(ao artista Paulo Gustavo)
rir até faltar o ar
jamais faltar o ar
até não poder rir
miríades
de sorrisos desfeitos
mais de 400 mil
para ser inexata
de filhos deste solo
que a este solo voltam
risos afogados
em lágrimas diluvianas
este circo
minha gente
acaba quando?

Quase um Monet

hoje é domingo
e logo em abril
um sol de banho
brisas de inspirações
e expirações demoradas
luz de dourar os cabelos
de contrair pupilas
cerrar os olhos; um sorriso
no encontro dos lábios
superior e inferior
da mesma boca
sempre sempre ali
pios de pássaros
árvores verdes
céus azuis
etcetera
hoje é domingo
ah, e logo em abril
o cenário perfeito
para esconder a lágrima
uma nascente de lágrimas
poço enchente represa
dilúvio cachoeira oceano
granulados de cintilantes lágrimas
brilhando pesadamente o silêncio
céus-verdes-árvores-azuis
um exílio sofisticado
disfarçado
de obra de arte
quase um Monet

É morte

metade de mim é silêncio
silêncio de morte
a outra metade é espera
e desesperança

os risos soltos presos
no cárcere da culpa
mar de lágrimas berrantes
e silêncios emudecedores
não há alegria que se sustente
nem ânimo que se sinta justo
nenhum orgulho poético

grãos finos de chuva
garoando do lado de dentro
nenhuma alma lavada
antes lama acumulada
no pântano da tristeza

incontáveis rainhas a se coroar
inúmeros planos sonhados
mas agora inês é morta
sônia é morta, cristina é morta
maria é morta, paulo é morto
valdeci é morto, carlos é morto
é morta, é morto, é morte
quatro mil quatrocentos mil

que as máscaras sirvam
ao menos para cobrir as faces
da vergonha

Marginalizada

Deixem-me à margem
à margem dos dias reais:
corriqueira dureza diamantada
esculturas de sentimentos sem faces
expressões vocais e visuais sufocadas

gritos mudos

sorumbáticos

Rio estéril de sentidos mortos
varridos todos pela poeira
de barulhentas buzinas
de anúncios de televisão
de aparelhos smartphones
de praças de alimentação

Oh, por favor
dessa realidade
deixem-me à margem

Me vê 1kg de perdão?

Falta-me coragem
De pedir que me perdoe

Perdoe-me exigir
um reflexo meu em ti

Perdoe-me a madureza
no quesito parceria,
e pela escassa paciência
em te esperar avançar.
É que eu não tenho mais
oitenta anos pela frente.

Perdão por ainda insistir
e te violentar
com protocolos infindáveis
de relacionamento exemplar

Perdão por cair na sua
conversa mole outra vez
outras vezes
E pela coragem vacilante
quando digo que vou embora
esperando ser convencida a ficar

Perdão por falar em amor
no dia da despedida.
E ainda por fazer rolarem
suas raras lágrimas.
Que vergonha
Sou muito mais sórdida
do que consigo admitir.

Perdoe-me a covardia
de te deixar nos iludir
pensando que resolveremos.
Preciso antes, muito antes
resolver-me.

Perdão por não saber terminar
nem o poema.

De dia te desejo

De manhã acordo
Escrevo de madrugada minhas juras virtuais
Releio tudo
Tomo uma dose de coragem de dia
Espero que encontre cama quente para os meus suspiros virtuais
De madrugada sonho

(te quero)

A Razão e o Amor

Dane-se a razão
tudo milimetricamente
Quadrado sem curva
Reto e sem corpo
Gosto de sentir
Razão serve pra trabalho
Pro amor é outra coisa
Sonhar
Suspirar
Saudade
Beijo
Mãos dadas
Teu sorriso

Exagero de Frente fria

Li no jornal:
“A maior frente fria do ano”
Mal sabem, fria é como ela está comigo
Pode ser a pior do século
Durando para sempre
Sábado ela deve passar
Todos estão torcendo
Escutei na rua:
“Nenhum carioca gosta de frio”
Concordo com ele

Injusto silêncio

Como competir com o silêncio?
Acalma e aborrece
Presente na totalidade do dia
Que injusta concorrência
Não fico mais em silêncio
Não gosto dele
Apenas quando tem olhos
Pele com o pelo
A boca que o rompe, cede
Encosta em outra boca
Transmite o melhor silêncio
Só esse me interessa
Apenas o justo silêncio

Poesia Dupla Face

Quero resolver com você a nossa vida.
Os traços
Os contornos
Que lápis ou pincel vamos usar
Se vai ser um quadro ou um texto
Se vai ser a óleo ou carta
Mas quero acabar com essa angústia
Que sobe do estômago ao coração
Pesa aos olhos
Lava-os

Qualquer música faz sentido e é certeira.