Era bem diferente
quando a felicidade
andava nua pelo meu país
(quando?)

Agora ela foge
me escapa entre os risos
os quase-risos natimortos
me escapa

me escorre
embaça a íris
Deseja nascer arco-íris
Pós chuva de mágoas

Me espera
Me espreita
Me insiste
Me resgata

Des-vínculo

Há certas ações que falam por si
Débil vínculo em luta inútil de estabelecer-se
Guerreiro em frangalhos, farto, fraco e faminto
Gastando a rouquidão em gestos de indiferença e superficialidade
O olhar ingenuamente crédulo
Jura que não vê o óbvio
Desse terreno estéril
Não brota nem uma jura
Nem uma injúria de amor

É muito fácil amar pela manhã

É muito fácil amar pela manhã
Na bruma do sono insistente
Na areia dos olhos entreabertos
No corpo quase inerte
– salvo pelos sinais vitais –

Já amei assim sem amor
Digo-te logo, não há poesia nesse poema
só verdades ressecadas nos cantos dos olhos

É muito fácil amar pela manhã:
A cama, por exemplo, tem todo meu amor
A manta que me aquece e acolhe
Minhas plantas de folhas viçosas
Minha janela emoldurando os ventos e os sóis
Meu céu azul multitom – cores de horas que passam
Minha cortina de renda alva, onírica e esvoaçante
Meus livros, poucos, mas garimpados um a um

Meu amor preenche esse cenário
Todo dia, toda noite, quando estou
Todo dia, todo tempo, ou quando não estou
Entenda-me, acordo e estou em meu paraíso
Então de manhã não sei se te amo porque te amo
ou só porque é muito fácil amar pela manhã

Sol Enluarado

Ai que eu vi, vi!
Vi o Sol se indo, o danado
Brincando de ser lua
Lua vermelha tipo a de Bethânia
Toda sertaneja aprumada ela-ele
Eu vi, ai, um Sol Lunar!
De um tom terroso-celeste
Sei nem dizer o quê
De é tanta mistura
Até confunde as frases
E as fases
da lua, que agora são cinco:
nova, crescente, cheia, minguante

E solar!

Me vê 1kg de perdão?

Falta-me coragem
De pedir que me perdoe

Perdoe-me exigir
um reflexo meu em ti

Perdoe-me a madureza
no quesito parceria,
e pela escassa paciência
em te esperar avançar.
É que eu não tenho mais
oitenta anos pela frente.

Perdão por ainda insistir
e te violentar
com protocolos infindáveis
de relacionamento exemplar

Perdão por cair na sua
conversa mole outra vez
outras vezes
E pela coragem vacilante
quando digo que vou embora
esperando ser convencida a ficar

Perdão por falar em amor
no dia da despedida.
E ainda por fazer rolarem
suas raras lágrimas.
Que vergonha
Sou muito mais sórdida
do que consigo admitir.

Perdoe-me a covardia
de te deixar nos iludir
pensando que resolveremos.
Preciso antes, muito antes
resolver-me.

Perdão por não saber terminar
nem o poema.

Morrer pra viver

A cabeça fervilha cotidianices
Rola a roleta dos pensamentos
Quando te acha, não quer sair
Fica, fica aqui nessa estação
Um pouquinho mais só, mais mais

Mesmo com a roleta imóvel:
É incessante a confusão de pensamentos
Ah, perdão, eu não posso negar
E outra, não sei se melhora

Estar contigo me planta outras dúvidas
Estou que não me aguento de pensar
Quero férias de sinapses
Não é sobre morrer, mas é como se fosse.
Como se uma parte tivesse que morrer
Pra que eu continue vivendo
E me sabendo viva

E me sabendo viva

Ah, ainda bem que isso se dilui com sua presença
Porque eu, eu estou que não me aguento de pensar.

Do teu lado

Caminhos são tramas variadas
Riscam planos, tecem sonhos, apertam laços
Bagunçam meus passos e minhas certezas.
Por eles, juntos, conseguimos caminhar
mesclando-nos.

Gentilmente cedendo espaço pro outro,
essa peleja de vida fica mais fácil atravessar

Do teu lado.
Com alguns descontentamentos,
Mas do teu lado
Com algumas palavras mal ditas
Mas do teu lado
Com a paciência limitada
Mas do teu lado
Com um não-sei, com um sei-lá, com um talvez
Mas, acima de tudo, do teu lado.

Também com uma vontade de não se descolar,
Com um “eu te amo” quase preso, quase solto
Nas línguas moles de tanto se adorar
Na grande delícia de ser cada dia mais íntimo
Mesmo sem compartilhar um simples xixi.
Como assim, tem xixi no poema?
Intimidade deve ser isso.
Qualquer que seja o contexto
Desde que seja do teu lado.