Marginalizada

Deixem-me à margem
à margem dos dias reais:
corriqueira dureza diamantada
esculturas de sentimentos sem faces
expressões vocais e visuais sufocadas

gritos mudos

sorumbáticos

Rio estéril de sentidos mortos
varridos todos pela poeira
de barulhentas buzinas
de anúncios de televisão
de aparelhos smartphones
de praças de alimentação

Oh, por favor
dessa realidade
deixem-me à margem

Era bem diferente
quando a felicidade
andava nua pelo meu país
(quando?)

Agora ela foge
me escapa entre os risos
os quase-risos natimortos
me escapa

me escorre
embaça a íris
Deseja nascer arco-íris
Pós chuva de mágoas

Me espera
Me espreita
Me insiste
Me resgata

Des-vínculo

Há certas ações que falam por si
Débil vínculo em luta inútil de estabelecer-se
Guerreiro em frangalhos, farto, fraco e faminto
Gastando a rouquidão em gestos de indiferença e superficialidade
O olhar ingenuamente crédulo
Jura que não vê o óbvio
Desse terreno estéril
Não brota nem uma jura
Nem uma injúria de amor

É muito fácil amar pela manhã

É muito fácil amar pela manhã
Na bruma do sono insistente
Na areia dos olhos entreabertos
No corpo quase inerte
– salvo pelos sinais vitais –

Já amei assim sem amor
Digo-te logo, não há poesia nesse poema
só verdades ressecadas nos cantos dos olhos

É muito fácil amar pela manhã:
A cama, por exemplo, tem todo meu amor
A manta que me aquece e acolhe
Minhas plantas de folhas viçosas
Minha janela emoldurando os ventos e os sóis
Meu céu azul multitom – cores de horas que passam
Minha cortina de renda alva, onírica e esvoaçante
Meus livros, poucos, mas garimpados um a um

Meu amor preenche esse cenário
Todo dia, toda noite, quando estou
Todo dia, todo tempo, ou quando não estou
Entenda-me, acordo e estou em meu paraíso
Então de manhã não sei se te amo porque te amo
ou só porque é muito fácil amar pela manhã