Banho de Sol

Quero
ter cheiro de flor
e fotossintetizar o que preciso
para me saber viva
Quero
elaborar a existência no silêncio
no soprar dos ventos gélidos
que se adensam na epiderme
no carinho morno da estrela amarela
desvendando o espraiamento da íris
Quero
ser confundida com as plantas

20 de julho

Qual nome você chama
Quando está delirando de febre
Qual nome você chama
Quando o medo te escala a espinha
Qual nome você chama
Ao precisar esconder um corpo
Qual nome você chama
Quando sua chama está se apagando
Qual nome você chama
Quando o choro é de soluçar
Qual nome você chama
Para dividir seu doce predileto
Qual nome você chama
Para a volta ao mundo num balão
Qual nome você chama
Para gargalhar das piores piadas
Qual nome você chama
Sabendo que vai beber até cair
Qual nome você chama
Para o seu plano mais estapafúrdio
Qual nome você chama
Quando precisa só pensar em um nome

Ato falho

Falo de um ato falho
verdade secreta soprada
na orelha da memória
In-consciente atuante:
desejo reprimido
Falo da falha atual
atuação e rara ação
pouco ato, muita fala
Qual raiz geratriz
de um ato falho, falo
de um ato em falha
O erro.
O erro?
Um passo em falso
será falho?
Falho em investigar
onde está o tropeço
tão limpo e nítido
Equívoco.
Sim.
Mas de quem?
"gostosa", sério?
toda a sua vastidão vocabular
não encontra outro adjetivo
para exaltar uma mulher?
sua língua é rasa e estéril
programada para perpetuar
o eco machista que nada enxerga
além de pedaços de carne-fêmea

estou cansada
dessa escassez de brilho no olhar
estou cansada
dessa escassez de poesia

Passarinhos

Todas as manhãs eles vêm cantar para mim
Parece um privilégio estranho. Inacreditável, eu sei
mas é verdade. É para mim que cantam
Todas as manhãs
Em canções tecem as primeiras notas do meu dia
Sopram e dançam os presságios mais aquarelados
povoados das mais gentis nuances de um dia memorável
Um espetáculo particular só para me desejar bonjour
Sempre assíduos. Nunca faltam, nunca
Certos dias meus ouvidos não lhes dão plateia
A intranquilidade me embota e me azulece
Perco-me em sinuosos porões mentais
Veja só, enredos tão atraentes quanto inúteis
Rolos de frases emaranhadas em preocupações
Um labirinto de matéria prima de coisa nenhuma
De lá só saio quando percebo que perdi
Perdi a sinfonia matinal bailando só para mim
Meu termômetro de serenidade
Todas as manhãs