Leia-me

O verso do mundo está escrito em minha pele
Macia, estriada, tigrada, tigresa. Indomável
Meu corpo-mapa de segredos e feitiços
Miríades de possibilidades existenciais
Memórias ancestrais ancoradas no sempre

Vasta, como o vento que estremece a floresta
Úmida, como a terra fértil de escrevivências
Quente, como a luz derramada do crepúsculo

Escritos sob ou sobre minha pele:
É só fechar os olhos; tatear; e sentir o arrepio
Encarar as sombras e as constelações
Que me fazem poeira de estrelas
Filha do infinito, Mãe do tempo

Desafiador é não saber nem metade
Da vastidão que me habita

Ignore as profecias, invalide seus sentidos
e
Se achar uma saída, parta
Poupe-se de olhar para trás
Quem me quer ler, jamais encontra a última página

É um sonho – dizem

A minha pele na tua pele sempre quente
Meus arrepios encontrando teus pelos
Tua respiração ecoando em meus gemidos
Minhas coxas te enlaçando o quadril
Meus ouvidos abrigando teus sussurros
Meu olhar revirado na luz dos olhos teus
Tudo isso seguindo o mais perfeito bailar
Dos meus sonhos em teus planos

Constelário

As estrelas estão grávidas.
Olha pra'elas, olha.
Pela intensidade do brilho,
não há dúvidas,
nascerão menines.
Gente que goteja amores,
que carrega nas retinas
a inspiração das genitoras.
Pois estejam certos:
Esses aí de brilhos nos olhos
são nada menos
que o rebento das estrelas.

O cansaço das Palavras

"O pior é quando as coisas se enrijecem em palavras, ficam duras, machucam ao serem jogadas, jazem mortas."  - Bertolt Brecht
Talvez as palavras esperem de mim
Algum verso de dor onde eu me derrame
Em um papel imaginário que julguei assumir
Um papel amarelo-ocre surrado pelo tempo
Carimbado de lágrimas noturnas e solitárias
Lágrimas-nascentes que salgam o solo
Rios de planos inconclusos
Planos nunca gestados
Não-planos tortuosos e cansados
Planos que anseiam transcender os devaneios
Formam-se e reformam-se em perfeitas sentenças
Tão logo nascem são varridas
E nunca chegam a renascer visíveis no poema
Todas as noites dormem frustradas
O picadeiro, pois, onde dançaram e festejaram
Não passava de um palco de ilusões

Roda Viva

Tem dia que a gente
Não se sente.

E tudo que se sabe de si
Começa em lágrimas e
Não termina em poesia

Mas tem dia que a gente
Caminha
Rearranja tudo por dentro e
Emite pequenas projeções
Ensaia os pés para seguir
Perseguir nossos avessos

Tem dia que desafiar as leis
[químicas] é o nosso hobby
Nadar contra a corrente
Sair do meio menos concentrado
Para o mais concentrado
De afeto

E tudo que se sabe de si
Começa em poesia e
[tudo bem quando]
Termina em lágrimas

Gostou de algo?

Não, não quero nada
Por ora, nada me agrada
Não a ponto de me fazer levar
Estou dizendo não
Ao consumismo, à ditadura do ter
Não quero ter nada só para ser mais que nada
Quero apenas ser; ser de existir
Fixar existência neste terreno multicamadas

Um alívio a Terra não ser plana (nada como o óbvio)
Repara: terra plana superficializa a conversa
Agora fazem até sentido esses contemporâneos
Liquidando os aprofundamentos
Liquefazendo as relações e os afetos
Ora, ora, uma Terra plana lhes é bem conveniente
Ah, mas não!

Não vão nos tomar a terceira dimensão
Tirem as mãos da nossa profundidade
Ninguém levará nossos abismos
Tanto os de baixo quanto os de cima
Afinal, continuaremos a mergulhar
Seja nos 7 infernos de Dante
Seja nos 7 céus de Maomé

Ninguém nos impedirá de cair
Ininterruptamente nesta toca de coelho
Que é a existência
Ou o íntimo, ou o que quer que seja
A subjetividade individual particular
Single e solteirona de cada ser humano
Será fincada, camada por camada
Até o núcleo do sujeito
Com todos os seus predicativos
Os objetos diretos e, sobretudo, os indiretos
Também os advérbios e os adjetivos, bons ou maus
E ainda as locuções! porque urge ter voz

Aliás! esqueça-se o ter, urge: ser voz
Ser voz que ecoa, que afunda, que penetra
Timbre que arrepia o sexo do mundo
E fertiliza-o com liberdade
Sementes de uma Terra mais garrida e aguerrida
Sepultura do Ter; e berço do Ser

Ode imperfeita

Ah, esses teus cabelos 
Põem aquele frio na barriga
Sequência de loopings de montanha russa
Insana lucidez embriagada
Leva mãos, pés e pelos
Pelas sinuosidades labirínticas
Acarinhadas sutilezas hipnóticas
Enroscam o sentido de propriocepção
Infinitas mandalas caleidoscópicas
Transbordam mel dos olhos
Em
Uma
Espiral
Perpétua
De encantamento e vício e adoração
Desconcertantes crepitações abobalhadas
Ventam a maciez de um antigo desejo
De ser nuvem, distraída em suas curvas
Sassaricando semblantes de sonoras ondas
Arrepios entoados ao pé do ouvido
Ondas de um mar sem fundo, sem fim,
Quanto mais só, mais belo e único
Penteado ventado inédito, inaudito
E todo dia o mesmo
E todo dia o melhor
E todo dia em cachos
Enovelados
Fascinantes
Imperfeitos
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Poema produzido a partir de proposta do curso "Narrativas Femininas" com Ryane Leão.

Da maior importância

Eu esperei que sua impulsividade
[Tipicamente libriana] me arrebatasse
Esperei que suas doces palavras
Viessem bárbaras para cima de mim
Pra me lembrar que minha estupidez
Não me deixa ver que eu
não entendo nada
De signos, de amor, de versos
Meu bem, você tem que acreditar em mim.