Felicidade custa pouco

Café da manhã com calma;
Banho de Sol;
Cortar o cabelo;
Andar sem roupa íntima;
Sorvete de iogurte;
Cantar;
Livro ilustrado;
Acordar e dormir cedo;
Olhar a paisagem;
Falar com as plantas;
Que lavem minha cabeça
e penteiem meus cabelos;
Parque de diversões;
Prosa no café da tarde;
Tropeçar nos detalhes;
Desenhar;
Ler.

Querendo te encontrar

Onde está você? 
Eu adoro essa música
Virando a esquina
Chegando sempre atrasado

Apareça aqui pra me ver
Vamos dançar essa
"Um dia vou tocar sanfona"
Me conta, não importa quando

Eu vou gostar demais
Venha ter outro déjà-vu
Acarinhar os cavalos
Miar no meu portão

Sabes onde estou
Me pesca nos detalhes
Então, você é sentimental
O que diz a sua intuição?

Venha me dizer
Tudo sobre a sua vida
Os filmes que quer assistir
As músicas que quer ouvir

Onde você andou
Ou de que céu talvez voou
Lá onde gostas de saltar
Só para ganhar

Beijos que nunca te dei

O próximo [poema] será melhor

O que faz as amêndoas caírem 10 cm ao lado
e não em nossas cabeças?
Pela quantidade de amêndoas que habita uma árvore,
pela quantidade de amendoeiras,
as amêndoas poderiam exterminar os humanos.
POR QUE
a natureza não acaba logo com isso?

Pois bem, entrou mais um ano.
A boa notícia é que já veio jogando um globo de ouro,
tal qual uma bigorna, bem na fronte da extrema direita.
Mas ainda é tanto fio costurando os postes,
como uma rede pronta a cair sobre nossas cabeças
de peixes que não se entendem cardume nesse rio de janeiro.

Os drones fazem um barulho de inseto irritante. Como pode!
uma tão alta tecnologia não ter um som melhor?
Até o caminhão do gás canta cidade maravilhosa.

E que pandemia de farmácia é essa pelas ruas?
Um lugar sem ao menos uma cadeira para sentar.
Se for para remediar o estresse, que se abram lojas de chá.
Senta um pouco, coloca uma música, reúne uns amigos,
melhora o sistema de saúde, de educação, de moradia.
Não deve ser tão difícil aliviar a tensão.

E outra,
qual a lógica de aumentar o salário mínimo,
se tudo aumenta de preço também?
Não me venha falar em inflação! Eu quero é saber
quando vai dar pra ser feliz com o que se ganha?
quando as contas fecharão sem sufoco?
Quando toda a gente não precisará de ópio
para sentir que a vida presta?

Todas as metas de ano novo esbarram em "não tenho tempo" (...)
"Se você não fizer por si, ninguém fará" é muita covardia.

2025:
Ainda estou aqui
e ainda me falto.

Longe da culpa

Longe da culpa, meu corpo dança
Explora a maquinaria que me move
Sustentáculos dos meus passos em fuga
Ascendo às nuvens que me enfeitam
- os cabelos e os pensamentos

Longe da culpa, me exponho
Publico meu corpo completamente nu
Divulgo meus versos desnudos e vadios
Prontos a provar o calor de outros lábios

Longe da culpa, tenho vontade de beijar-te
E sem hesitar e sem vírgulas beijo-te
Não importa o que foi ou o que virá
Importa que tenhamos lábios e que beijem

Longe da culpa, parto sem retorno
Livre do medo de estar só e solta
Em sentido oposto para perder-me de vista
Avisto meus avessos e me seco ao sol

Longe da culpa, caminhos não percorridos
Não criam labirintos em minha cabeça
São apenas becos sem saída de onde escapei
Oportunamente,
Quando já era grande demais para caber

Longe da culpa, não peço desculpas
Não o tempo todo, como uma heroína trágica
Crio um enredo fantástico e vivo
Sou a protagonista de um épico

Longe da culpa, sou inspiradora
Minha história e trajetória são admiráveis
É delicado meu modo de sentir o mundo
Sou escritora e poeta
E minha voz nunca falha ao ler esses versos

Poema construído a partir de exercício de escrita proposto por Ryane Leão, no Laboratório de Narrativas Femininas, realizado pelo Sesc Copacabana RJ.

Paciente Terminal

Terminal não termina na palavra.
Um terminal pode ser onde se chega
e de onde se parte à outra parte.
O que importa é que TODOS os bilhetes
são passagens só de ida.
Jamais se volta ao que se era.

Se comemoramos nossos renascimentos,
por que não comemorar nossas mortes?
As pequenas mortes de cada dia
dai-nos hoje e sempre, amém.
(sinal da cruz)

Chega-se a um terminal e, afinal,
é preciso planejar o que fazer ao saltar.
Saltar no desconhecido de nós mesmos,
ávidos por desvendar nossos mistérios.
Aonde nos levam nossas passagens secretas?
Somos castelos de mil portas e mil portais.
Somos casas de muitos caminhos...

Cada dia por viver é uma página em branco,
onde se escreve com traçado ancestral:
Rabiscos dos primeiros chutes no ventre materno,
Garranchos dos primeiros choros,
Desenhos das inúmeras gargalhadas,
Rascunhos dos discursos para o colégio
e dos pedidos de namoro.
À tinta de canetas mágicas, elaboramos respostas
às nossas entrevistas de emprego
e às perguntas tão difíceis
feitas pela própria vida.

Não alcançaremos todas as respostas;
Tampouco faremos todas as perguntas.

Receber uma sentença de morte é um estigma
mas pode ser igualmente um estame,
e novas flores podem vir a compor um jardim.
Ora, dentre as tantas reviravoltas da aventura humana,
cultivar um jardim pode ser nosso último feito:
Uma celebração florida à nossa passagem.
E o perfume de nossa existência
ficaria para sempre na terra.

Volto ao Jardim

Quisera eu lhe entregar todo meu amor
Para que sentisses o amor do mundo inteiro
A preencher todos os seus poros de vida

Mas foi a minha casa que se encheu de amor
Com sua fala mansa e seus olhos cintilantes
Uma existência repleta de canção e poesia

Quando a música findou não foi o fim
Mas o começo de uma outra melodia infinita
Teu carinho derramado na memória do mundo
A acolher as dores camufladas de silêncios
Dos tantos de nós que têm sempre choro atrasado

É a vida dizendo: vai devagar; e me olha.

vendaval-mulher

no meu peito sopra um vento
que me leva a lugares distantes
terrenos ermos e selvagens
dentro de mim

eu me vi criança correndo a vida
eu me vi jovem a dançar com a eternidade
eu me vi mulher a contemplar as linhas
     das órbitas estelares
     das águas de rios, chuvas e lágrimas
     dos sorrisos largos e incontidos
     dos sorrisos secretos
     dos raios de Sol que insistem em brilhar
     da trajetória da vida em minha pele
     outras linhas que já não me habitam
     novas linhas que me desenham gentilmente

eu me vi obra de arte rara
esculpida pelas minhas próprias mãos
ainda agora remodelada com a brisa do futuro
em meu coração eu vi uma chama perene
que sequer oscilava com as tempestades

então de repente abri os olhos
como quem acorda de um transe
e o mundo não era cor de rosa
meu corpo ainda carregava as dores
minha pele ainda carregava os anos
mas minha visão já não era turva

eu me vi nítida
eu me vi gigante
tomada de delicadeza e fúria de viver
eu sou a mulher possível, o próprio vendaval
a mulher que ventou e chegou até aqui:
uma legítima vendaval-mulher