Eu já te contei
que minha árvore predileta é o flamboyant?
Contei que tenho um medo descabido
de abrir os olhos quando os fecho no banho
e me encontrar em outra dimensão?
Já comentei contigo que toda grama em que piso
tenho vontade de pisar descalça?
é como
uma forma de respeito e adoração, creio.
Já disse que sempre quis ser magra
para não ser infeliz?
Já disse que descobri - rindo de mim mesma -
que consigo ser infeliz de muitas outras formas?
Acho que nunca te disse:
às vezes tenho vontade de chorar
ao perceber um broto novo de planta.
Você poderia imaginar que de vez em quando
penso em largar tudo para estudar piano?
Ou essa:
se ouço um passarinho no meio do dia e percebo
que ainda não ouvira nenhum desde que acordei,
penso: "olha aí,
estavam até agora querendo falar comigo".
Pode imaginar que construo várias playlists musicais
e há dias que absolutamente nenhuma serve?
Seria muito óbvio dizer
que nem sempre sei encerrar um poema?
Diário da Invencionática
Olhos de sogra podem não ser tão doces.
Preciosidades
Preciso de excessões
Preciso de janelas que cantem
Preciso ignorar os guarda-chuvas
Preciso desobedecer os relógios
Preciso caminhar distraidamente
para chegar a algum lugar
Preciso escrever distraidamente
para salvar as entrelinhas
Preciso de estrelas nos olhos
e um certo jeito de heroína
Preciso de mel nos lábios nas mãos
Preciso do óbvio e do implícito
Preciso de rima sem ritmo sem rumo
Preciso não ser para talvez chegar a ser
Preciso ir à praia no frio
Preciso caminhar nas ciclovias
e talvez ser atropelada
Preciso de vinho rosé às quartas
Preciso observar o céu demoradamente
Preciso namorar o céu demoradamente
As estrelas piscando me coram a face
A Lua nua levanta a maré nos meus olhos
Preciso de uns versos, de fanatismo
Preciso do imprevisto, do imprevisível
Preciso do quem sabe e do apesar de
Preciso da urgência e do adiável
Preciso do impreciso e da exatidão
Preciso do ócio e da pressa de viver
Preciso sonhar acordada, preciso sonhar
Preciso de beijos e prosas intermináveis
Preciso de olhos que se demoram
Preciso de silêncio e de grito
Preciso de novos começos
Preciso de novos fins
Telúrica
a rua se enrola envergonhada
pensa ser meio boba quando sonha
que seus postes são árvores
e os fios soltos são cipós
que os lixos pelos cantos são flores
e o cheiro que exalam são perfumes
que os pombos são aves raras
e as buzinas seus cantos exóticos
que a fumaça dos escapamentos
é neblina matinal a anunciar o dia
que o esgoto a céu aberto é um curso de rio
e a enchente tromba d'água de cachoeira
que a chuva ao tocar sua superfície
vai lhe impregnar e fazer morada
e que a sua poeira úmida de piche
tem aquele cheiro de terra molhada
mapear as árvores
para não me perder de mim
poesia
é quando vem um frio na barriga
um nó na garganta se instala
os pés paralisam a marcha e
de repente
não mais tocam o chão
poesia
é quando os pelos arrepiam
o sorriso é a esperada obviedade
a pele apela por salvação
os olhos arregalam
a lágrima escorre
poesia
é quando o queixo cai
o tempo desacelera
a voz some
com vontade de gritar
poesia
é quando o corpo todo sente
e nada mais resta
a não ser recomeçar. do início
e brincar de não ter fim
O maior medo que senti na vida
Senti dormindo
Estava a sonhar com a guerra
Luar de Fronteira
Tu: Gosto do seu gosto pela desobediência celeste.
Eu: Poeiras de estrelas não obedecem padrões. Poeiras de estrelas podem estar pelos cantos, pelas quinas, ou mesmo brilhando estaticamente exibidas num raio de sol.
Tu: É isso que somos: poeira de estrelas?
Eu: Eu-você-todos.
Tu: Você rouba meus pensamentos.
Eu: Estou a fazer bolinhas de sabão com eles.
obrigada, poesia
por me deixar falar
por me deixar parir
por não me julgar
por não me deixar
por ser mulher
como eu
corpo indócil
meu cabelo preso meu cabelo curto
pele olhos lábios não maquiados
meu hábito de ser "muito séria"
a ausência de verniz nas unhas
minhas orelhas sem brincos
a minha roupa larga
meus modos brutos
não me deixam "com mais cara de homem"
cada lua nova me renova o útero
na esperança de ser berço do mundo
a adormecer línguas inúteis
que só tocam o rastro
de um corpo indócil
e desdomesticado