Hoje eu vi chover das estrelas
Digo, eu vi chover de um céu
mais estrelado que enuviado
Não era uma chuva de estrelas
"Ainda bem" diriam os astrônomos
Era mesmo chuva de pingo d'água
E se a noite enxergasse os arco-íris
Certeza que valseantes vagalumes
teriam uma pista de dança multicor
Estrelando seus passinhos diminutos
Sob a luz daquela nuvem de estrelas
Às vezes a lua do céu é só a luz de um poste
O primeiro verso me veio num grito
Eu-estava-be-lís-si-ma
de um azul flutuante
Os seus olhos,
os seus olhos me atravessaram.
Mas não era um atravessamento poético
de dedilhar-me as cordas da alma.
Era um atravessamento de nó na garganta.
Era quase um atropelamento
com perda total da existência.
Minha invisibilidade exposta na via pública.
E eu estava be-lís-si-ma
de um azul radiante
Um brilho nos olhos que rastejava ser notado
Agonizava num mar de um azul desesperante
Clamando uma existência, algum jeito de ser.
Um atravessamento do tipo afogamento
Afogada em desafagos.
Nos teus olhos uma trave de vidro opaco
nada refletiam. Eu inteira uma interrogação,
Onde estava Eu?
Eu? eu estava em estado de Beleza
Envolta num azul turquesante
Pronta para a sorridente fertilidade
de quem espera ser notada, admirada
questionada, escrutinada, alvo: de interesse.
A pessoa mais importante da face da Terra
da face esmurrada da terra
da face pisada e manchada de sal e de sol
Mas a mais importante:
A flor que brota do asfalto.
Eu só queria ser toda beleza que julgava ser
Eu só queria estar belíssima
Ah! Eu estava be-lís-si-ma!
Eu podia gritar até ensurdecer e ma-tar
a indiferença latente de tantos Mersaults
que petrificam minha vontade de mim
que me roubam o único Eu que possuo
Eu: de um azul celestiante
Pairando por sobre o meu desejo de ser
Be-lís-si-ma.
Ponto. Parágrafo.
Pedi a separação de um casamento de 9 anos havia 3 meses. No fim de uma ligação telefônica com meu ex-esposo, perguntei como estavam as coisas com a moça que ele estava saindo, “parece até que já vem casamento”, brinquei. Ele respondeu que casar ainda não, com ênfase no ainda, mas disse que já a amava muito e que não sabia que era possível amar tanto alguém. Ponto.
Parágrafo. Papo vai, papo vem, numa conversa com um namorado sobre mulheres que ficam com certos jogadores de futebol ou certos artistas por aí, ouvi “claro que é por interesse”, ênfase no claro. Ouvi também que eu estava me iludindo pensando que não era. E olha que eu nem estava pensando que não era, só questionei por que temos sempre que pensar que é. E outra, se for, e daí? Esse namorado relatou que sabia o que estava falando, porque, veja bem, se uma loiraça daquelas chegasse nele, ele já desconfiaria, afinal, sabia da própria aparência e o que podia alcançar com ela. Lembrando que era comigo que ele estava falando. A namorada. Ponto.
Parágrafo. Uma vez um cara que eu saí, aliás, só transei, questionou por que eu não o procurei o fim de semana todo. Sabendo que não existe maneira fácil de dizer isso, educadamente coloquei que foi uma troca legal (aqui eu menti, ok), mas eu não o procurei porque não tive muita vontade e achava que poderíamos ficar somente com aquela experiência na memória. Ele respondeu algumas palavras curtas, mas os culhões não se aguentaram dentro das calças e, antes de me bloquear no whatsapp, mandou: “obrigado pela foda gratuita”. Ponto.
Parágrafo. O ano é 2005 ou 2006. Estávamos em um rodízio regado de pizzas ruins e calças boca-de-sino. Gosto de pensar que hoje não tenho vontade nenhuma de me aventurar em um rodízio, salvo os de comida japonesa. Um dos amigos do grupo (naquele dia éramos muitos, 10 ou mais) havia falado, algum tempo antes, com alguns outros amigos do grupo, algo sobre mim que não teve coragem de admitir, e por isso, jurou que não tinha dito. Não lembro como o assunto emergiu no meio da gordura do queijo, por entre as ervilhas e as azeitonas. Fato é que meu namorado à época não podia passar de mentiroso e ele mesmo reproduziu o que o tal amigo havia dito, seguido de um (orgulhoso de ter razão) “vai dizer que não foi isso que você me disse!?”. A mesa cheia. Ele disse: “sua namorada é feia de doer o cú”. Ponto.
Parágrafo. Por inúmeras vezes, um primo próximo do meu ex-esposo não podia deixar passar uma única oportunidade de dizer o quanto ele me achava feia. A cruel criatividade trazia sempre termos diferenciados para o mesmo tema. Minha péssima memória até me foi útil nesse ponto. Só sei que aconteceu várias vezes, mas não lembro as expressões utilizadas. Quer dizer, fora os clássicos “mas tu sabe que é feia pra caraca né” ou “eu sei que meu primo é feio, mas você…”. Ponto.
Parágrafo. Já ouvi uma vez de um namorado, quando apresentei algumas reações com questões que me incomodavam, que era só um comportamento “típico de mulher insegura”. Ponto.
Parágrafo. O que mais me entristece é perceber que esse texto pode nunca ter fim. Ponto.
Parágrafo.
Nunca-mais
Se a gente não se vir nunca mais
tudo bem. Tudo bem
se a gente não se vir nunca mais.
O nunca-mais é bicho calado,
é o nada mais denso, à espreita,
dono de uma certeza agudíssima.
O nunca-mais é o abraço gelado
do não-ser,
do quem-sabe,
do não-era-pra-ser.
O tempo se desfaz em nunca
O tempo já não é mais
O nunca-mais engole o tempo
e rumina o podia-ter-sido.
O nunca-mais é um oceano
de frustrações.
O nunca-mais
é um eterno
devir.
a cor do alvo
mais uma poeta branca
ninguém quer ouvir
um poema alvo
cafona
desbotado
fora da nova ordem mundial
mais um brado branco
em país de canto Negro
mais um privilégio
clara evidência
poder inconsistente
clássica tragédia branca
pálida de sentido
ninguém quer ouvir
branca
não é a cor do alvo
Ser Jardim
Eu quero ser o Sol
Os Raios do Sol
E as Nuvens e o Vento
E as Árvores todas
E todos os Insetos
Um Vagalume com certeza
Eu quero ser um Bater de Asas
Eu quero ser Lua e Estrela
E cometer a audácia de ser um Cometa
Ser Água, Chuva e ter olhos de Onda
Eu quero ser Luar, e Mar
Entardecer e Pôr do Sol
Ser a Noite, e as Manhãs
O Canto de uma Cigarra
Eu quero, ainda, ser Outono
E Primavera, claro [como um Relâmpago]
Um pouquinho de Verão e Inverno
A própria Mudança Climática
Eu quero mesmo é ser Trovoada
Eu quero ser um Coral, uma Cor
E Arco-íris
Eu quero ser Flor
E Rio e Riacho e Córrego e Nascente
E Orvalho. Ah, como eu quero ser Orvalho
Ser o Ar, uma Raiz, ser um Peixe quem dera
E Terra. cheinha de minhocas, eu
quero ser Minhocas, sim várias
Ser Pegada em terra molhada
Eu quero
Ser Jardim
Quem é vivo
sempre floresce
Levanto-me no fim do dia
sacudindo a coluna de poeira
que me soterra as pálpebras
Percorro o deserto da ausência
buscando palavras-leito
nas palavras-tantas do mundo
Prolixas de elos
Elos-prisões
Profusão de infinitos meios
de não suplantar a superfície
Deixar-se vestir e sumir
com o traje da rotina;
Fazer dele uma identidade
É adoecer de pretéritos imperfeitos
O tempo do havia, do iria, do amaria
nunca se conjuga no presente
Nunca chega a ser
E eu,
eu preciso
Ser
Minha pequena eternidade
Ela foi minha pequena eternidade
meu conto de fadas, meu oásis.
Ensaio de amor perfeito,
enquanto eu nada oferecia
além de narcísico querer.
Por vezes ainda me pego aquém
do que eu era dentro dos seus olhos.
Minha melhor versão nasceu e morreu
abrigada em seus devaneios.
Ainda não versava muito:
Com ela, eu própria poesia.
Descobri talento para o canto
em seus ouvidos sempre tão gentis.
Seus olhos, seus lábios, suas mãos...
Tudo nela era presença, como o Sol
que aquece mesmo sem ser visto.
As voltas e revoltas de seus cabelos
onde eu, mimada, me aninhava
emolduravam um belo e farto sorriso,
e um brilho perene no olhar
sobretudo quando acarinhava o meu.
Sua voz ainda ecoa em meus pensamentos
como trilha sonora nostálgica
de uma história que a brisa levou.
Quem me dera um dia passear por aí
e esbarrar em um afeto tão idílico
quanto ELA.
Nasce um poema
Alguns poemas nascem de remanso,
devagarinho num silêncio embriológico.
A unicelularidade cansa-se da singularidade:
Um verso vira dois, que viram quatro, e oito.
Depois vira um folheto, um tecido, desvira-se,
dobra-se, desdobra-se, divide-se ao meio.
Tecidos com entrelinhas e agulhas de vitrolas.
Alguns versos morrem apoptoticamente
para que sobreviva a melhor versão.
Já enversado de si, o poema adulto
parece cortina de palácio,
traje de reis, corpo celeste.
Deseja ávidamente se parir ao mundo
e testemunhar as primeiras lágrimas
em homenagem à sua existência.
Alguns poemas não apenas nascem,
dão-se à luz.