metade de mim é silêncio
silêncio de morte
a outra metade é espera
e desesperança
os risos soltos presos
no cárcere da culpa
mar de lágrimas berrantes
e silêncios emudecedores
não há alegria que se sustente
nem ânimo que se sinta justo
nenhum orgulho poético
grãos finos de chuva
garoando do lado de dentro
nenhuma alma lavada
antes lama acumulada
no pântano da tristeza
incontáveis rainhas a se coroar
inúmeros planos sonhados
mas agora inês é morta
sônia é morta, cristina é morta
maria é morta, paulo é morto
valdeci é morto, carlos é morto
é morta, é morto, é morte
quatro mil quatrocentos mil
que as máscaras sirvam
ao menos para cobrir as faces
da vergonha
Dia internacional do #tbt
Uma pergunta de quinta:
Realmente lembramos de todos
que estão ao nosso lado?
Começou a tocar Jorge Vercillo
Pensei: vou deixar tocar de raiva
Deixa o tempo se arrastar sem fim
A gente aprende a andar sozinha desde muito cedo.
o mais errado
em nós
é parecer certo
existe um abismo abissal
entre as promessas ouvidas
e o efeito ao ouvi-las
entre a realidade ansiada
e a realidade despida
então eu prefiro
escolher ser sozinha
a ser deixada só
Repetição cinematográfica da solidão
Só existe em filme isso
Só existe em filme isso
Só existe em filme isso
Só existe em filme isso
Só existe em filme isso
Só existe em filme
Só existe em
Só existe
Só
Marginalizada
Deixem-me à margem
à margem dos dias reais:
corriqueira dureza diamantada
esculturas de sentimentos sem faces
expressões vocais e visuais sufocadas
gritos mudos
sorumbáticos
Rio estéril de sentidos mortos
varridos todos pela poeira
de barulhentas buzinas
de anúncios de televisão
de aparelhos smartphones
de praças de alimentação
Oh, por favor
dessa realidade
deixem-me à margem
o sol
essa luz toda
ilumina a vida
mas não a revela
enquanto isso
o povo queima
há plantas minhas
que desfolham-se
bem do jeitinho
que eu queria
desfolhar-me
com o céu
em degradê
no plano de fundo