Camaleoa Arco-íris

Eu me olho no espelho e me vejo colorida
Cor de vontade de preencher os pulmões de ar de chuva
Matizada pelo alívio de poder sorrir sem parecer deslocada
Em aquarelas de intenções de recomeços e desbravuras
Amanhecida de ideias azuis e coragens alaranjadas
Toda trabalhada numa paleta de tons quentes e agudos
Uma camaleoa que se vai colorindo de por-onde-passa
Respiro o verde cintilado de sol das cinco da tarde
E penso: é tão bom ser arco-íris de novo

Pontos de vista de linhas do tempo

Do ponto de vista
Da sua existência inventada
Só mais cinco minutinhos
É um piscar de olhos
No tempo de repouso do plantão
Pode até caber um sonho
Aguarde na linha por favor
É um carretel de espera
No tempo entre o alô e o sou eu
Cabe uma soma de incompreensões
Na volta a gente compra
Uma vida para esquecer o que queria
Preciso de um tempo no relacionamento
É o suficiente para acabar com tudo
Na contagem regressiva da virada
Cabem todas as promessas de ano novo
Os primeiros dez segundos do ano
São suficientes para esquecerem-se todas
Na caminhada da noiva ao altar
Passam-se todas as ideias de luta-ou-fuga
Em todo como cresceu rápido
Cabe a saudade da criança pequena
Em todo foi cedo demais
Cabe a saudade das pequenas memórias
Em dez minutos e já desço
Planeja-se uma vida ao lado dela
Só um instante
Pode ser um átimo
Ou uma eternidade

Eu vou ornamentar uma parede com a lista de ir embora

Eu vou lutar pelo meu direito ao riso
Enquanto sua expressão permanece taciturna
Preciso lembrar dos motivos de ir embora
Fazer uma lista que me ajude a não esquecer
Que você pode ser muito bonito
E ter um sorriso estonteante
E parecer que "luta" pelo relacionamento
Ao empenhar-se somente nas crises de término
Mas que nunca me incluiu de fato na sua vida
Enquanto eu buscava sua versão comprometida
Você viveu como se fosse solteiro

Você pode dizer que estou louca
E eu lhe direi que venero minha loucura
É minha forma mais genuína de ser eu
De ser boa em me ouvir os gritos de apelo
Calei tanto a voz protetora dentro de mim
Em nome de uma sensatez e de uma sobriedade
Inojantes
Tentam [tento] me caber onde não sou quista
Não consigo me admirar de onde me vejo

Estar ao lado de um grande vazio é como
Estar a um passo de uma queda de dez galáxias
Em um abismo espacial que suga tudo até o último "se"
Que tudo vá-se embora, mas que sobre meu riso
Onde eu poderia me aninhar e
Ininterruptamente
Ler a lista de motivos de ir-me embora de ti
E mergulhar em minha imensidão ignorada
Me orgulhar de me levar aonde quer que seja
Coisa que você nunca fez

Me sinto patética e com muita raiva de mim
Eu devia ter demonstrado um pouco mais de amor próprio
Oh, mas são quatro anos, muita história aqui
Sim, muita história de um "amor" autocentrado
Homens héteros não amam mulheres
Homens héteros SE amam
Apenas

E eu só mais uma mulher esperando reciprocidade
Vagando alheia, imprópria, i-na-pro-pri-a-da
Quase uma piada
"Coitada, ela criou expectativas"
Poupem-me vocês que vivem à deriva
Impossível não esperar nada de ninguém
Seria como morrer em vida
Mas eu estou viva, tem muita vida aqui dentro
Ela me transborda em brilho nos olhos e riso e safadeza

Eu também estou cansada, não pense
Mas o cansaço não vai me apagar, não de todo
Quisera num último suspiro viver contigo só o que de bom houvesse
Mas você hesitou um beijo frente a conhecidos seus
Não fez questão de me apresentar a seus familiares
Não me convidava para te acompanhar em suas "festividades"
Não havia sequer uma foto nossa nas suas redes sociais
Não conheci ninguém do seu círculo de convívio atual
E duvido que eles sequer soubessem da minha existência
Você viveu como se fosse solteiro

Enquanto escrevo isso, eu sangro muito
Ando anêmica de desgosto
Eu vou ornamentar uma parede com a lista de ir embora
E como a um altar eu voltarei a ela
Encostar-me nua nas palavras até que me arranquem a dor
De ter ido embora de mim
E com lágrimas e sangue e riso
Vou redesenhar o meu retorno

Meu corpo me escreveu uma carta

está tudo bem, eu estou aqui
sou sua casa, sua pele, seu cais
eu não vou embora
enquanto seu peito bater e tudo pulsar
eu estarei contigo te amando
venerando sua existência, seguindo
seus passos, seus mergulhos, seus vôos

nem sempre a gente se amou tanto assim
você me olhava com olhos turvos e hostis
olhos nublados e chuvosos, olhos
que não respiravam embaixo de tanta água
eu sofria muito em não ser bom pra você
e não ser bom pra você me apagava
eu era uma casa em demolição

um dia você pairou sobre meus escombros
e decidiu me tomar de volta, me salvar, eu
já quase sucumbindo à uma existência-casca
vi uma chance de renascer
você pôs as mãos em mim e me olhou nos olhos
me olhou no verso, onde só você sabe chegar
e me lançou: fica comigo?

ali eu desabei
eu caí em cima de você com tudo
com toda dor acumulada de uma vida
me quebrei inteiro, virei mil cacos
e poeira, muita poeira, tempestade de areia
virei nuvem turva
de tudo que você me negou e se negou
por não se orgulhar de me carregar contigo
nesse passado, eu chovia todos os dias
implorando
para você me tomar nos braços,
me tirar pra dançar, me acarinhar
quanto tempo eu esperei
para que nossos olhos brilhassem juntos

esse foi o meu renascimento
o meu marco zero existencial
existir com você é meu propósito no mundo
existir pra você me faz amanhecer
me ame como eu amo tudo na gente
nunca mais desista de mim
você é tudo o que eu tenho

Leia-me

O verso do mundo está escrito em minha pele
Macia, estriada, tigrada, tigresa. Indomável
Meu corpo-mapa de segredos e feitiços
Miríades de possibilidades existenciais
Memórias ancestrais ancoradas no sempre

Vasta, como o vento que estremece a floresta
Úmida, como a terra fértil de escrevivências
Quente, como a luz derramada do crepúsculo

Escritos sob ou sobre minha pele:
É só fechar os olhos; tatear; e sentir o arrepio
Encarar as sombras e as constelações
Que me fazem poeira de estrelas
Filha do infinito, Mãe do tempo

Desafiador é não saber nem metade
Da vastidão que me habita

Ignore as profecias, invalide seus sentidos
e
Se achar uma saída, parta
Poupe-se de olhar para trás
Quem me quer ler, jamais encontra a última página

É um sonho – dizem

A minha pele na tua pele sempre quente
Meus arrepios encontrando teus pelos
Tua respiração ecoando em meus gemidos
Minhas coxas te enlaçando o quadril
Meus ouvidos abrigando teus sussurros
Meu olhar revirado na luz dos olhos teus
Tudo isso seguindo o mais perfeito bailar
Dos meus sonhos em teus planos

Constelário

As estrelas estão grávidas.
Olha pra'elas, olha.
Pela intensidade do brilho,
não há dúvidas,
nascerão menines.
Gente que goteja amores,
que carrega nas retinas
a inspiração das genitoras.
Pois estejam certos:
Esses aí de brilhos nos olhos
são nada menos
que o rebento das estrelas.

O cansaço das Palavras

"O pior é quando as coisas se enrijecem em palavras, ficam duras, machucam ao serem jogadas, jazem mortas."  - Bertolt Brecht
Talvez as palavras esperem de mim
Algum verso de dor onde eu me derrame
Em um papel imaginário que julguei assumir
Um papel amarelo-ocre surrado pelo tempo
Carimbado de lágrimas noturnas e solitárias
Lágrimas-nascentes que salgam o solo
Rios de planos inconclusos
Planos nunca gestados
Não-planos tortuosos e cansados
Planos que anseiam transcender os devaneios
Formam-se e reformam-se em perfeitas sentenças
Tão logo nascem são varridas
E nunca chegam a renascer visíveis no poema
Todas as noites dormem frustradas
O picadeiro, pois, onde dançaram e festejaram
Não passava de um palco de ilusões

Roda Viva

Tem dia que a gente
Não se sente.

E tudo que se sabe de si
Começa em lágrimas e
Não termina em poesia

Mas tem dia que a gente
Caminha
Rearranja tudo por dentro e
Emite pequenas projeções
Ensaia os pés para seguir
Perseguir nossos avessos

Tem dia que desafiar as leis
[químicas] é o nosso hobby
Nadar contra a corrente
Sair do meio menos concentrado
Para o mais concentrado
De afeto

E tudo que se sabe de si
Começa em poesia e
[tudo bem quando]
Termina em lágrimas