Longe da culpa

Longe da culpa, meu corpo dança
Explora a maquinaria que me move
Sustentáculos dos meus passos em fuga
Ascendo às nuvens que me enfeitam
- os cabelos e os pensamentos

Longe da culpa, me exponho
Publico meu corpo completamente nu
Divulgo meus versos desnudos e vadios
Prontos a provar o calor de outros lábios

Longe da culpa, tenho vontade de beijar-te
E sem hesitar e sem vírgulas beijo-te
Não importa o que foi ou o que virá
Importa que tenhamos lábios e que beijem

Longe da culpa, parto sem retorno
Livre do medo de estar só e solta
Em sentido oposto para perder-me de vista
Avisto meus avessos e me seco ao sol

Longe da culpa, caminhos não percorridos
Não criam labirintos em minha cabeça
São apenas becos sem saída de onde escapei
Oportunamente,
Quando já era grande demais para caber

Longe da culpa, não peço desculpas
Não o tempo todo, como uma heroína trágica
Crio um enredo fantástico e vivo
Sou a protagonista de um épico

Longe da culpa, sou inspiradora
Minha história e trajetória são admiráveis
É delicado meu modo de sentir o mundo
Sou escritora e poeta
E minha voz nunca falha ao ler esses versos

Poema construído a partir de exercício de escrita proposto por Ryane Leão, no Laboratório de Narrativas Femininas, realizado pelo Sesc Copacabana RJ.

Paciente Terminal

Terminal não termina na palavra.
Um terminal pode ser onde se chega
e de onde se parte à outra parte.
O que importa é que TODOS os bilhetes
são passagens só de ida.
Jamais se volta ao que se era.

Se comemoramos nossos renascimentos,
por que não comemorar nossas mortes?
As pequenas mortes de cada dia
dai-nos hoje e sempre, amém.
(sinal da cruz)

Chega-se a um terminal e, afinal,
é preciso planejar o que fazer ao saltar.
Saltar no desconhecido de nós mesmos,
ávidos por desvendar nossos mistérios.
Aonde nos levam nossas passagens secretas?
Somos castelos de mil portas e mil portais.
Somos casas de muitos caminhos...

Cada dia por viver é uma página em branco,
onde se escreve com traçado ancestral:
Rabiscos dos primeiros chutes no ventre materno,
Garranchos dos primeiros choros,
Desenhos das inúmeras gargalhadas,
Rascunhos dos discursos para o colégio
e dos pedidos de namoro.
À tinta de canetas mágicas, elaboramos respostas
às nossas entrevistas de emprego
e às perguntas tão difíceis
feitas pela própria vida.

Não alcançaremos todas as respostas;
Tampouco faremos todas as perguntas.

Receber uma sentença de morte é um estigma
mas pode ser igualmente um estame,
e novas flores podem vir a compor um jardim.
Ora, dentre as tantas reviravoltas da aventura humana,
cultivar um jardim pode ser nosso último feito:
Uma celebração florida à nossa passagem.
E o perfume de nossa existência
ficaria para sempre na terra.

Volto ao Jardim

Quisera eu lhe entregar todo meu amor
Para que sentisses o amor do mundo inteiro
A preencher todos os seus poros de vida

Mas foi a minha casa que se encheu de amor
Com sua fala mansa e seus olhos cintilantes
Uma existência repleta de canção e poesia

Quando a música findou não foi o fim
Mas o começo de uma outra melodia infinita
Teu carinho derramado na memória do mundo
A acolher as dores camufladas de silêncios
Dos tantos de nós que têm sempre choro atrasado

É a vida dizendo: vai devagar; e me olha.

vendaval-mulher

no meu peito sopra um vento
que me leva a lugares distantes
terrenos ermos e selvagens
dentro de mim

eu me vi criança correndo a vida
eu me vi jovem a dançar com a eternidade
eu me vi mulher a contemplar as linhas
     das órbitas estelares
     das águas de rios, chuvas e lágrimas
     dos sorrisos largos e incontidos
     dos sorrisos secretos
     dos raios de Sol que insistem em brilhar
     da trajetória da vida em minha pele
     outras linhas que já não me habitam
     novas linhas que me desenham gentilmente

eu me vi obra de arte rara
esculpida pelas minhas próprias mãos
ainda agora remodelada com a brisa do futuro
em meu coração eu vi uma chama perene
que sequer oscilava com as tempestades

então de repente abri os olhos
como quem acorda de um transe
e o mundo não era cor de rosa
meu corpo ainda carregava as dores
minha pele ainda carregava os anos
mas minha visão já não era turva

eu me vi nítida
eu me vi gigante
tomada de delicadeza e fúria de viver
eu sou a mulher possível, o próprio vendaval
a mulher que ventou e chegou até aqui:
uma legítima vendaval-mulher

Em resumo

É como se eu não soubesse o significado dessa palavra
Ou de qualquer outra palavra que me chega aos ouvidos
Só sei decifrar o canto dos pássaros
Sei dos piados acalorados em reuniões de árvore
Sei quando estão em encontros amorosos pareados na fiação
Sei dos pios ressentidos nas brigas familiares
Sei quando ensinam os mais novos a caçar minhocas

A minha palavra humana é que às vezes é muito confusa
Então me calo e faço de conta que sou enigmática
É um silêncio útil

Gosto muito de quem entende minha linguagem quase verbal
Balbucios, grunhidos, rosnados, muxoxos, sussurros, suspiros
Eu gosto das pessoas que me entendem no olhar
Mas tudo bem se você não entender
Eventualmente eu mesma não entendo

Um quase amigo costumava dizer que eu estava sempre quase bonita
Vejam só, uma quase-bonita que usa uma linguagem quase-verbal
Tenho 36 anos
Com que idade será que se aprende a falar?

Sonhos Inquietantes

No meio do sonho tinha uma barata
E outra e outra e mais outra
Um sem fim de baratas saindo de baixo da cama
A sola do meu chinelo esmagando uma a uma
Eu sei, é uma imagem feia essa que te entrego
Eu quero te prometer que vai acabar bem
Elas vinham todas para a morte
E mesmo com um montinho de cadáveres expostos,
Não hesitavam em abandonar seu esconderijo e correr para a temporária liberdade
As baratas viviam sem nunca tomar coragem
Pois já eram tomadas de uma coragem que lhes era inerente
De repente uma veio bailando com o ar cruzando meu caminho
Tudo que voa é lindo
Mas o pouso me ogeriza e repulsa

Eu não sei acordar dos sonhos
Tampouco os sonhos sabem acordar de mim
Eles me sonham em um grande e confuso cenário
E se con-fundem com a minha realidade
Só me sinto salva na distração, no intervalo
Quando não penso naquilo que sou obrigada a pensar
Importa-me mais o que não esqueço
E se depois me lembro, é lá nesse depois que a lembrança importa
A memória é muito sábia, mas em excesso adoece
Lembrei que te entreguei o sonho da barata e não me retratei como devia
Será que as baratas sonham que os humanos são uma praga?
Será que baratas sonham?
Qual será o sonho da barata?
Espero que essas perguntas te confortem

Das coisas que eu odeio em você

odeio seu mau humor matinal em viagens
odeio o carro que você nunca me deixou dirigir
odeio que não me ligue mais
odeio que não me enderece uma única linha
odeio que você não me escreva cartas
odeio os livros que você comprou depois de nós
odeio os eventos para os quais não me convidou
odeio os cubos de gelo das suas doses de whisky
odeio-me por não sustentar o ódio por ti
odeio a vida que me resta sem você

O livro está afogado em lágrimas, não há mais página para virar

Eu tento virar a página e de repente
Estou a meio passo da lombada
Face ao abismo que me seduz ao silêncio derradeiro
As ondas cantam e eu me entrego a seus corais
Viver é um afogamento
De onde me resgato diariamente
Com a dificuldade de um corpo encharcado que deseja emergir
Sem auxílios

Viver então parece muito pesado
Não digo viver como o oposto de morrer
Mas viver como sinônimo de sobreviver
Sobreviver ao ostracismo auto infligido
Estou inapta para outros olhares
Meus pontos de vista estão cegos
Banhados em frustrações abissais
Uma fossa: de onde a luz foge e nada se enxerga
Apenas não fui suficientemente boa
E agora nada parece suficientemente bom

Sou minúscula
E estou dentro de uma lágrima que nunca seca
Minha visão e minha audição são refratárias
Acabo por ouvir zumbidos indistinguíveis
Nada é nítido, nada é compreensível
Minha realidade é a da gota d'água salina
Não sei se estou enchendo ou esvaziando
Se caio ou se esparramo
Se sou de tristeza ou de alegria

Passam vento, sol, chuva, noite e poesia
E eu, imersa em minha existência-lágrima,
Só passo a prantear

Lista de carinhos desconcertantes

Ter os cabelos penteados no banho
Pedir foto comigo por eu ser "muito elegante"
Ser buscada na saída do trabalho
Ser buscada no ponto de ônibus
Receber foto de ipês floridos
Ser o tema de um poema
Receber foto de morros encobertos por nuvens
Ser lembrada quando se toma banho de chuva
Ser lembrada por uma música
Café da manhã na cama
Elogiar minha pele
Elogiar meu olhar
Cantar para mim
Me apresentar a todos os convidados
Elogiar minha inteligência
Elogiar meu jeito de vestir
Me trazer café
Separar bolo porque vou gostar
Preparar um café pra mim
Perceber e considerar meus detalhes
Respeitar minhas manias [e rir carinhosamente delas]
Ter na mala itens pensados para mim
Saber meus tipos prediletos de vinhos
Empolgar-se com a minha empolgação
Dormir comigo antes de o filme acabar
Roubar mudinhas de plantas pra mim
Tratar minha gata como a princesa que ela é
Cozinhar um jantar para mim
Querer minha amizade, antes de tudo