embrumada de sono, obriguei-me
a dignificar minha existência de não-homem
e entreguei-me ao trabalho.
daí quando abri a boca para bocejar
tomei uma lufada de sol goela abaixo
o coletivo lotado, não consegui ao menos me segurar
ajeitei a postura, sequei a areia dos olhos
e despertei

a manhã

nem bem amanheci em teus olhos
e já catava torrões de nuvem para adoçar-lhe o café
assistia brotarem as sementes das horas
sem perceber que era em mim que germinavam
o tempo se multiplicando com as gotas de chuva
nossos passos correndo juntos até uma porta
toda uma galáxia escondida e recém-inaugurada
astros, estrelas, mundos e fundos a cantarolar
a música universal dos que sonham acordados
a sinfonia dos que têm a cabeça na lua
a melodia dos distraídos
nem bem amanheci em teus olhos
e era como se toda a vida coubesse naquela manhã
atrasos atravessados atestam
uma vida de emancipação do tempo
como o cosmos correndo o constante
tempo despreocupado das estrelas

poema curto sobre infinitudes

como se o tempo não existisse,
me perder na tua lírica lábia
ouvir tuas mais extensas mensagens de voz,
deixar teu timbre morar em meus ouvidos.
nos fins de tarde que nunca anoitecem,
sentir o constante arrepio
do ligeiro sorriso que não se desfaz
encontros extensos de desejos
beijos extensos de tesão
se não houvesse tempo, como
se chamaria esse intervalo de eternidade?