eu
odeio
chorar
meu choro
nunca é
de emoções boas
eu
odeio
chorar
meu choro
nunca é
de emoções boas
Sim, eu sei que os imperativos cotidianos minguam nossas energias. O prognóstico só piora com o cada vez mais precoce retorno do calor empenhado em fritar nossa sanidade mental. Calor e cotidiano: sugam até o tutano de nossas forças até nos tornarem cópias de zumbis protagonistas de macabras comédias. Só rindo para não doer. Aquela trilha sonora de matar: motores demais, buzinas demais, excessivos alarmes de portas-se-fechando, profetas do vagão organizando o trem da salvação, ambulantes com próteses amplificadoras nas cordas vocais, ecléticos adoradores musicais que esqueceram o fone em casa, galos de briga (galinhas, cavalos, porcos, desce logo o celeiro todo) que não conhecem línguas menos afiadas para diluir desavenças. Em meio às caóticas notas da vida moderna, que, para nós, célebres líricos, já poderiam compor canções obsoletas e esquecidas em gavetas; pausa;
existe eu e existe você.
E que sorte a nossa. Existe o alívio surdo da nossa presença no mundo, por aí existindo, qualquer que seja a esquina de eternidade em que nos encontramos e, por sorte, nos desencontramos desse mundo. Mas não vá muito longe, quero me desfazer só-desse-mundo – rabiscado aos tropeços pelo grafite errático da Entidade Contemporânea.
A Entidade Contemporânea: esse monstro desengonçado, que equilibra uma miríade de penduricalhos despejados pela tecnologia nas já tão desequilibradas cabeças humanas. Mais um carregador de lixo que de utilidades. Nos olhos, óculos de irrealidades virtuais; nos ouvidos, fones hipnotizadores de tímpanos; no pescoço, almofadas em C para, em pé mesmo, quem sabe dormir um sono tão injusto. Na face, maquiagem pesada para esconder a vergonha de não saber-se – afinal, é feito de quê? Sobre os ombros, o peso de um mundo parco de humanidades. Obsolescência programada para a alegria de viver. O que sobra nem sei. Nem sei se sobra.
Mas sei dos nossos cantinhos cativos, nossos refúgios, ora povoados de eu sem tu ou tu sem eu, ora repletos de nós, nós de laços e nós de emaranhados. Leituras, passeios, vinho bem gelado, nosso espaço em cama de solteiro. Delícia aquela impaciência nossa de cada dia, tão antagônica à profunda gentileza nas “brigas”. Ah! e aquela sua vontade de brigar é tão gostosa! Seu argumento é que é péssimo: não dá pra viver sem emoção. Concordo sobremaneira! Só prefiro a emoção do amor: O súbito querer estar junto a qualquer custo; a certeza que basta a presença do outro em qualquer destino; o “queria só dormir contigo, pode ser?”; beijar depois de discutir relação; o “te quero” imprevisto; pegar um barquinho…
Esses detalhes cotidianos sobressaltam meu coração e é dessa emoção que eu estou falando, essa emoção que eu me esforço em manter e que me entristece tanto quando esmorece. Está longe de ser uma declaração diária obrigatória, é mais um deixar o outro saber que faz parte da lista de nossas urgências, e de nossas calmarias.
Se fizer, é claro.
Bem, se existe um problema ou uma família de problemas, como proposto por Leminski, certeza que é aí que eles moram. Se o interesse não é verbalizado como saber que não é desinteresse? Grande falácia, isso sim. Eu sei que esse questionamento parece um bom dilema argumentativo, mas francamente, é só mais um capítulo de “Verdades cruéis demais para serem ditas sem eufemismos” (em “eufemismos” leia-se “cachaça”).
Preciso de uma interjeição de emergência para tentar arrumar toda essa dessincronia de palavras. UAU! Esse texto dá uma puta reviravolta, parece até que suas partes foram escritas por pessoas diferentes em épocas diferentes! É porque foram mesmo. O eu do início nem sei mais onde estava, apesar de também não ter muita certeza de onde está o eu de agora, principalmente agora enquanto lês. Está confuso, eu sei, eu estou confusa. Não sei se quero este cenário, mas acho que não e o acho cada vez mais.
É tudo mentira.
Eu sei.
Não houve planos. Pela primeira vez, meu raciocínio-engrenagem não soube como proceder e isso era embaraçosamente espantoso.
Eu era especialista em roteirizar, sempre senti a presença fria e tácita do fim, dos finais das minhas novelas. Banhada em lágrimas dissonantes, vi passarem por mim meus amores – pessoas e possibilidades – até perderem, ou não, seus status de amor. Sofria sem dó de sofrer. Eu era a inspiração etimológica da palavra sofrência, tão comum nas composições musicais da atualidade.
Em minha repartição, as lágrimas eram fiéis funcionárias, batiam ponto até em dias santos! Foi no feriado de 23 de abril de 2018 que eu me despedi de um casamento de nove anos e inúmeras impossibilidades. E, não pelo cônjuge, sim pelo conjunto da obra, chorei. Não é fácil fechar um livro com tantas páginas escritas, tantas seguranças já catalogadas e se aventurar em folhas brancas, fantasmagoricamente alvas. Com tinta e sem pena, continuei a escrever.
Quando um certo ele chegou, não tive mais forças para estar no controle. Logo eu, ah, eu não, socorro. Até um livro meu – até um livro! – voou de minhas incrédulas mãos e pousou nas dele com a naturalidade de um presente de aniversário. Suas páginas versavam sobre silêncio. Eu estava ali me entregando até na ausência de palavras, como um grito contido, mudo de perplexidade. Um mar de potências infinitas se abria para nós, e talvez isso carregasse uma intimidação inesperada e até assustadora. Minha voz se habituou a dizer que ele tinha potencialidades para ser o amor da minha vida. Deveras piegas, é claro. Esse discurso apenas ouvidos amigos guardaram. Até o “você sabe que eu já te amo” de um sonho que tive na primeira noite que dormimos juntos, até isso, ficou guardado comigo na pasta mental de sentimentos insanos.
Eu escancarei – mas muito – o nosso amor (havia aspas aqui, até elas se cansarem da minha indecisão de mantê-las e partirem à revelia), nossa história virou assunto, babado forte, “olha isso aqui, melhor ler pra entender”. Ora, a raridade era demais e, como rastro de pólvora, como reação em cadeia, não pode ficar presa nas nossas entrelinhas. Virou um livro aberto, uma “face news”, uma medida para bons encontros. Se vocês acham que eu sofri quando acabou com P, imagina quando acabar com B. Evidente como preto no branco.
Jamais lhe falei tão claramente sobre o labirinto em que me encontrava perdida depois do sem-fim de palavras, deliciosas palavras, que trocamos em delicadas e dedicadas cartas virtuais. Sim, eram verdadeiras cartas. Em tudo havia um viés idílico, quase como um sonho de uma noite de verão. Consonante até nisso, pois que era janeiro. A autoria poética folgava apenas nas inúmeras letras de músicas que serviram de porta-vozes para os sentimentos. Meus sentimentos.
“Meus sentimentos” é a expressão dualística perfeita para intitular este trecho de vida; um enredo solitário sem plateia, sem picadeiro, sem piedade, isso para ficar só no “P”. Monólogo fúnebre sobre a morte do que nem sequer nasceu: um aborto entregue à sorte num qualquer beco de memória. Tua lábia astuta travestida de dócil eloquência me enganou, mas nas entrelinhas me avisou, afinal tem uma beleza nas coisas que se transformam e somem. Incrível como o famigerado “bom demais pra ser verdade” parece fazer tanto sentido depois da sua passagem.
– Meus sentimentos pela sua perda. (Fim do ato.)
Foste tu uma espécie de “ele” tão lindo, estonteantemente belo. Só com o léxico, forjamos um exemplar de amor absurdo. Era um amor-semente, como todo amor saudável. Eu disse lábia astuta? Oh não, eu me enganei. Foram as mais lindas palavras articuladas a mim. Não posso ser injusta ou ingrata com tanta beleza nas falas porque isso seria pura leviandade. A poesia era o ar que nós respirávamos e depois que tu partiste, tudo aqui ficou tão triste e eu fiquei com o silêncio. Ainda bem que éramos velhos amigos, o silêncio e eu, e do insonoro fiz nascer um lirismo genuíno. Há certas ações que nos suprimem o ar e preenchem os vazios da voz.
Sei que vai acabar,
mas, fica comigo?
Só mais um pouco.
Só até eu me acostumar
que não tem futuro,
que já passou da hora derradeira.
Senta aqui, fica mais.
Só mais um pouco.
A vida pode ser isso aí
que está na nossa frente agora.
Sem promessas.
Tudo em tempo real:
Cada confim surgindo e se moldando
à nossa moda nada usual.
Só fica mais um pouco,
me dá mais um beijo.
Não sei se consigo me desfazer
dos teus lábios assim tão fácil.
Uma miríade de falas não ditas.
Mas a vontade de gritar contigo,
Gemer, apertar teu corpo suado
E tremer, tremer de prazer
Cala todas as possíveis dúvidas.
Melhor gozar que falar.
Vai, Isso, Assim
Mixórdia urbana
Tudo muito confuso.
Imersa num calor delirante,
eu só queria uma água.
Minha sede de garganta seca
Versus tua sede de nó na garganta
Eu sem dinheiro em espécie
Versus teu dinheiro-espécie em extinção
Minha perplexidade congelada na retina
Frente tua fala generosa:
“não passa cartão, mas vende fiado”
Seis verbetes revolucionariamente unidos, !
Tua confiança de que eu voltaria
tão certa quanto tua escassez de perspectiva:
“depois você me paga”
Um depois do tamanho da tua vida camelódica
e eu quero é que esse canto torto, feito faca,
corte a carne de vocês
A consciência ferida aqui ainda é sangrante
Sangue vivo escarlate escorrendo espraiado
até a morte, mas não a minha, a tua.
Tua vida gritada de severinilidade
Versus a minha privilegiada vida.
Tonalidades e tons teimosos
desta tua-nossa Central do Brasil.
Essa raridade de noite fria
brotando na quase estação quente.
Beleza que insiste, e, resiste.
E eu – aqui – tão longe de você – aí.
Pra desintegrar a antítese dessa distância,
quisera eu, num ímpeto de desejo, atravessar
todas as fendas de espaço e tempo
pra te alcançar em tempo
de te encontrar sonhando acordado comigo
e de molhar meus lábios nos seus tão doces lábios
como um voto de boa noite, boa noite, meu amor
e ao seu lado deitar sem hora de acordar.
O pronome é possessivo
E ainda assim é delicioso de ouvir:
Minha gostosa, minha putinha,
minha cachorra, minha.
O sangue sobe à face, fugaz.
Mas não se engane.
Não é só isso que me tira do prumo.
Experimenta meu amor.
Brinco com as palavras num lego de léxico
Mas prefiro aquelas que se aprumam em versos.
Essas são de se brincar, mas não só.
Quando choro elas também vêm.
Direis: são para consolar?
Respondo: não. São tempestades, raios, trovões!
Verdades indecentes, insanas, que,
logo depois de trovejar, desfazem-se:
em silêncio, olhos fechados e serenidade.
Me apronto para brincar outra vez.