Apogeu e declínio de um quase-amor

O coração bateu no pescoço
e logo voltou para sua anatomia usual.
Os lábios desérticos em busca de um oásis
aceitaram o aquecimento global.
O jardim desa[m]parado não perfumou quatro mãos,
contentou-se calado com os mesmos calos de sempre.
O mergulho de trocar música e poesia
ficou no azar de quem vive na superfície.
O alinhamento planetário dos nossos corpos celestes
apenas seguiu sua órbita na manhã seguinte.

O ponto de fuga é o delírio da perspectiva

Ler acompanhada pelo céu e pelas árvores;
Ouvir passarinhos piando em outras línguas;
Viver com a cabeça na lua;
Caminhar palavra pelo silêncio de novos passos;
Praticar turismo disruptivo;
Desejar o fruto em sua inteireza;
Parir poesia das frases grávidas de palavras;
Sentir o cheiro derramado de café no tecido da manhã;
Embriagar-se de horizontes e tropeçar nos detalhes;
Andar sem rumo sem se perder de si;
Nunca terminar esse poema;

a paixão: puro afã (ou, amar é um deserto)

Antes de abrir os olhos,
sentia o crepitar granulado das areias
descoloridas dos teus olhos verde-ausências.

Ver-te já não era mais uma opção sensorial.

Explícita e incansável, visitei a folia das memórias
na ânsia de estar abrigada em tuas retinas;
sem cordas e blocos, sem sirenes e hospitais entre nós.

Era a forma mais palpável de tê-lo:
Fechar os olhos e tocar a tela das lembranças.

Carrego o peso de um corpo que inteiro
é capaz de recordar-te;
cada parte com seu jeito único e visceral de sentir.

Minha existência-colônia lançando areias
sobre os teus automóveis de Roma.
Tua existência-metrópole nem chega a me ver.

Cintilam areias consteladas numa noite qualquer
tal qual lágrimas suspensas e inertes
no deserto de dias que se somam ao silêncio.

Novamente viro a ampulheta
e o tempo nos escorre.

Querendo te encontrar

Onde está você? 
Eu adoro essa música
Virando a esquina
Chegando sempre atrasado

Apareça aqui pra me ver
Vamos dançar essa
"Um dia vou tocar sanfona"
Me conta, não importa quando

Eu vou gostar demais
Venha ter outro déjà-vu
Acarinhar os cavalos
Miar no meu portão

Sabes onde estou
Me pesca nos detalhes
Então, você é sentimental
O que diz a sua intuição?

Venha me dizer
Tudo sobre a sua vida
Os filmes que quer assistir
As músicas que quer ouvir

Onde você andou
Ou de que céu talvez voou
Lá onde gostas de saltar
Só para ganhar

Beijos que nunca te dei

Longe da culpa

Longe da culpa, meu corpo dança
Explora a maquinaria que me move
Sustentáculos dos meus passos em fuga
Ascendo às nuvens que me enfeitam
- os cabelos e os pensamentos

Longe da culpa, me exponho
Publico meu corpo completamente nu
Divulgo meus versos desnudos e vadios
Prontos a provar o calor de outros lábios

Longe da culpa, tenho vontade de beijar-te
E sem hesitar e sem vírgulas beijo-te
Não importa o que foi ou o que virá
Importa que tenhamos lábios e que beijem

Longe da culpa, parto sem retorno
Livre do medo de estar só e solta
Em sentido oposto para perder-me de vista
Avisto meus avessos e me seco ao sol

Longe da culpa, caminhos não percorridos
Não criam labirintos em minha cabeça
São apenas becos sem saída de onde escapei
Oportunamente,
Quando já era grande demais para caber

Longe da culpa, não peço desculpas
Não o tempo todo, como uma heroína trágica
Crio um enredo fantástico e vivo
Sou a protagonista de um épico

Longe da culpa, sou inspiradora
Minha história e trajetória são admiráveis
É delicado meu modo de sentir o mundo
Sou escritora e poeta
E minha voz nunca falha ao ler esses versos

Poema construído a partir de exercício de escrita proposto por Ryane Leão, no Laboratório de Narrativas Femininas, realizado pelo Sesc Copacabana RJ.

Paciente Terminal

Terminal não termina na palavra.
Um terminal pode ser onde se chega
e de onde se parte à outra parte.
O que importa é que TODOS os bilhetes
são passagens só de ida.
Jamais se volta ao que se era.

Se comemoramos nossos renascimentos,
por que não comemorar nossas mortes?
As pequenas mortes de cada dia
dai-nos hoje e sempre, amém.
(sinal da cruz)

Chega-se a um terminal e, afinal,
é preciso planejar o que fazer ao saltar.
Saltar no desconhecido de nós mesmos,
ávidos por desvendar nossos mistérios.
Aonde nos levam nossas passagens secretas?
Somos castelos de mil portas e mil portais.
Somos casas de muitos caminhos...

Cada dia por viver é uma página em branco,
onde se escreve com traçado ancestral:
Rabiscos dos primeiros chutes no ventre materno,
Garranchos dos primeiros choros,
Desenhos das inúmeras gargalhadas,
Rascunhos dos discursos para o colégio
e dos pedidos de namoro.
À tinta de canetas mágicas, elaboramos respostas
às nossas entrevistas de emprego
e às perguntas tão difíceis
feitas pela própria vida.

Não alcançaremos todas as respostas;
Tampouco faremos todas as perguntas.

Receber uma sentença de morte é um estigma
mas pode ser igualmente um estame,
e novas flores podem vir a compor um jardim.
Ora, dentre as tantas reviravoltas da aventura humana,
cultivar um jardim pode ser nosso último feito:
Uma celebração florida à nossa passagem.
E o perfume de nossa existência
ficaria para sempre na terra.

Volto ao Jardim

Quisera eu lhe entregar todo meu amor
Para que sentisses o amor do mundo inteiro
A preencher todos os seus poros de vida

Mas foi a minha casa que se encheu de amor
Com sua fala mansa e seus olhos cintilantes
Uma existência repleta de canção e poesia

Quando a música findou não foi o fim
Mas o começo de uma outra melodia infinita
Teu carinho derramado na memória do mundo
A acolher as dores camufladas de silêncios
Dos tantos de nós que têm sempre choro atrasado

É a vida dizendo: vai devagar; e me olha.

vendaval-mulher

no meu peito sopra um vento
que me leva a lugares distantes
terrenos ermos e selvagens
dentro de mim

eu me vi criança correndo a vida
eu me vi jovem a dançar com a eternidade
eu me vi mulher a contemplar as linhas
     das órbitas estelares
     das águas de rios, chuvas e lágrimas
     dos sorrisos largos e incontidos
     dos sorrisos secretos
     dos raios de Sol que insistem em brilhar
     da trajetória da vida em minha pele
     outras linhas que já não me habitam
     novas linhas que me desenham gentilmente

eu me vi obra de arte rara
esculpida pelas minhas próprias mãos
ainda agora remodelada com a brisa do futuro
em meu coração eu vi uma chama perene
que sequer oscilava com as tempestades

então de repente abri os olhos
como quem acorda de um transe
e o mundo não era cor de rosa
meu corpo ainda carregava as dores
minha pele ainda carregava os anos
mas minha visão já não era turva

eu me vi nítida
eu me vi gigante
tomada de delicadeza e fúria de viver
eu sou a mulher possível, o próprio vendaval
a mulher que ventou e chegou até aqui:
uma legítima vendaval-mulher