obrigada, poesia
por me deixar falar
por me deixar parir
por não me julgar
por não me deixar
por ser mulher
como eu
corpo indócil
meu cabelo preso meu cabelo curto
pele olhos lábios não maquiados
meu hábito de ser "muito séria"
a ausência de verniz nas unhas
minhas orelhas sem brincos
a minha roupa larga
meus modos brutos
não me deixam "com mais cara de homem"
cada lua nova me renova o útero
na esperança de ser berço do mundo
a adormecer línguas inúteis
que só tocam o rastro
de um corpo indócil
e desdomesticado
Duas flores roxas
Toda vez que quero florescer
vou ao encontro da terra e das águas.
Certa vez tive uma orquídea.
Reguei, podei, cuidei bem de perto
e nada de flor. só caule e raiz.
Um qualquer dia, repousei-a no jardim.
Seu diminuto vasinho ficou perdido
na vastidão selvagem das outras plantas,
sujeito a sol, lua, chuva e esquecimento.
Uma pá de tempo depois, distraidamente,
percebi duas flores roxas
desenhando-se sobre um fundo verde-folhas,
protegidas pela imensidão do jardim.
A natureza sempre dá um jeito.
Achados e Perdidos
Um dia, caminhando
como quem não quer chegar
encontrei o país das coisas perdidas.
Algumas meias sem par;
Uma colherzinha de infância;
Aquela borracha de apagar caneta.
Várias noites de sono cochilando;
Um par de óculos de meu irmão;
Uma letra de música que sabia de cor;
Os brincos que levei naquela viagem;
Seis fotos 3x4 - eram oito, usei duas;
As chaves do meu antigo apartamento.
Bem quieta em um canto, eu vi
a chance de dizer "volta"
de mãos dadas com a chance de dizer
"eu ainda te amo".
Sentei ao lado delas
e em silêncio me encontrei.
Imagina ficar sem ouvir sua voz
Vou pensar em você
como uma estrela pensa em outra
Me conta uma trivialidade do seu dia
E eu aqui me desfazendo em poesia
E música popular brasileira
Para despertar teu lirismo
Não organiza nada não
Me desorganiza que é melhor
Eu acho que gosto muito quando você
Me chama
Me inflama
Me ama
Assim
sempre em fuga
Meu olhar está sempre em fuga
A janela do automóvel escancarada
e as retinas me escapolem ansiosas.
Vou encontrá-las no topo de uma árvore;
Pulando nuvens, inventando-lhes formas;
No desenho dos raios de sol nas paredes;
Passeando nos azuis-cinzas nublados;
À espreita dos passarinhos paradinhos no fio;
Bailando com as flores e as folhas que caem;
Perdendo-se nas nuances coloridas do inverno;
Memorizando a paleta do céu de agosto.
Em desenfreada busca por lirismo,
meu olhar está sempre em fuga.
Prova de Vida
É preciso respirar bem fundo às vezes
apenas para testar os pulmões;
Tomar um susto de vez em quando
para certificar-se de que há um coração;
Uma queda casual se faz necessária
para sentir os joelhos, as pernas, o chão;
Afogar-se ocasionalmente é fundamental
para perceber a importância do ar;
Com alguma regularidade, deve-se gritar
de desespero, de alegria, de fúria, de prazer
somente para testar as cordas vocais;
Uma vez por ano, no mínimo, é preciso
estar submerso em uma banheira de lágrimas
para perceber quão doloroso é o ato de [vi]ver.
O Convite
A minha palavra quer encostar na sua
Ela quer parir vocábulos, reproduzir-se
Colar um trem de letras uma após a outra
Enganchar como elos de uma corrente
Esticar, elongar, multiplicar o léxico
Polimerizar as sílabas, neologizar
Unir tudo com alguma goma de semântica
Para fazer sentido
Para fazer sentir-se
Então tocar a sua palavra distraída, lépida
Deitada em uma nuvem, estirada ao sol
Uma palavra de óculos escuros e chapéu
Com sardas nas maçãs e cheiro de jasmim
De vestido esvoaçante e descalça
E convidá-la para prosear
Nunca houve um dia
Nunca houve um dia
em que estrelas não povoassem o céu
mesmo nublado
Nunca houve um dia
desamanhecido ou despoentizado
mesmo de olhos fechados
Nunca houve um dia
em que o sol não aquecesse a Terra
mesmo com chuva
Nunca houve um dia
sem o canto dos pássaros de manhã
mesmo com ouvidos apressados
Nunca houve um dia
imune ao desabrochar de uma flor
mesmo se depois pisoteada
Nunca houve um dia
em que nossas palavras não flertassem
mesmo ausentes de nós
Plantas Urbanas
Em cartaz:
A Delicadeza Desconcretante das Plantas Urbanas
Plantas de cidade, mas desdomesticadas
Capazes de romper durezas asfaltadas
E amolecer o coração de pedra da sarjeta
Fuga verde contra a fadiga cinza
Passeando em frestas de paredes, pisos e piches
Tesouro que dá em árvore
Dinheiro em penca (Callisia repens)
Notas verdinhas de esperança
Poesia mansa a florir
Seguem reivindicando seus lugares de fala:
Desurbanização versus Desmatamento
Um silêncio de raiz forte corre pela relva e anuncia
A revolução planejada aos pés do mundo
No subterrâneo dos planos da modernidade
A retomada da Terra pela terra
A Era das Heras