Central do Brasil

Mixórdia urbana
Tudo muito confuso.
Imersa num calor delirante,
eu só queria uma água.
Minha sede de garganta seca
Versus tua sede de nó na garganta
Eu sem dinheiro em espécie
Versus teu dinheiro-espécie em extinção
Minha perplexidade congelada na retina
Frente tua fala generosa:
“não passa cartão, mas vende fiado”
Seis verbetes revolucionariamente unidos, !
Tua confiança de que eu voltaria
tão certa quanto tua escassez de perspectiva:
“depois você me paga”
Um depois do tamanho da tua vida camelódica
e eu quero é que esse canto torto, feito faca,
corte a carne de vocês
A consciência ferida aqui ainda é sangrante
Sangue vivo escarlate escorrendo espraiado
até a morte, mas não a minha, a tua.
Tua vida gritada de severinilidade
Versus a minha privilegiada vida.
Tonalidades e tons teimosos
desta tua-nossa Central do Brasil.

Primavera é quase verão

Essa raridade de noite fria
brotando na quase estação quente.
Beleza que insiste, e, resiste.

E eu – aqui – tão longe de você – aí.

Pra desintegrar a antítese dessa distância,
quisera eu, num ímpeto de desejo, atravessar
todas as fendas de espaço e tempo
pra te alcançar em tempo
de te encontrar sonhando acordado comigo
e de molhar meus lábios nos seus tão doces lábios
como um voto de boa noite, boa noite, meu amor
e ao seu lado deitar sem hora de acordar.

Sua

O pronome é possessivo
E ainda assim é delicioso de ouvir:
Minha gostosa, minha putinha,
minha cachorra, minha.
O sangue sobe à face, fugaz.
Mas não se engane.
Não é só isso que me tira do prumo.
Experimenta meu amor.

Lego de léxico

Brinco com as palavras num lego de léxico
Mas prefiro aquelas que se aprumam em versos.
Essas são de se brincar, mas não só.
Quando choro elas também vêm.
Direis: são para consolar?
Respondo: não. São tempestades, raios, trovões!
Verdades indecentes, insanas, que,
logo depois de trovejar, desfazem-se:
em silêncio, olhos fechados e serenidade.
Me apronto para brincar outra vez.

Sede de te amar

Esse frio remonta
o abrigo dos teus braços
nas curvas da memória.
Extensos desejos de permanência.
Nosso amor lúcido
existindo serenamente
na calada da noite.
Me abraça de um jeito
como se eu nunca mais
pudesse ir embora?

Poesia disforme

Desconheço ainda uma forma
Um molde para nosso querer-bem.
O indefinido, ou melhor,
Um indefinido (artigo mais coerente)
É mais íntimo dos nossos rumos
que qualquer outro verbete dicionaresco
imposto na cartilha social.

Este poema que me perdoe,
preciso mudar de assunto.
Uma palavra veio alada para me levar.
Furtou-me a poesia difusa, sem contornos.
Não me deu muito em troca, pois.
Eis o que deixou:

Íntimo. Intimidade. Quero. Ou quero-te.
Será que tu é (és) o sujeito?
A necessidade não sustenta existência,
Mas a vontade, ah, essa é intensa.
E digo mais,
perigosamente intensa.

Desatino

A memória do teu cheiro vem tirar meu sono
me fazer menina de coração palpitante
enrolada em trama fértil de pensamentos:
Devaneios novelísticos, cinematográficos,
Ensaios amorosos que desafiam o tempo,

que desafiam o amor do nosso tempo.
(O amor do nosso tempo: um quase-amor
que transborda em lava e petrifica
antes de queimar no peito.
Nunca chega a ser)

Minha cena é fluida, a melodia não desafina,
tece enredos encantados, fascinante obra.
Porém; nenhuma rubrica de ilusão.
Sabe-se volátil, prestes a sumir.
Desfaz-se ao menor sinal de realidade
Esterelizada na dura certeza do desatino.

Já volto.

Ei, volta aqui!
Tanta coisa pra fazer aqui embaixo.
Essas nuvens aí,
tapete dos teus passos sonhadores,
alucinam teu coração de pássaro.
Olha, eu sei, felicidade é tanta
quando a imaginação é teu céu
– tão vasto céu.
Vontade tresloucada de voar
Eu sei, moça.
Mas, vem, desce aqui um pouquinho.
Depois volta
ou voa.