Às vezes me flagro em armadilhas
-pela minha própria mente armadilhadas.
Tão ardilosa!
Bem sabe onde o calo aperta,
sabe bem onde há ferida aberta.
Mergulha deleitosa no mar de dor
onde a rima óbvia se afogou.
Sinto muito.
Apaixonados não é a palavra.
Talvez ainda. Talvez nunca.
Passeiam almas num trecho de vida.
(Quer-se algo?)(Há algo a se querer?)
(Se é que se quer) O que se quer não se diz:
Nomear pode petrificar, encarcerar na palavra,
esterilizar.
O cerebelo à espreita para tornar tudo
maquinalmente vivível.
Dar forma pode calar para sempre o que
podia ter sido.
Opressivo é a palavra?
O carcereiro canta como sereia:
Carcereia, Carsereia.
Um passo pro cárcere, um passo pro fim.
Passam pássaros.
Seus cantos-bolhas rompem-se em música
num auxílio de garganta seca
aos pensamentos que não aprenderam a silenciar.
Ah, confesso, acuso, delato:
Há um grito contido aqui!
aquietado pela sensatez tão matrona, tão
cúmplice do ego e da maturidade.
E está errada? não está.
O grito é pueril, nada sabe do difícil
ofício viver.
Melhor que brinque de ser só aqui dentro.
Lá fora seria inconvenientemente emocionado.
Mas fica por aqui, não deixa tua casa,
meu filho-grito:
Pro peito não achar que é Só
só uma caixa de bulhas.
Pra saber que ainda tem pulso.
Deixa teu ensaio arrítmico
no gatilho do potencial de ação.
Só pra eu não pensar que morri.
Se eu chorasse seria mais fácil?
Sinto falta de chorar.
Ah, sinto muito.
Desenha-me uma Saudade
Desviver
Eu digo não
Eu digo sim
Digo ou desdigo
Não é bem assim
Estou certa disso
Claro como água
Água turva
Não sei, espera
Espera um pouco
Com certeza
Estou em dúvida
Confusamente
Certamente
Vivo ou desvivo
(2016)
Hey, Baby
Nem te chamo pelo nome,
mas já és o mais presente na minha vida.
Silêncio que fala amor.
Às vezes grita.
O silêncio entre nomes e sentimentos
Todas as palavras ditas e não ditas
estão presentes entre nós
disponíveis como numa imensa vitrine:
Nomes próprios, apelidos, vocativos,
sentimentos dos mais variados,
grandes, pequenos, médios, fortes, fracos.
Todos lá esperando cumprirem suas funções.
Funções puramente linguísticas.
Mas nós vamos além.
Nossa comunicação (posso dizer?) é transcendental.
Está no silêncio,
nos já conhecidos detalhes,
nas mãos que se acariciam e tão facilmente se entrelaçam,
nos sorrisos apaixonados que o brilho nos olhos já entrega,
na tácita certeza das potencialidades sentimentais.
A comunicação nasceu antes das palavras
e nesse aspecto somos conservadores.
Num mundo onde a semântica do vasto léxico
pode ser uma prisão,
nossa liberdade é incalculável.
Que sensação incrível!
Nunca havia experimentado ser livre dessa forma.
Liberdade através do silêncio.
Do silêncio mais repleto de significado que pode existir.

(assustada)
Assustador
é não saber
nem metade
da vastidão
que me habita.
Oásis de Paz
Acostumada a um sentir morno
– sem arrepios, sem frisson, sem entrega –
empedrado, engessado, enferrujado.
De coração a-pa-ga–d—o…
Tropeço. (leia de novo, pois falo do verbo)
E, trôpega, levanto-me: vacilante,
à guisa de rebento parido.
Em um mundo quente e iluminado,
inauguro a íris cansada de ser-cristal.
Ávida por fluidez,
em sede desértica de sentir.
Só Sentir.
– como há tanto nem um vislumbre há, !
– como condenado à solitária em banho de sol,
– como cego que experimenta a visão,
– como paraplégico voltando a deambular,
– como cético que descobre a fé.
Sentir…
Quase beirando a insanidade
– impossível, impensável, inenarrável.
Mirando um novo começo,
danço.
Só danço.
Eu sou a dança.
Nada mais há para ser ou fazer.
A Nova Era não exige compreensão,
não cobra roteiros, não lança prazos.
E não, definitivamente, não calcula seu alcance.
Ela se enfeita de todo o tempo que se pode chamar
“agora”,
nutre-se de detalhes, de vírgulas, de entrelinhas:
sombra das árvores,
arrepio dos ventos,
som dos pássaros,
gosto da chuva,
calor da pele,
respiração,
sussurros,
sorrisos,
olhares.
Repouso as pálpebras e, em longos goles,
tomo ciência.
Algo grandioso se aproxima, ganha terreno,
explora todos os limites, coloniza.
Tempestade anunciada.
Inevitável.
Garanto que uma lágrima nasceu.
(É prima dissonante da flor de Drummond,
que rompeu o asfalto.)
Não pude conter o medo.
Sopro de angústia no coração desgovernado
quase cessa o batimento,
sufoca a respiração,
emudece o brado retumbante
de qualquer peito-nação.
Eu quis gritar, !
Eu quis fugir, ! Ora, essa é a hora de.
Vá! Agora! Quer ir!? Vá!
…
Mas a alma não se moveu,
tampouco se move,
não se afasta um único milímetro-dúvida
da inebriante fonte geradora de todo
esse confuso amontoado de palavras.
Pois lá,
somente lá,
ela encontra
seu oásis de paz.

Já não sinto o coração livre
Já não sinto o coração livre
Contudo, mais leve ele se encontra
Preenchido de elementos etéreos:
Sim, sentimentos.
Pasmem, sentimentos.
Venham todos porque aqui há,
há Sentimentos!
Janelas e portas abertas:
Luz do sol entrando tímida
Mapeando frestas, cantos, quinas.
O frescor da manhã preenchendo tudo
Nesse coração-casa
Outrora fechado sem data de reabertura.
A propriedade foi invadida
Calmamente; Serenamente.
Brisa mansa, novos ares, outros ventos:
Invadida de beleza,
Colonizada de afeto.
Um cenário de aparência onírica:
Dois seres fantásticos se encontraram
Disseram sim um ao outro
Como para o nascimento da vida
no começo do mundo: a hora da estrela.
Disseram sim e, desde então,
tudo parece certo!
Perfeitamente construído.
Construindo-se.
A razão parece não concordar
Mas perde deliberadamente, pois
O ato é grandioso, é maior do que se pensa
Nem os atores-autores sabem o tamanho da cena
Apenas vivem a poesia
Obedecendo a comandos invisíveis
Sem ciência de roteiros
Lépidos, leves…
E perdidos no olhar um do outro.
Apaixonados?
Já não sinto o coração livre.

Quereres
Nem sei, só sei
que te quero.
Meu querer é morada,
é pousada pro teu cansaço,
é carinho pra tua pele quente,
é abraço pro teu corpo fatigado de prazer,
é proximidade que faz perder o ar,
perder a linha, o senso, o controle.
Perder-se de mim.
Me achar em ti:
No olhar de desejo e cumplicidade;
Na respiração, ora intensa, ora entrecortada;
No sorriso lascivo e insistente
sem força de seriedade;
No jeito incrível de se aproximar,
de se fazer presente.
– Sorrateiramente delicioso –
No nome não dito, mas
em perfeita consonância de compreensão.
Incrível como você chega
com teu querer manso, despretensioso…
Ensinando-me que viver é arriscar-se.
Ah, bem sei, viver é um risco!
Porém, mais arriscado é não viver.
Obrigada!
Obrigada por teu doce querer.

