O raiar de um dia útil – em 5 atos

Ato 1: O despertar
cinco e cinquenta e três despertei e esperei
O despertador só às seis, faltam sete pestanas
Fecho os olhos, está escuro, é inverno ou-tono
mas não há jeito, daqui pra frente só clareia
Levanto-me. A cama eu deixo bem arrumada
para o nosso encontro de logo mais à noite
Ato 2: O devaneio
calei todos os sonhos, o silêncio é todo meu
nem a minha própria voz eu quero ouvir
ela já fala muito na terra dos miolos
miolo de pão, miolo mole, miolo de flor
já está ela a me interromper o raciocínio
dá cá o fio da meada que borda esse poema
Ato 3: O banho
"o potássio é um íon com atividade osmótica"
Essa é a última frase do último sonho que tive
Talvez o sódio seja mais bem quisto a este papel
Fim do banho; saudosa me despeço da água quente
O dia já sussurra pequenos ruídos. super-rádio-tupi
O ar se adensa com fortes odores de colônias baratas
E meus olhos já não abrigam oníricos grãos de areia
Ato 4: O vestir
dentes escovados, antitranspirante nas axilas
cabelos para a esquerda - um penteado político
consciência na cabeça até o último fio de cabelo
calça larga, blusa se for de passar passo fora
ou visto sem passar. aposto que lanço moda
adornos? estou quase a doar os que ainda tenho
ficar bonita dá preguiça e quase sempre não funciona
Ato 5: O sair
seis e trinta e nove, tênis nos pés, mochila nas costas
bom dia vó, bom dia vô, tchau mãe bom trabalho
Desço a rua pensando: quando o relógio marcar
seis e trinta e nove pela segunda vez hoje
estarei novamente em casa. conto cada minuto
Seis e quarenta e nove chego ao ponto de ônibus
E os pássaros? não posso deixar de ouvir os pássaros

Fim

(ao artista Paulo Gustavo)
rir até faltar o ar
jamais faltar o ar
até não poder rir
miríades
de sorrisos desfeitos
mais de 400 mil
para ser inexata
de filhos deste solo
que a este solo voltam
risos afogados
em lágrimas diluvianas
este circo
minha gente
acaba quando?
Ai,
que interjeição doída
tão coerente com esse aperto
que me assalta as batidas do peito
desdobrando-se em uma disrritmia
toda vez que vens visitar
a passos leves e encantadores
o fértil terreno de meu pensar

junho de 2020

Quase um Monet

hoje é domingo
e logo em abril
um sol de banho
brisas de inspirações
e expirações demoradas
luz de dourar os cabelos
de contrair pupilas
cerrar os olhos; um sorriso
no encontro dos lábios
superior e inferior
da mesma boca
sempre sempre ali
pios de pássaros
árvores verdes
céus azuis
etcetera
hoje é domingo
ah, e logo em abril
o cenário perfeito
para esconder a lágrima
uma nascente de lágrimas
poço enchente represa
dilúvio cachoeira oceano
granulados de cintilantes lágrimas
brilhando pesadamente o silêncio
céus-verdes-árvores-azuis
um exílio sofisticado
disfarçado
de obra de arte
quase um Monet

É morte

metade de mim é silêncio
silêncio de morte
a outra metade é espera
e desesperança

os risos soltos presos
no cárcere da culpa
mar de lágrimas berrantes
e silêncios emudecedores
não há alegria que se sustente
nem ânimo que se sinta justo
nenhum orgulho poético

grãos finos de chuva
garoando do lado de dentro
nenhuma alma lavada
antes lama acumulada
no pântano da tristeza

incontáveis rainhas a se coroar
inúmeros planos sonhados
mas agora inês é morta
sônia é morta, cristina é morta
maria é morta, paulo é morto
valdeci é morto, carlos é morto
é morta, é morto, é morte
quatro mil quatrocentos mil

que as máscaras sirvam
ao menos para cobrir as faces
da vergonha

existe um abismo abissal
entre as promessas ouvidas
e o efeito ao ouvi-las
entre a realidade ansiada
e a realidade despida

então eu prefiro
escolher ser sozinha
a ser deixada só