existe um abismo abissal
entre as promessas ouvidas
e o efeito ao ouvi-las
entre a realidade ansiada
e a realidade despida

então eu prefiro
escolher ser sozinha
a ser deixada só

Marginalizada

Deixem-me à margem
à margem dos dias reais:
corriqueira dureza diamantada
esculturas de sentimentos sem faces
expressões vocais e visuais sufocadas

gritos mudos

sorumbáticos

Rio estéril de sentidos mortos
varridos todos pela poeira
de barulhentas buzinas
de anúncios de televisão
de aparelhos smartphones
de praças de alimentação

Oh, por favor
dessa realidade
deixem-me à margem

Era bem diferente
quando a felicidade
andava nua pelo meu país
(quando?)

Agora ela foge
me escapa entre os risos
os quase-risos natimortos
me escapa

me escorre
embaça a íris
Deseja nascer arco-íris
Pós chuva de mágoas

Me espera
Me espreita
Me insiste
Me resgata

Des-vínculo

Há certas ações que falam por si
Débil vínculo em luta inútil de estabelecer-se
Guerreiro em frangalhos, farto, fraco e faminto
Gastando a rouquidão em gestos de indiferença e superficialidade
O olhar ingenuamente crédulo
Jura que não vê o óbvio
Desse terreno estéril
Não brota nem uma jura
Nem uma injúria de amor