Tímida Ousadia

Ah… a ousadia dos tímidos
Escondida, misteriosa, furtiva!
Saborosa intensidade
Nas entrelinhas, nas vírgulas,
no fôlego perdido, no olhar,
Simplesmente está.
Como um segredo
Como os mistérios do mundo
Como as estrelas todinhas
-do outro lado do telescópio-
Todos os astros celestes
Todos os seres invisíveis
Simplesmente estão.

Só saber onde olhar.

Não me chama pelo nome

Quero a poesia que não.
A música, a sintonia.
Há música? Há sintonia?
Notas ignotas
Vazias de informação e barganha

Onde o colorido do outono
Perdido onde?
Grama fofa de um parque nunca visitado
Pés gélidos de orvalho
Descalços?
Janela descortinada
Quadro sem moldura
Tarde turquesa, trivialidades, amenidades
Moldes?
Brisa sem cheiro
Vento sem vendaval
Descabelado?

Suspiro suprimido, suspenso
Contido, travado
No ar

Lágrima que não nasce
Abortada
Ectópica
Imparida, infértil, indesejada, imóvel
A es-pe-rar
Do verbo mesmo
Não do substantivo.
Sedenta de substância
Que súbito faça quedar
Em nossa prosa infinita
Nas marcas e nos sorrisos
Nas mãos que não se entrelaçam
No despedir-se sem olhar para trás
Na ausência
E
Nos braços daquele
que não me chama pelo nome.

23 de abril.

De repente, avesso.
Num piscar de olhos o mundo se inverte.
E ainda se é o mesmo. (Ainda?)
Trocaram o cenário com a cena inacabada.
A sensação de deslocamento sufoca.
Esse não é o seu ato.
Essa não é a sua deixa.
Esse não é o seu momento.
Essa não é a sua vida.
Um denso vazio se infiltra com a surpresa.
Perceber tamanho engano é paralisante.
O mundo sempre esteve ao contrário
E você que não reparou?

Ex-amor

Depois despencou vertiginosamente
Como montanha-russa na primeira queda.
Sem gritos;
sem frio na barriga;
só uma poça de lágrimas no fim da descida.

Decida!
Não se morre de amor-delírio,
só de amor-amor.
E os dias seguem taciturnamente vívidos.

Claramente foi um devaneio,
Um efêmero de brilho nos olhos,
beijos fantásticos,
incrível jeito de amar.

E se foi.
De repente, não mais que de repente.
Deixou alcançar o ápice e:
se foi.

Deslize

Acordei querendo
Cometer um deslize
Da sua pele na minha…

Há tantos desejos
Ora palpáveis, ora etéreos
A transbordar em grito,
Tremores, abraços, olhares.

Sem planos, só vem!
Todo dia – ou quase –
Vira meu vício.

Pássaros noturnos

Pássaros noturnos são prenúncios
De agradáveis noites de serenidade.
Apenas ouvidos atentos os ouvem
E percebem seus cantos delicados.

O reles passageiro do mundo
Sempre transbordado de inutilidades
E ouvidos ocupados de palavreados
Não nota o lírico som da noite…

Os pássaros sempre lá estarão
A bater ponto na cortina estrelada
Como fiéis mensageiros da paz.

Quando os ouvidos forem coração
A doce presença será incontestada
E nítido será o som que a noite faz.

Mal da Dúvida

In-can-sa-vel-men-te tu vens
E o cansaço é imobilizante…
Outrora foste até saudável
Hoje és aflitiva e conflitante.

Agente da penitência
Das mentes exageradas
Criativas, confusas, nocivas.

Tua toxina vem para adoecer
Espanta seguranças frágeis
– que imploram permanência –
O chão faz escorrer
Desfalece toda alegria
Com ensurdecedores sussurros
De questionamentos vãos…

Será que a loucura reside no questionador
E, em verdade, tu, fonte de liberdade,
Só anseia dissipar a escuridão?

Fica a dúvida.

Hoje

Por um dia o sol de verão foi passear
Deu lugar à tua luz e foi pra outro céu.
No encanto de um firmamento nublado
O frescor e a brisa, teu dia, vieram coroar.

Será nublado o retrato de tua alma
Ou só a consciência prévia do porvir?
Ah, a inconstância dos dias não paridos
Inútil ansiedade que só faz confundir…

Conheço que é de teu agrado este céu.
Desfruta a beleza cantada pelas aves
Prenúncio de um dia de poesia sem véu!

Vive os momentos correntes e doces…
Só não esquece que o amanhã é gerado
No ventre despreocupado do hoje.

À mente

Deixa eu te escutar
Mas fala devagar
Tudo que lhe habita
É meu também.

Sua ânsia é gritar [eu sinto]
Mas espera o trem passar
Visita a paz do silêncio
Em lucidez, medita.

Pensa uma a uma
Toda ideia é singular
Dissolve a confusão
E descobre o deleite.

Contrafluxo

Gosto da voz do pensamento
Que fala e comenta sem som
Direito ao grito contido
Mudo e surdo

Da lágrima que goteja no cérebro
Nas lembranças
Da culpa que lateja e não cura
Dessas desgosto

Não quero voltar, mas volto
E volta e meia me encontro
Para um banho de mágoas
Que me tiram do fluxo

Gosto de me esconder
De ficar sozinha
De desencontrar de mim
Gosto do silêncio