Aranhas vasculares
Não fazem cócegas na pele
Vai passar
Vai passar o cortejo
Vai passar a procissão
O ano vai passar, o samba
Essa estação vai passar
Até o frio vai, a febre vai
A dor vai passar, doída, mas vai
Vai passar o aniversário
Vai passar o sete de setembro
O inverno vai passar
Vai passar o trem, o ônibus
Vai passar a recessão
Vai passar a eleição
O genocida vai passar
Vai passar a aflição
Até uma Copa vai passar
Pelo Mundo, ah vai
Vai passar o especial de Natal
Vai passar na TV
Coronavírus vai, já foi
A virada vai passar
Dez, nove, oito...
Sete ondinhas vão passar
Vai passar um ou outro
Vai passar a esquecer
Um amor vai passar
Mais dois ou três ou mais
Vai passar um vestido
Vai passar uma vida
Vai passar um diploma, dois
Um sorrisinho aqui e acolá
Enfim, eles passarão
Você e eu, passarinhos.
Fanatismo
Eu quis tanto ser o seu refúgio
Ser a sua luz,
o brilho nos seus olhos
Ser a sua pequena, eu quis tanto
Ser sua, me sentir inteira sua
Ser o sol da sua noite em claro
Eu quis tanto, mas tanto
Ser a menina dos seus olhos
Sentir seu fanatismo
Eu quis tanto
Seus olhos postos em mim
Vidrados, cegos em me ver
Eu quis tanto ser sua morada
O destino para o qual se corre
Eu quis tanto
Ser a sua razão de atravessar o dia
Eu quis ser a sua razão
A sua falta de razão
Eu quis tanto ser
já toda a sua vida
Diário da Invencionática
Vegetais transgênicos
usam gás carbiônico
Plantas Urbanas
Em cartaz:
A Delicadeza Desconcretante das Plantas Urbanas
Plantas de cidade, mas desdomesticadas
Capazes de romper durezas asfaltadas
E amolecer o coração de pedra da sarjeta
Fuga verde contra a fadiga cinza
Passeando em frestas de paredes, pisos e piches
Tesouro que dá em árvore
Dinheiro em penca (Callisia repens)
Notas verdinhas de esperança
Poesia mansa a florir
Seguem reivindicando seus lugares de fala:
Desurbanização versus Desmatamento
Um silêncio de raiz forte corre pela relva e anuncia
A revolução planejada aos pés do mundo
No subterrâneo dos planos da modernidade
A retomada da Terra pela terra
A Era das Heras
Sim, só quero dizer sim
Sim, ainda sonho com a nossa casa
Cheia de livros e plantas por toda parte
Cheia de nós.
Hum, que frio, queria ver aquele filme
Me empresta a senha, aliás, vamos ver juntos
Sim, ainda planejo nossa próxima viagem
Que vai sair em qualquer hora
Absolutamente não planejada.
Mas sim, deixa eu te contar da minha semana
Esses dias comecei aquele curso, lembra?
Então, me conta como está por aí...
Olha que música linda
Musicaram aquele nosso poema da Florbela
Semana que vem tem show do artista, vamos?
Sim, quarta-feira é aquela exposição
Peguei os ingressos, tenta não se atrasar
Depois a gente toma um café, sim?
Vamos, quer dizer, vai fazer o que no feriado?
Espera, não me conta
Melhor não
Gosto de surpresas
Mas já te adianto
Minha resposta é sim.
Leia ao som de Sinatra
O céu me assalta
o olhar, os sonhos, a vida
Fly me to the moon
Há penas em uma separação:
A demolição de toda uma casa.
Um grande cais destruído pelo sal.
O desaparecimento de um idioma.
A desterritorialização de um país.
Um planeta inteiro a desabitar-se.
Apenas em uma separação.
É mais triste
Quando o amor
Ainda existe
Me vê um poema urgente
Talvez eu escreva um poema
Está aqui me rebentando,
quer ser parido, expulso
Não suporta mais essa gestação
Vai nascer pós-termo
Já nem oxigena direito
Sem espaço, congesto
Precisa de lugar para chorar
Chorar e chorar mais e mais
O absurdo de viver