Sol Enluarado

Ai que eu vi, vi!
Vi o Sol se indo, o danado
Brincando de ser lua
Lua vermelha tipo a de Bethânia
Toda sertaneja aprumada ela-ele
Eu vi, ai, um Sol Lunar!
De um tom terroso-celeste
Sei nem dizer o quê
De é tanta mistura
Até confunde as frases
E as fases
da lua, que agora são cinco:
nova, crescente, cheia, minguante

E solar!

Me vê 1kg de perdão?

Falta-me coragem
De pedir que me perdoe

Perdoe-me exigir
um reflexo meu em ti

Perdoe-me a madureza
no quesito parceria,
e pela escassa paciência
em te esperar avançar.
É que eu não tenho mais
oitenta anos pela frente.

Perdão por ainda insistir
e te violentar
com protocolos infindáveis
de relacionamento exemplar

Perdão por cair na sua
conversa mole outra vez
outras vezes
E pela coragem vacilante
quando digo que vou embora
esperando ser convencida a ficar

Perdão por falar em amor
no dia da despedida.
E ainda por fazer rolarem
suas raras lágrimas.
Que vergonha
Sou muito mais sórdida
do que consigo admitir.

Perdoe-me a covardia
de te deixar nos iludir
pensando que resolveremos.
Preciso antes, muito antes
resolver-me.

Perdão por não saber terminar
nem o poema.

Morrer pra viver

A cabeça fervilha cotidianices
Rola a roleta dos pensamentos
Quando te acha, não quer sair
Fica, fica aqui nessa estação
Um pouquinho mais só, mais mais

Mesmo com a roleta imóvel:
É incessante a confusão de pensamentos
Ah, perdão, eu não posso negar
E outra, não sei se melhora

Estar contigo me planta outras dúvidas
Estou que não me aguento de pensar
Quero férias de sinapses
Não é sobre morrer, mas é como se fosse.
Como se uma parte tivesse que morrer
Pra que eu continue vivendo
E me sabendo viva

E me sabendo viva

Ah, ainda bem que isso se dilui com sua presença
Porque eu, eu estou que não me aguento de pensar.

Do teu lado

Caminhos são tramas variadas
Riscam planos, tecem sonhos, apertam laços
Bagunçam meus passos e minhas certezas.
Por eles, juntos, conseguimos caminhar
mesclando-nos.

Gentilmente cedendo espaço pro outro,
essa peleja de vida fica mais fácil atravessar

Do teu lado.
Com alguns descontentamentos,
Mas do teu lado
Com algumas palavras mal ditas
Mas do teu lado
Com a paciência limitada
Mas do teu lado
Com um não-sei, com um sei-lá, com um talvez
Mas, acima de tudo, do teu lado.

Também com uma vontade de não se descolar,
Com um “eu te amo” quase preso, quase solto
Nas línguas moles de tanto se adorar
Na grande delícia de ser cada dia mais íntimo
Mesmo sem compartilhar um simples xixi.
Como assim, tem xixi no poema?
Intimidade deve ser isso.
Qualquer que seja o contexto
Desde que seja do teu lado.

Quanto tempo

Esse tempo
foi o suficiente?
Quanto tempo leva pra ajustar
As lágrimas num ombro
O corpo num abraço
O sorriso num olhar
Quanto tempo leva pra ajustar uma vida na outra?
Quanto tempo leva pra saber o tempo bastante?

(Quanto tempo não te vejo)

De dia te desejo

De manhã acordo
Escrevo de madrugada minhas juras virtuais
Releio tudo
Tomo uma dose de coragem de dia
Espero que encontre cama quente para os meus suspiros virtuais
De madrugada sonho

(te quero)

A Razão e o Amor

Dane-se a razão
tudo milimetricamente
Quadrado sem curva
Reto e sem corpo
Gosto de sentir
Razão serve pra trabalho
Pro amor é outra coisa
Sonhar
Suspirar
Saudade
Beijo
Mãos dadas
Teu sorriso

De madrugada te quero

De madrugada desperto
Louca pra te achar em juras de amor virtuais.
Não encontrando respostas,
julgas não ecoarem em meu peito.
Tudo que vem daí encontra cama quente
Abrigo ansioso para teus ensaios poéticos
De madrugada espero…

Exagero de Frente fria

Li no jornal:
“A maior frente fria do ano”
Mal sabem, fria é como ela está comigo
Pode ser a pior do século
Durando para sempre
Sábado ela deve passar
Todos estão torcendo
Escutei na rua:
“Nenhum carioca gosta de frio”
Concordo com ele