Gostou de algo?

Não, não quero nada
Por ora, nada me agrada
Não a ponto de me fazer levar
Estou dizendo não
Ao consumismo, à ditadura do ter
Não quero ter nada só para ser mais que nada
Quero apenas ser; ser de existir
Fixar existência neste terreno multicamadas

Um alívio a Terra não ser plana (nada como o óbvio)
Repara: terra plana superficializa a conversa
Agora fazem até sentido esses contemporâneos
Liquidando os aprofundamentos
Liquefazendo as relações e os afetos
Ora, ora, uma Terra plana lhes é bem conveniente
Ah, mas não!

Não vão nos tomar a terceira dimensão
Tirem as mãos da nossa profundidade
Ninguém levará nossos abismos
Tanto os de baixo quanto os de cima
Afinal, continuaremos a mergulhar
Seja nos 7 infernos de Dante
Seja nos 7 céus de Maomé

Ninguém nos impedirá de cair
Ininterruptamente nesta toca de coelho
Que é a existência
Ou o íntimo, ou o que quer que seja
A subjetividade individual particular
Single e solteirona de cada ser humano
Será fincada, camada por camada
Até o núcleo do sujeito
Com todos os seus predicativos
Os objetos diretos e, sobretudo, os indiretos
Também os advérbios e os adjetivos, bons ou maus
E ainda as locuções! porque urge ter voz

Aliás! esqueça-se o ter, urge: ser voz
Ser voz que ecoa, que afunda, que penetra
Timbre que arrepia o sexo do mundo
E fertiliza-o com liberdade
Sementes de uma Terra mais garrida e aguerrida
Sepultura do Ter; e berço do Ser

Ode imperfeita

Ah, esses teus cabelos 
Põem aquele frio na barriga
Sequência de loopings de montanha russa
Insana lucidez embriagada
Leva mãos, pés e pelos
Pelas sinuosidades labirínticas
Acarinhadas sutilezas hipnóticas
Enroscam o sentido de propriocepção
Infinitas mandalas caleidoscópicas
Transbordam mel dos olhos
Em
Uma
Espiral
Perpétua
De encantamento e vício e adoração
Desconcertantes crepitações abobalhadas
Ventam a maciez de um antigo desejo
De ser nuvem, distraída em suas curvas
Sassaricando semblantes de sonoras ondas
Arrepios entoados ao pé do ouvido
Ondas de um mar sem fundo, sem fim,
Quanto mais só, mais belo e único
Penteado ventado inédito, inaudito
E todo dia o mesmo
E todo dia o melhor
E todo dia em cachos
Enovelados
Fascinantes
Imperfeitos
_______________________________
Poema produzido a partir de proposta do curso "Narrativas Femininas" com Ryane Leão.

Da maior importância

Eu esperei que sua impulsividade
[Tipicamente libriana] me arrebatasse
Esperei que suas doces palavras
Viessem bárbaras para cima de mim
Pra me lembrar que minha estupidez
Não me deixa ver que eu
não entendo nada
De signos, de amor, de versos
Meu bem, você tem que acreditar em mim.

Estou só e não resisto. Muito tenho pra falar.

Eu já te contei
que minha árvore predileta é o flamboyant?
Contei que tenho um medo descabido
de abrir os olhos quando os fecho no banho
e me encontrar em outra dimensão?
Já comentei contigo que toda grama em que piso
tenho vontade de pisar descalça?
é como
uma forma de respeito e adoração, creio.
Já disse que sempre quis ser magra
para não ser infeliz?
Já disse que descobri - rindo de mim mesma -
que consigo ser infeliz de muitas outras formas?
Acho que nunca te disse:
às vezes tenho vontade de chorar
ao perceber um broto novo de planta.
Você poderia imaginar que de vez em quando
penso em largar tudo para estudar piano?
Ou essa:
se ouço um passarinho no meio do dia e percebo
que ainda não ouvira nenhum desde que acordei,
penso: "olha aí,
estavam até agora querendo falar comigo".
Pode imaginar que construo várias playlists musicais
e há dias que absolutamente nenhuma serve?
Seria muito óbvio dizer
que nem sempre sei encerrar um poema?

Preciosidades

Preciso de excessões  
Preciso de janelas que cantem
Preciso ignorar os guarda-chuvas
Preciso desobedecer os relógios
Preciso caminhar distraidamente
para chegar a algum lugar
Preciso escrever distraidamente
para salvar as entrelinhas
Preciso de estrelas nos olhos
e um certo jeito de heroína
Preciso de mel nos lábios nas mãos
Preciso do óbvio e do implícito
Preciso de rima sem ritmo sem rumo
Preciso não ser para talvez chegar a ser
Preciso ir à praia no frio
Preciso caminhar nas ciclovias
e talvez ser atropelada
Preciso de vinho rosé às quartas
Preciso observar o céu demoradamente
Preciso namorar o céu demoradamente
As estrelas piscando me coram a face
A Lua nua levanta a maré nos meus olhos
Preciso de uns versos, de fanatismo
Preciso do imprevisto, do imprevisível
Preciso do quem sabe e do apesar de
Preciso da urgência e do adiável
Preciso do impreciso e da exatidão
Preciso do ócio e da pressa de viver
Preciso sonhar acordada, preciso sonhar
Preciso de beijos e prosas intermináveis
Preciso de olhos que se demoram
Preciso de silêncio e de grito
Preciso de novos começos
Preciso de novos fins

Telúrica

a rua se enrola envergonhada 
pensa ser meio boba quando sonha
que seus postes são árvores
e os fios soltos são cipós
que os lixos pelos cantos são flores
e o cheiro que exalam são perfumes
que os pombos são aves raras
e as buzinas seus cantos exóticos
que a fumaça dos escapamentos
é neblina matinal a anunciar o dia
que o esgoto a céu aberto é um curso de rio
e a enchente tromba d'água de cachoeira
que a chuva ao tocar sua superfície
vai lhe impregnar e fazer morada
e que a sua poeira úmida de piche
tem aquele cheiro de terra molhada
poesia 
é quando vem um frio na barriga
um nó na garganta se instala
os pés paralisam a marcha e
de repente
não mais tocam o chão
poesia
é quando os pelos arrepiam
o sorriso é a esperada obviedade
a pele apela por salvação
os olhos arregalam
a lágrima escorre
poesia
é quando o queixo cai
o tempo desacelera
a voz some
com vontade de gritar
poesia
é quando o corpo todo sente
e nada mais resta
a não ser recomeçar. do início
e brincar de não ter fim