culpa
mar de lágrimas berrantes
e silêncios emudecedores
não há alegria que se sustente
nem ânimo que se sinta justo
nenhum orgulho poético

grãos finos de chuva
garoando do lado de dentro
nenhuma alma lavada
antes lama acumulada
no pântano da tristeza

incontáveis rainhas a se coroar
inúmeros planos sonhados
mas agora inês é morta
sônia é morta, cristina é morta
maria é morta, paulo é morto
valdeci é morto, carlos é morto
é morta, é morto, é morte
quatro mil quatrocentos mil

que as máscaras sirvam
ao menos para cobrir as faces
da vergonha

Marginalizada

Deixem-me à margem
à margem dos dias reais:
corriqueira dureza diamantada
esculturas de sentimentos sem faces
expressões vocais e visuais sufocadas

gritos mudos

sorumbáticos

Rio estéril de sentidos mortos
varridos todos pela poeira
de barulhentas buzinas
de anúncios de televisão
de aparelhos smartphones
de praças de alimentação

Oh, por favor
dessa realidade
deixem-me à margem

Me vê 1kg de perdão?

Falta-me coragem
De pedir que me perdoe

Perdoe-me exigir
um reflexo meu em ti

Perdoe-me a madureza
no quesito parceria,
e pela escassa paciência
em te esperar avançar.
É que eu não tenho mais
oitenta anos pela frente.

Perdão por ainda insistir
e te violentar
com protocolos infindáveis
de relacionamento exemplar

Perdão por cair na sua
conversa mole outra vez
outras vezes
E pela coragem vacilante
quando digo que vou embora
esperando ser convencida a ficar

Perdão por falar em amor
no dia da despedida.
E ainda por fazer rolarem
suas raras lágrimas.
Que vergonha
Sou muito mais sórdida
do que consigo admitir.

Perdoe-me a covardia
de te deixar nos iludir
pensando que resolveremos.
Preciso antes, muito antes
resolver-me.

Perdão por não saber terminar
nem o poema.