Sim, ainda sonho com a nossa casa
Cheia de livros e plantas por toda parte
Cheia de nós.
Hum, que frio, queria ver aquele filme
Me empresta a senha, aliás, vamos ver juntos
Sim, ainda planejo nossa próxima viagem
Que vai sair em qualquer hora
Absolutamente não planejada.
Mas sim, deixa eu te contar da minha semana
Esses dias comecei aquele curso, lembra?
Então, me conta como está por aí...
Olha que música linda
Musicaram aquele nosso poema da Florbela
Semana que vem tem show do artista, vamos?
Sim, quarta-feira é aquela exposição
Peguei os ingressos, tenta não se atrasar
Depois a gente toma um café, sim?
Vamos, quer dizer, vai fazer o que no feriado?
Espera, não me conta
Melhor não
Gosto de surpresas
Mas já te adianto
Minha resposta é sim.
Me vê um poema urgente
Talvez eu escreva um poema
Está aqui me rebentando,
quer ser parido, expulso
Não suporta mais essa gestação
Vai nascer pós-termo
Já nem oxigena direito
Sem espaço, congesto
Precisa de lugar para chorar
Chorar e chorar mais e mais
O absurdo de viver
chuva para florir
Eu posso desejar a tua presença todos os dias
Posso não lembrar dos motivos de ir embora
Posso até mesmo esperar e esperar você chegar
Então eu posso todo dia fingir que estou feliz
Posso sorrir; sorrir; s-o--r---r----i-----r; só
E posso na mesma proporção chorar e chorar e...
Posso indefinidamente não saber o que fazer
Posso assumir que até achava que saberia
Mas agora posso admitir que eu não faço ideia
Posso pensar que estou me afastando mais hoje
Posso achar que meu caminho de ida não é
[a exata estrada da volta
Ah, eu posso ainda beber todo o vinho do mundo
Posso me enganar que consigo fazer isso sem saudade
Eu posso secar todas as lágrimas que vêm e vêm e...
Então eu posso ainda pensar que o tempo vai curar
Posso negar a etapa dolorosa do processo
Posso mais que isso, posso acreditar no que for
Até posso acreditar que não consigo me enganar
E posso estar muito cansada dessa "chuva para florir"
Confesso que tenho medo
Estou paralisada de medo
Querido, você está aí?
Ainda chora, ainda pensa?
Meu maior medo hoje
É você encarar minhas retinas,
minhas anêmicas retinas
e estar convicto do nunca-mais
Minha pele toda treme
de solidão agudíssima
Eu te amo, eu te amo eu te amo
Não preciso de mais
Eu ando, ando e ando
E todos os caminhos
São estradas de regresso
Ao teu peito, ao meu lar
Chuva de pingo d’água
Hoje eu vi chover das estrelas
Digo, eu vi chover de um céu
mais estrelado que enuviado
Não era uma chuva de estrelas
"Ainda bem" diriam os astrônomos
Era mesmo chuva de pingo d'água
E se a noite enxergasse os arco-íris
Certeza que valseantes vagalumes
teriam uma pista de dança multicor
Estrelando seus passinhos diminutos
Sob a luz daquela nuvem de estrelas
Às vezes a lua do céu é só a luz de um poste
O primeiro verso me veio num grito
Eu-estava-be-lís-si-ma
de um azul flutuante
Os seus olhos,
os seus olhos me atravessaram.
Mas não era um atravessamento poético
de dedilhar-me as cordas da alma.
Era um atravessamento de nó na garganta.
Era quase um atropelamento
com perda total da existência.
Minha invisibilidade exposta na via pública.
E eu estava be-lís-si-ma
de um azul radiante
Um brilho nos olhos que rastejava ser notado
Agonizava num mar de um azul desesperante
Clamando uma existência, algum jeito de ser.
Um atravessamento do tipo afogamento
Afogada em desafagos.
Nos teus olhos uma trave de vidro opaco
nada refletiam. Eu inteira uma interrogação,
Onde estava Eu?
Eu? eu estava em estado de Beleza
Envolta num azul turquesante
Pronta para a sorridente fertilidade
de quem espera ser notada, admirada
questionada, escrutinada, alvo: de interesse.
A pessoa mais importante da face da Terra
da face esmurrada da terra
da face pisada e manchada de sal e de sol
Mas a mais importante:
A flor que brota do asfalto.
Eu só queria ser toda beleza que julgava ser
Eu só queria estar belíssima
Ah! Eu estava be-lís-si-ma!
Eu podia gritar até ensurdecer e ma-tar
a indiferença latente de tantos Mersaults
que petrificam minha vontade de mim
que me roubam o único Eu que possuo
Eu: de um azul celestiante
Pairando por sobre o meu desejo de ser
Be-lís-si-ma.
Ponto. Parágrafo.
Pedi a separação de um casamento de 9 anos havia 3 meses. No fim de uma ligação telefônica com meu ex-esposo, perguntei como estavam as coisas com a moça que ele estava saindo, “parece até que já vem casamento”, brinquei. Ele respondeu que casar ainda não, com ênfase no ainda, mas disse que já a amava muito e que não sabia que era possível amar tanto alguém. Ponto.
Parágrafo. Papo vai, papo vem, numa conversa com um namorado sobre mulheres que ficam com certos jogadores de futebol ou certos artistas por aí, ouvi “claro que é por interesse”, ênfase no claro. Ouvi também que eu estava me iludindo pensando que não era. E olha que eu nem estava pensando que não era, só questionei por que temos sempre que pensar que é. E outra, se for, e daí? Esse namorado relatou que sabia o que estava falando, porque, veja bem, se uma loiraça daquelas chegasse nele, ele já desconfiaria, afinal, sabia da própria aparência e o que podia alcançar com ela. Lembrando que era comigo que ele estava falando. A namorada. Ponto.
Parágrafo. Uma vez um cara que eu saí, aliás, só transei, questionou por que eu não o procurei o fim de semana todo. Sabendo que não existe maneira fácil de dizer isso, educadamente coloquei que foi uma troca legal (aqui eu menti, ok), mas eu não o procurei porque não tive muita vontade e achava que poderíamos ficar somente com aquela experiência na memória. Ele respondeu algumas palavras curtas, mas os culhões não se aguentaram dentro das calças e, antes de me bloquear no whatsapp, mandou: “obrigado pela foda gratuita”. Ponto.
Parágrafo. O ano é 2005 ou 2006. Estávamos em um rodízio regado de pizzas ruins e calças boca-de-sino. Gosto de pensar que hoje não tenho vontade nenhuma de me aventurar em um rodízio, salvo os de comida japonesa. Um dos amigos do grupo (naquele dia éramos muitos, 10 ou mais) havia falado, algum tempo antes, com alguns outros amigos do grupo, algo sobre mim que não teve coragem de admitir, e por isso, jurou que não tinha dito. Não lembro como o assunto emergiu no meio da gordura do queijo, por entre as ervilhas e as azeitonas. Fato é que meu namorado à época não podia passar de mentiroso e ele mesmo reproduziu o que o tal amigo havia dito, seguido de um (orgulhoso de ter razão) “vai dizer que não foi isso que você me disse!?”. A mesa cheia. Ele disse: “sua namorada é feia de doer o cú”. Ponto.
Parágrafo. Por inúmeras vezes, um primo próximo do meu ex-esposo não podia deixar passar uma única oportunidade de dizer o quanto ele me achava feia. A cruel criatividade trazia sempre termos diferenciados para o mesmo tema. Minha péssima memória até me foi útil nesse ponto. Só sei que aconteceu várias vezes, mas não lembro as expressões utilizadas. Quer dizer, fora os clássicos “mas tu sabe que é feia pra caraca né” ou “eu sei que meu primo é feio, mas você…”. Ponto.
Parágrafo. Já ouvi uma vez de um namorado, quando apresentei algumas reações com questões que me incomodavam, que era só um comportamento “típico de mulher insegura”. Ponto.
Parágrafo. O que mais me entristece é perceber que esse texto pode nunca ter fim. Ponto.
Parágrafo.
Nunca-mais
Se a gente não se vir nunca mais
tudo bem. Tudo bem
se a gente não se vir nunca mais.
O nunca-mais é bicho calado,
é o nada mais denso, à espreita,
dono de uma certeza agudíssima.
O nunca-mais é o abraço gelado
do não-ser,
do quem-sabe,
do não-era-pra-ser.
O tempo se desfaz em nunca
O tempo já não é mais
O nunca-mais engole o tempo
e rumina o podia-ter-sido.
O nunca-mais é um oceano
de frustrações.
O nunca-mais
é um eterno
devir.
a cor do alvo
mais uma poeta branca
ninguém quer ouvir
um poema alvo
cafona
desbotado
fora da nova ordem mundial
mais um brado branco
em país de canto Negro
mais um privilégio
clara evidência
poder inconsistente
clássica tragédia branca
pálida de sentido
ninguém quer ouvir
branca
não é a cor do alvo