e as lágrimas
que derramamos por aí?
conseguem irrigar um amor
que quer florir?
Des-vínculo
Há certas ações que falam por si
Débil vínculo em luta inútil de estabelecer-se
Guerreiro em frangalhos, farto, fraco e faminto
Gastando a rouquidão em gestos de indiferença e superficialidade
O olhar ingenuamente crédulo
Jura que não vê o óbvio
Desse terreno estéril
Não brota nem uma jura
Nem uma injúria de amor
É muito fácil amar pela manhã
É muito fácil amar pela manhã
Na bruma do sono insistente
Na areia dos olhos entreabertos
No corpo quase inerte
– salvo pelos sinais vitais –
Já amei assim sem amor
Digo-te logo, não há poesia nesse poema
só verdades ressecadas nos cantos dos olhos
É muito fácil amar pela manhã:
A cama, por exemplo, tem todo meu amor
A manta que me aquece e acolhe
Minhas plantas de folhas viçosas
Minha janela emoldurando os ventos e os sóis
Meu céu azul multitom – cores de horas que passam
Minha cortina de renda alva, onírica e esvoaçante
Meus livros, poucos, mas garimpados um a um
Meu amor preenche esse cenário
Todo dia, toda noite, quando estou
Todo dia, todo tempo, ou quando não estou
Entenda-me, acordo e estou em meu paraíso
Então de manhã não sei se te amo porque te amo
ou só porque é muito fácil amar pela manhã