O céu me assalta
o olhar, os sonhos, a vida
Fly me to the moon
Há penas em uma separação:
A demolição de toda uma casa.
Um grande cais destruído pelo sal.
O desaparecimento de um idioma.
A desterritorialização de um país.
Um planeta inteiro a desabitar-se.
Apenas em uma separação.
É mais triste
Quando o amor
Ainda existe
Me vê um poema urgente
Talvez eu escreva um poema
Está aqui me rebentando,
quer ser parido, expulso
Não suporta mais essa gestação
Vai nascer pós-termo
Já nem oxigena direito
Sem espaço, congesto
Precisa de lugar para chorar
Chorar e chorar mais e mais
O absurdo de viver
chuva para florir
Eu posso desejar a tua presença todos os dias
Posso não lembrar dos motivos de ir embora
Posso até mesmo esperar e esperar você chegar
Então eu posso todo dia fingir que estou feliz
Posso sorrir; sorrir; s-o--r---r----i-----r; só
E posso na mesma proporção chorar e chorar e...
Posso indefinidamente não saber o que fazer
Posso assumir que até achava que saberia
Mas agora posso admitir que eu não faço ideia
Posso pensar que estou me afastando mais hoje
Posso achar que meu caminho de ida não é
[a exata estrada da volta
Ah, eu posso ainda beber todo o vinho do mundo
Posso me enganar que consigo fazer isso sem saudade
Eu posso secar todas as lágrimas que vêm e vêm e...
Então eu posso ainda pensar que o tempo vai curar
Posso negar a etapa dolorosa do processo
Posso mais que isso, posso acreditar no que for
Até posso acreditar que não consigo me enganar
E posso estar muito cansada dessa "chuva para florir"
Confesso que tenho medo
Estou paralisada de medo
Querido, você está aí?
Ainda chora, ainda pensa?
Meu maior medo hoje
É você encarar minhas retinas,
minhas anêmicas retinas
e estar convicto do nunca-mais
Minha pele toda treme
de solidão agudíssima
Eu te amo, eu te amo eu te amo
Não preciso de mais
Eu ando, ando e ando
E todos os caminhos
São estradas de regresso
Ao teu peito, ao meu lar
Chuva de pingo d’água
Hoje eu vi chover das estrelas
Digo, eu vi chover de um céu
mais estrelado que enuviado
Não era uma chuva de estrelas
"Ainda bem" diriam os astrônomos
Era mesmo chuva de pingo d'água
E se a noite enxergasse os arco-íris
Certeza que valseantes vagalumes
teriam uma pista de dança multicor
Estrelando seus passinhos diminutos
Sob a luz daquela nuvem de estrelas
Alguém me tira de mim
Sinto-me claramente turva
Sem nenhuma condição
De raciocínio lógico
Minha cabeça vai se espatifar
Em mil memórias de ti
Em mil versões possíveis
De tudo que eu ju-rei nunca mais
Nunca mais passar.
Mas você não passa
Minha dor crônica
Meu mal incurável
Meu vício, minha droga
Minha vida toda sua. nossa.
Você me aperta, me estrangula
Quase me mata sem me enxergar
E eu só grito
Eu toda um grito
Mudo
Barulhos de ondas,
de carros,
De horas passando,
Mascando os minutos
Ficando pra ontem
Pra depois
Pra nunca mais
Não, eu não vou voltar
Mas ainda sonho com a nossa casa
Cheia de livros e plantas por toda parte
Cheia de nós.
Não, eu não vou voltar
Mas que frio, queria ver aquele filme
Me empresta a senha, aliás, deixa
Depois eu vejo...
Não, eu não vou voltar
Mas ainda planejo nossa próxima viagem
Que vai sair em qualquer hora (sairia)
Absolutamente não planejada.
Não, eu não vou voltar
Mas deixa eu te contar da minha semana
Esses dias consegui aquilo, lembra?
Mas me conta como foi por aí...
Não, eu não vou voltar
Mas olha que música linda
Musicaram aquele poema da Florbela
Semana que vem tem show do artista, será que...
Não, eu não vou voltar
Mas quarta-feira é aquela exposição
Quer os ingressos, eu vou depois
Ou talvez só um café...
Não, eu não vou voltar
Mas vai fazer o que no feriado?
Espera, não me conta
Melhor não
Eu não vou voltar.