É morte

metade de mim é silêncio
silêncio de morte
a outra metade é espera
e desesperança

os risos soltos presos
no cárcere da culpa
mar de lágrimas berrantes
e silêncios emudecedores
não há alegria que se sustente
nem ânimo que se sinta justo
nenhum orgulho poético

grãos finos de chuva
garoando do lado de dentro
nenhuma alma lavada
antes lama acumulada
no pântano da tristeza

incontáveis rainhas a se coroar
inúmeros planos sonhados
mas agora inês é morta
sônia é morta, cristina é morta
maria é morta, paulo é morto
valdeci é morto, carlos é morto
é morta, é morto, é morte
quatro mil quatrocentos mil

que as máscaras sirvam
ao menos para cobrir as faces
da vergonha

existe um abismo abissal
entre as promessas ouvidas
e o efeito ao ouvi-las
entre a realidade ansiada
e a realidade despida

então eu prefiro
escolher ser sozinha
a ser deixada só

Marginalizada

Deixem-me à margem
à margem dos dias reais:
corriqueira dureza diamantada
esculturas de sentimentos sem faces
expressões vocais e visuais sufocadas

gritos mudos

sorumbáticos

Rio estéril de sentidos mortos
varridos todos pela poeira
de barulhentas buzinas
de anúncios de televisão
de aparelhos smartphones
de praças de alimentação

Oh, por favor
dessa realidade
deixem-me à margem