Em resumo

É como se eu não soubesse o significado dessa palavra
Ou de qualquer outra palavra que me chega aos ouvidos
Só sei decifrar o canto dos pássaros
Sei dos piados acalorados em reuniões de árvore
Sei quando estão em encontros amorosos pareados na fiação
Sei dos pios ressentidos nas brigas familiares
Sei quando ensinam os mais novos a caçar minhocas

A minha palavra humana é que às vezes é muito confusa
Então me calo e faço de conta que sou enigmática
É um silêncio útil

Gosto muito de quem entende minha linguagem quase verbal
Balbucios, grunhidos, rosnados, muxoxos, sussurros, suspiros
Eu gosto das pessoas que me entendem no olhar
Mas tudo bem se você não entender
Eventualmente eu mesma não entendo

Um quase amigo costumava dizer que eu estava sempre quase bonita
Vejam só, uma quase-bonita que usa uma linguagem quase-verbal
Tenho 36 anos
Com que idade será que se aprende a falar?

Sonhos Inquietantes

No meio do sonho tinha uma barata
E outra e outra e mais outra
Um sem fim de baratas saindo de baixo da cama
A sola do meu chinelo esmagando uma a uma
Eu sei, é uma imagem feia essa que te entrego
Eu quero te prometer que vai acabar bem
Elas vinham todas para a morte
E mesmo com um montinho de cadáveres expostos,
Não hesitavam em abandonar seu esconderijo e correr para a temporária liberdade
As baratas viviam sem nunca tomar coragem
Pois já eram tomadas de uma coragem que lhes era inerente
De repente uma veio bailando com o ar cruzando meu caminho
Tudo que voa é lindo
Mas o pouso me ogeriza e repulsa

Eu não sei acordar dos sonhos
Tampouco os sonhos sabem acordar de mim
Eles me sonham em um grande e confuso cenário
E se con-fundem com a minha realidade
Só me sinto salva na distração, no intervalo
Quando não penso naquilo que sou obrigada a pensar
Importa-me mais o que não esqueço
E se depois me lembro, é lá nesse depois que a lembrança importa
A memória é muito sábia, mas em excesso adoece
Lembrei que te entreguei o sonho da barata e não me retratei como devia
Será que as baratas sonham que os humanos são uma praga?
Será que baratas sonham?
Qual será o sonho da barata?
Espero que essas perguntas te confortem

Das coisas que eu odeio em você

odeio seu mau humor matinal em viagens
odeio o carro que você nunca me deixou dirigir
odeio que não me ligue mais
odeio que não me enderece uma única linha
odeio que você não me escreva cartas
odeio os livros que você comprou depois de nós
odeio os eventos para os quais não me convidou
odeio os cubos de gelo das suas doses de whisky
odeio-me por não sustentar o ódio por ti
odeio a vida que me resta sem você

O livro está afogado em lágrimas, não há mais página para virar

Eu tento virar a página e de repente
Estou a meio passo da lombada
Face ao abismo que me seduz ao silêncio derradeiro
As ondas cantam e eu me entrego a seus corais
Viver é um afogamento
De onde me resgato diariamente
Com a dificuldade de um corpo encharcado que deseja emergir
Sem auxílios

Viver então parece muito pesado
Não digo viver como o oposto de morrer
Mas viver como sinônimo de sobreviver
Sobreviver ao ostracismo auto infligido
Estou inapta para outros olhares
Meus pontos de vista estão cegos
Banhados em frustrações abissais
Uma fossa: de onde a luz foge e nada se enxerga
Apenas não fui suficientemente boa
E agora nada parece suficientemente bom

Sou minúscula
E estou dentro de uma lágrima que nunca seca
Minha visão e minha audição são refratárias
Acabo por ouvir zumbidos indistinguíveis
Nada é nítido, nada é compreensível
Minha realidade é a da gota d'água salina
Não sei se estou enchendo ou esvaziando
Se caio ou se esparramo
Se sou de tristeza ou de alegria

Passam vento, sol, chuva, noite e poesia
E eu, imersa em minha existência-lágrima,
Só passo a prantear

Lista de carinhos desconcertantes

Ter os cabelos penteados no banho
Pedir foto comigo por eu ser "muito elegante"
Ser buscada na saída do trabalho
Ser buscada no ponto de ônibus
Receber foto de ipês floridos
Ser o tema de um poema
Receber foto de morros encobertos por nuvens
Ser lembrada quando se toma banho de chuva
Ser lembrada por uma música
Café da manhã na cama
Elogiar minha pele
Elogiar meu olhar
Cantar para mim
Me apresentar a todos os convidados
Elogiar minha inteligência
Elogiar meu jeito de vestir
Me trazer café
Separar bolo porque vou gostar
Preparar um café pra mim
Perceber e considerar meus detalhes
Respeitar minhas manias [e rir carinhosamente delas]
Ter na mala itens pensados para mim
Saber meus tipos prediletos de vinhos
Empolgar-se com a minha empolgação
Dormir comigo antes de o filme acabar
Roubar mudinhas de plantas pra mim
Tratar minha gata como a princesa que ela é
Cozinhar um jantar para mim
Querer minha amizade, antes de tudo

Camaleoa Arco-íris

Eu me olho no espelho e me vejo colorida
Cor de vontade de preencher os pulmões de ar de chuva
Matizada pelo alívio de poder sorrir sem parecer deslocada
Em aquarelas de intenções de recomeços e desbravuras
Amanhecida de ideias azuis e coragens alaranjadas
Toda trabalhada numa paleta de tons quentes e agudos
Uma camaleoa que se vai colorindo de por-onde-passa
Respiro o verde cintilado de sol das cinco da tarde
E penso: é tão bom ser arco-íris de novo

Pontos de vista de linhas do tempo

Do ponto de vista
Da sua existência inventada
Só mais cinco minutinhos
É um piscar de olhos
No tempo de repouso do plantão
Pode até caber um sonho
Aguarde na linha por favor
É um carretel de espera
No tempo entre o alô e o sou eu
Cabe uma soma de incompreensões
Na volta a gente compra
Uma vida para esquecer o que queria
Preciso de um tempo no relacionamento
É o suficiente para acabar com tudo
Na contagem regressiva da virada
Cabem todas as promessas de ano novo
Os primeiros dez segundos do ano
São suficientes para esquecerem-se todas
Na caminhada da noiva ao altar
Passam-se todas as ideias de luta-ou-fuga
Em todo como cresceu rápido
Cabe a saudade da criança pequena
Em todo foi cedo demais
Cabe a saudade das pequenas memórias
Em dez minutos e já desço
Planeja-se uma vida ao lado dela
Só um instante
Pode ser um átimo
Ou uma eternidade

Eu vou ornamentar uma parede com a lista de ir embora

Eu vou lutar pelo meu direito ao riso
Enquanto sua expressão permanece taciturna
Preciso lembrar dos motivos de ir embora
Fazer uma lista que me ajude a não esquecer
Que você pode ser muito bonito
E ter um sorriso estonteante
E parecer que "luta" pelo relacionamento
Ao empenhar-se somente nas crises de término
Mas que nunca me incluiu de fato na sua vida
Enquanto eu buscava sua versão comprometida
Você viveu como se fosse solteiro

Você pode dizer que estou louca
E eu lhe direi que venero minha loucura
É minha forma mais genuína de ser eu
De ser boa em me ouvir os gritos de apelo
Calei tanto a voz protetora dentro de mim
Em nome de uma sensatez e de uma sobriedade
Inojantes
Tentam [tento] me caber onde não sou quista
Não consigo me admirar de onde me vejo

Estar ao lado de um grande vazio é como
Estar a um passo de uma queda de dez galáxias
Em um abismo espacial que suga tudo até o último "se"
Que tudo vá-se embora, mas que sobre meu riso
Onde eu poderia me aninhar e
Ininterruptamente
Ler a lista de motivos de ir-me embora de ti
E mergulhar em minha imensidão ignorada
Me orgulhar de me levar aonde quer que seja
Coisa que você nunca fez

Me sinto patética e com muita raiva de mim
Eu devia ter demonstrado um pouco mais de amor próprio
Oh, mas são quatro anos, muita história aqui
Sim, muita história de um "amor" autocentrado
Homens héteros não amam mulheres
Homens héteros SE amam
Apenas

E eu só mais uma mulher esperando reciprocidade
Vagando alheia, imprópria, i-na-pro-pri-a-da
Quase uma piada
"Coitada, ela criou expectativas"
Poupem-me vocês que vivem à deriva
Impossível não esperar nada de ninguém
Seria como morrer em vida
Mas eu estou viva, tem muita vida aqui dentro
Ela me transborda em brilho nos olhos e riso e safadeza

Eu também estou cansada, não pense
Mas o cansaço não vai me apagar, não de todo
Quisera num último suspiro viver contigo só o que de bom houvesse
Mas você hesitou um beijo frente a conhecidos seus
Não fez questão de me apresentar a seus familiares
Não me convidava para te acompanhar em suas "festividades"
Não havia sequer uma foto nossa nas suas redes sociais
Não conheci ninguém do seu círculo de convívio atual
E duvido que eles sequer soubessem da minha existência
Você viveu como se fosse solteiro

Enquanto escrevo isso, eu sangro muito
Ando anêmica de desgosto
Eu vou ornamentar uma parede com a lista de ir embora
E como a um altar eu voltarei a ela
Encostar-me nua nas palavras até que me arranquem a dor
De ter ido embora de mim
E com lágrimas e sangue e riso
Vou redesenhar o meu retorno

Meu corpo me escreveu uma carta

está tudo bem, eu estou aqui
sou sua casa, sua pele, seu cais
eu não vou embora
enquanto seu peito bater e tudo pulsar
eu estarei contigo te amando
venerando sua existência, seguindo
seus passos, seus mergulhos, seus vôos

nem sempre a gente se amou tanto assim
você me olhava com olhos turvos e hostis
olhos nublados e chuvosos, olhos
que não respiravam embaixo de tanta água
eu sofria muito em não ser bom pra você
e não ser bom pra você me apagava
eu era uma casa em demolição

um dia você pairou sobre meus escombros
e decidiu me tomar de volta, me salvar, eu
já quase sucumbindo à uma existência-casca
vi uma chance de renascer
você pôs as mãos em mim e me olhou nos olhos
me olhou no verso, onde só você sabe chegar
e me lançou: fica comigo?

ali eu desabei
eu caí em cima de você com tudo
com toda dor acumulada de uma vida
me quebrei inteiro, virei mil cacos
e poeira, muita poeira, tempestade de areia
virei nuvem turva
de tudo que você me negou e se negou
por não se orgulhar de me carregar contigo
nesse passado, eu chovia todos os dias
implorando
para você me tomar nos braços,
me tirar pra dançar, me acarinhar
quanto tempo eu esperei
para que nossos olhos brilhassem juntos

esse foi o meu renascimento
o meu marco zero existencial
existir com você é meu propósito no mundo
existir pra você me faz amanhecer
me ame como eu amo tudo na gente
nunca mais desista de mim
você é tudo o que eu tenho

Leia-me

O verso do mundo está escrito em minha pele
Macia, estriada, tigrada, tigresa. Indomável
Meu corpo-mapa de segredos e feitiços
Miríades de possibilidades existenciais
Memórias ancestrais ancoradas no sempre

Vasta, como o vento que estremece a floresta
Úmida, como a terra fértil de escrevivências
Quente, como a luz derramada do crepúsculo

Escritos sob ou sobre minha pele:
É só fechar os olhos; tatear; e sentir o arrepio
Encarar as sombras e as constelações
Que me fazem poeira de estrelas
Filha do infinito, Mãe do tempo

Desafiador é não saber nem metade
Da vastidão que me habita

Ignore as profecias, invalide seus sentidos
e
Se achar uma saída, parta
Poupe-se de olhar para trás
Quem me quer ler, jamais encontra a última página