A vontade surge em ondas
Engloba-me dos pés à cabeça
E escorre…
Calmamente se esvai
Mas nunca completamente
A umidade não seca
São gotas de um amor que quer
Que quer ficar
Que quer fertilizar
Que quer florir
E que sobretudo o quer
Ah, querido, te quero
Mas os dilemas são tantos
Os pensamentos se confundem
O amor de um lado
A razão do outro
Querendo coexistir
Fazendo força para não parecerem tão insanos frente um ao outro
Quem dera não fossem tão incompatíveis assim
Injusto silêncio
Como competir com o silêncio?
Acalma e aborrece
Presente na totalidade do dia
Que injusta concorrência
Não fico mais em silêncio
Não gosto dele
Apenas quando tem olhos
Pele com o pelo
A boca que o rompe, cede
Encosta em outra boca
Transmite o melhor silêncio
Só esse me interessa
Apenas o justo silêncio
Poesia Dupla Face
Quero resolver com você a nossa vida.
Os traços
Os contornos
Que lápis ou pincel vamos usar
Se vai ser um quadro ou um texto
Se vai ser a óleo ou carta
Mas quero acabar com essa angústia
Que sobe do estômago ao coração
Pesa aos olhos
Lava-os
Qualquer música faz sentido e é certeira.
Não sei se quero mais
Estive pensando há algum tempo se realmente quero ficar assim. Tem um tempo que não me importo com coisas importantes, nem ligo se é sábado ou sexta. Se quem canta é Caê ou Bethania. Não escuto mais, estou no automático. Sou uma pessoa triste porque fiz uma soma fácil que qualquer um pode fazer. Não há possibilidade de volta. Agora daqui pra frente é seguir o melhor caminho. Era para ser tudo lindo e não é. Chega! não quero mais!
Não quero mais…
Quero admitir que errei o cálculo, a soma não era essa. Fiz uma soma porque levei o principio contábil à risca: “principio da prudência”, que é basicamente colocar mais valor para coisas negativas do que as positivas, a fim de não trazer distorções e falsas percepções. Infelizmente errei.
Quando falei que era triste, não levei em conta a sua coeficiência. Sempre trazemos para si os problemas do imperativo categórico cotidiano burocrático como uma mochila pesada que incomoda; por ser um fardo não nos esquecemos.
Porém há outros fatores que mudam essa soma, e são coisas simples, como aqueles cinemas em lugares incomuns que íamos para ver filmes pouco vistos no Brasil. Ir para uma ilha para transar – no meu caso fazer amor (tom sério). Os teatros que fomos, desde o Tartufo a Baker. Até mesmo aquele que não entrei, mas te levei na porta (Kafka). Todos os sábados que conversamos sobre TUDO, sem exceções. Todas as manhãs que acordamos tarde. Pão de queijo com vinho e batata frita. Gramas. Morros cariocas. Sair para tomar um drink com nome de cantor espanhol e ouvir música boa. Ler livros juntos. Batizar as plantas com nome de gente e misturar com a espécie, uma tentativa pífia de rimar, quase como um “zorra total”. Subir morros e olhar para baixo e depois descer (rs).
E o principal: olhar para o outro, aquele que você quer naquele instante, e ter medo de falar tudo. Achar que está entregando o ouro, deixar ele saber que está feliz, mas não muito para não achar “coisas demais”. Não dizer todas as palavras que saltam o coração. Dormir com toda a segurança de onde vem as batidas do peito. Fazer casa sem teto e parede.
Por isso não quero mais…
Não quero mais ficar sem esse elemento no meu balanço, esse elemento é VOCÊ.
“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.” Clarice Lispector
(Texto em carta)
E se
Se ela não tivesse ido ao forró
Se ela tivesse deitado comigo na primeira noite
Se ela não tivesse olhado o app relacionamento
Se ela não tivesse pegado dengue
Se ela não escrevesse poesia
Se ela não gostasse de música
Se ela não tivesse o cabelo de fogo
Se ela não fizesse as suas intervenções poéticas no meu desodorante
Se ela não lesse junto
Se ela não pegasse na mão tão doce
Se ela não tomasse banho junto
Dormisse
Conversasse
Olhasse
Respirasse e
Dissesse as coisas tão juntas..
Não sei se estaríamos aqui
Estrelas, pássaros e flores
Creia-me, eu não perdi o senso,
A voz das estrelas é como o canto dos pássaros.
E ao vir do Sol, ou das manhãs choramingosas,
Faço questão de ser atravessada pela melodia estelar,
Afinal, você sabe, eu fui aparelhada.
Hoje cedo, um segundo antes de entregar meu corpo,
mas não minha alma – minha existência ninguém toma –
Antes de me deixar levar na esteira do dia, eu vi.
Eu vi botões de flores quase quase se abrindo.
Pra quem não sabe, as flores são primas das estrelas.
Imediatamente, uma ideia óbvia me ocorreu:
Eu deveria parar; e devagarinho para não assustá-las,
colocar-me ao lado delas e admirá-las desabrochando.
Afinal, o que poderia ser mais importante que aquilo?
Canto de estrelas, cheiro de pássaros, brilho de flores.
Sociedade do Descuido
O mal dos tempos líquidos
é achar que cuidado é um capricho.
não se acostume
Entrelinhas cotidianas
Som de passarinhos
é a melhor poesia
para inaugurar o dia.
mãos dadas com o vento
Vento que me bagunça os cabelos
e me arrepia pelos, pele e espinha
Sopra nas marcas desse coração
perpassa as lacunas que o tempo abriu
É gostoso sentir o som da sua passagem
Balança minhas certezas e me reinventa
Aquilo que tenho anda não me cabendo mais:
uma pequena coleção de mágoas cativas
problemas com os mesmos valores e apenas
enunciados diversos
Pode levar
Não quero mais do mesmo de mim
nem de ninguém
Leva esse punhado de desalentos
Aliás, pensando bem, deixa isso aí
Vamos só você e eu.
2020
Intimidade
é ver as faces
sem máscaras.