sempre em fuga

Meu olhar está sempre em fuga
A janela do automóvel escancarada
e as retinas me escapolem ansiosas.
Vou encontrá-las no topo de uma árvore;
Pulando nuvens, inventando-lhes formas;
No desenho dos raios de sol nas paredes;
Passeando nos azuis-cinzas nublados;
À espreita dos passarinhos paradinhos no fio;
Bailando com as flores e as folhas que caem;
Perdendo-se nas nuances coloridas do inverno;
Memorizando a paleta do céu de agosto.
Em desenfreada busca por lirismo,
meu olhar está sempre em fuga.

Prova de Vida

É preciso respirar bem fundo às vezes 
apenas para testar os pulmões;
Tomar um susto de vez em quando
para certificar-se de que há um coração;
Uma queda casual se faz necessária
para sentir os joelhos, as pernas, o chão;
Afogar-se ocasionalmente é fundamental
para perceber a importância do ar;
Com alguma regularidade, deve-se gritar
de desespero, de alegria, de fúria, de prazer
somente para testar as cordas vocais;
Uma vez por ano, no mínimo, é preciso
estar submerso em uma banheira de lágrimas
para perceber quão doloroso é o ato de [vi]ver.

O Convite

A minha palavra quer encostar na sua
Ela quer parir vocábulos, reproduzir-se
Colar um trem de letras uma após a outra
Enganchar como elos de uma corrente
Esticar, elongar, multiplicar o léxico
Polimerizar as sílabas, neologizar
Unir tudo com alguma goma de semântica
Para fazer sentido
Para fazer sentir-se
Então tocar a sua palavra distraída, lépida
Deitada em uma nuvem, estirada ao sol
Uma palavra de óculos escuros e chapéu
Com sardas nas maçãs e cheiro de jasmim
De vestido esvoaçante e descalça
E convidá-la para prosear

Nunca houve um dia

Nunca houve um dia
em que estrelas não povoassem o céu
mesmo nublado

Nunca houve um dia
desamanhecido ou despoentizado
mesmo de olhos fechados

Nunca houve um dia
em que o sol não aquecesse a Terra
mesmo com chuva

Nunca houve um dia
sem o canto dos pássaros de manhã
mesmo com ouvidos apressados

Nunca houve um dia
imune ao desabrochar de uma flor
mesmo se depois pisoteada

Nunca houve um dia
em que nossas palavras não flertassem
mesmo ausentes de nós

Vai passar

Vai passar o cortejo
Vai passar a procissão
O ano vai passar, o samba
Essa estação vai passar
Até o frio vai, a febre vai
A dor vai passar, doída, mas vai
Vai passar o aniversário
Vai passar o sete de setembro
O inverno vai passar
Vai passar o trem, o ônibus
Vai passar a recessão
Vai passar a eleição
O genocida vai passar
Vai passar a aflição
Até uma Copa vai passar
Pelo Mundo, ah vai
Vai passar o especial de Natal
Vai passar na TV
Coronavírus vai, já foi
A virada vai passar
Dez, nove, oito...
Sete ondinhas vão passar
Vai passar um ou outro
Vai passar a esquecer
Um amor vai passar
Mais dois ou três ou mais
Vai passar um vestido
Vai passar uma vida
Vai passar um diploma, dois
Um sorrisinho aqui e acolá
Enfim, eles passarão
Você e eu, passarinhos.