O silêncio entre nomes e sentimentos

Todas as palavras ditas e não ditas
estão presentes entre nós
disponíveis como numa imensa vitrine:
Nomes próprios, apelidos, vocativos,
sentimentos dos mais variados,
grandes, pequenos, médios, fortes, fracos.
Todos lá esperando cumprirem suas funções.
Funções puramente linguísticas.

Mas nós vamos além.
Nossa comunicação (posso dizer?) é transcendental.
Está no silêncio,
nos já conhecidos detalhes,
nas mãos que se acariciam e tão facilmente se entrelaçam,
nos sorrisos apaixonados que o brilho nos olhos já entrega,
na tácita certeza das potencialidades sentimentais.

A comunicação nasceu antes das palavras
e nesse aspecto somos conservadores.
Num mundo onde a semântica do vasto léxico
pode ser uma prisão,
nossa liberdade é incalculável.
Que sensação incrível!
Nunca havia experimentado ser livre dessa forma.
Liberdade através do silêncio.
Do silêncio mais repleto de significado que pode existir.

Ilustração de Alba Sáenz/ 2019 – @ilustralba

Oásis de Paz

Acostumada a um sentir morno
– sem arrepios, sem frisson, sem entrega –
empedrado, engessado, enferrujado.
De coração a-pa-ga–d—o…
Tropeço. (leia de novo, pois falo do verbo)
E, trôpega, levanto-me: vacilante,
à guisa de rebento parido.

Em um mundo quente e iluminado,
inauguro a íris cansada de ser-cristal.
Ávida por fluidez,
em sede desértica de sentir.

Só Sentir.

– como há tanto nem um vislumbre há, !
– como condenado à solitária em banho de sol,
– como cego que experimenta a visão,
– como paraplégico voltando a deambular,
– como cético que descobre a fé.

Sentir…
Quase beirando a insanidade
– impossível, impensável, inenarrável.

Mirando um novo começo,
danço.
Só danço.
Eu sou a dança.

Nada mais há para ser ou fazer.
A Nova Era não exige compreensão,
não cobra roteiros, não lança prazos.
E não, definitivamente, não calcula seu alcance.
Ela se enfeita de todo o tempo que se pode chamar
“agora”,
nutre-se de detalhes, de vírgulas, de entrelinhas:
sombra das árvores,
arrepio dos ventos,
som dos pássaros,
gosto da chuva,
calor da pele,
respiração,
sussurros,
sorrisos,
olhares.

Repouso as pálpebras e, em longos goles,
tomo ciência.
Algo grandioso se aproxima, ganha terreno,
explora todos os limites, coloniza.
Tempestade anunciada.
Inevitável.
Garanto que uma lágrima nasceu.
(É prima dissonante da flor de Drummond,
que rompeu o asfalto.)
Não pude conter o medo.
Sopro de angústia no coração desgovernado
quase cessa o batimento,
sufoca a respiração,
emudece o brado retumbante
de qualquer peito-nação.
Eu quis gritar, !
Eu quis fugir, ! Ora, essa é a hora de.
Vá! Agora! Quer ir!? Vá!


Mas a alma não se moveu,
tampouco se move,
não se afasta um único milímetro-dúvida
da inebriante fonte geradora de todo
esse confuso amontoado de palavras.

Pois lá,
somente lá,
ela encontra
seu oásis de paz.

Dreams of home – LSAuth 2016 – Guache sobre tecido

Já não sinto o coração livre

Já não sinto o coração livre
Contudo, mais leve ele se encontra
Preenchido de elementos etéreos:
Sim, sentimentos.
Pasmem, sentimentos.
Venham todos porque aqui há,
há Sentimentos!

Janelas e portas abertas:
Luz do sol entrando tímida
Mapeando frestas, cantos, quinas.
O frescor da manhã preenchendo tudo
Nesse coração-casa
Outrora fechado sem data de reabertura.

A propriedade foi invadida
Calmamente; Serenamente.
Brisa mansa, novos ares, outros ventos:
Invadida de beleza,
Colonizada de afeto.

Um cenário de aparência onírica:
Dois seres fantásticos se encontraram
Disseram sim um ao outro
Como para o nascimento da vida
no começo do mundo: a hora da estrela.
Disseram sim e, desde então,
tudo parece certo!
Perfeitamente construído.
Construindo-se.

A razão parece não concordar
Mas perde deliberadamente, pois
O ato é grandioso, é maior do que se pensa
Nem os atores-autores sabem o tamanho da cena
Apenas vivem a poesia
Obedecendo a comandos invisíveis
Sem ciência de roteiros
Lépidos, leves…
E perdidos no olhar um do outro.

Apaixonados?
Já não sinto o coração livre.

Alba Sáenz – Madrid 2018 – @ilustralba

Quereres

Nem sei, só sei
que te quero.

Meu querer é morada,
é pousada pro teu cansaço,
é carinho pra tua pele quente,
é abraço pro teu corpo fatigado de prazer,
é proximidade que faz perder o ar,
perder a linha, o senso, o controle.
Perder-se de mim.

Me achar em ti:
No olhar de desejo e cumplicidade;
Na respiração, ora intensa, ora entrecortada;
No sorriso lascivo e insistente
sem força de seriedade;
No jeito incrível de se aproximar,
de se fazer presente.
– Sorrateiramente delicioso –
No nome não dito, mas
em perfeita consonância de compreensão.

Incrível como você chega
com teu querer manso, despretensioso…
Ensinando-me que viver é arriscar-se.
Ah, bem sei, viver é um risco!
Porém, mais arriscado é não viver.
Obrigada!
Obrigada por teu doce querer.

Alba Sáenz – Madrid 2018 – @ilustralba

Cronicidades

Inexiste o presente.

Enquanto substância densa,
bloco de tempo, tempo em bloco.
O presente é limbo, linha, portal.

O futuro-nube: vasto, alvo, profícuo!
deliberadamente caminha nas horas
e é pó.
O passado-poeira: estéril, imutável, débil…
varre vacilante a cinza cronológica.
O presente-traço: tênue, fugaz, implacável!
é a dobra, a quina, a curva,

Espaço-instante que não se estabelece.
Só passa e é memória.

A Persistência da Memória – Salvador Dalí – 1931

Só uma dança

A gente no quintal do mundo
Sentindo a brisa das eras
No rosto, no cabelo, na pele.
Tudo em volta gira.
É uma dança, uma dança idílica.
A gente zonzo de tanto se amar
enquanto o mundo só faz rodar.
Só quero dançar e dançar
e dançar com você.

LSAuth 2019
BlueMoonRiver ©️2019 LSAuth. Acrílico sobre tecido.

Retalho de silêncio

Sim, naturalmente as palavras são nossas ferramentas de sobrevivência, afinal, como colocar nossos desejos sem a linguagem? Isso, claro, em se falando da linguagem verbal, que é a principal e rege a comunicação.

Ah… mas existe o silêncio: um grande imperativo nas relações que é quase como o ar, como a ideia de Deus, onipresente, onde tudo se apoia. As palavras são o burburinho imaturo que dança no espesso tecido do silêncio. Espesso sim, pois está longe de ser somente a ausência de som. Antes, é o berço de toda nota musical que ecoa, seja em prosa ou em verso.

Pena não sabermos lidar com sua múltipla significância e, como bobos, tentarmos evitá-lo, não acreditando em seu poder. Ora, o silêncio é anterior à linguagem, é eterno, sempre existiu, sempre existirá. As palavras são como as almas errantes que vagueiam no universo, têm começo, meio e fim.

E fim.

Doce Limite

Fala comigo só com poesia…
Esquece o vil significado das palavras,
embaralha a semântica do léxico,
preenche todos os sentidos com o lírico.
As palavras:
Faz elas bailarem para mim, só pra mim.
Põe elas na ponta da língua, do lápis, dos dedos.

Sopra teu encanto ao pé dos meus ouvidos,
me olha com esses olhos de incredulidade;
Bagunça meu cabelo e diz que estou linda,
linda, linda, linda…
Abraça esse corpo que te quer.
Que te quer bem, que te quer logo.
Aquele abraço-oásis.
Forte, encaixado, na medida do desejo.
E só, só nosso.

Vem, me deixa encabulada com o silêncio,
diz que viu o horizonte em meus olhos.
Claro que eu vi!
Eu vi o brilho transbordando nos seus
enquanto fitava os meus.

Me tira do prumo,
Me faz extravasar nessa escrita errática
qual criança experimentando as pernas,
atropelada pela vontade de você.

É muito coração pra dar.

Me leva nas suas palavras,
Nas suas cartas,
Na sua estação de trem,
Na viagem pra qualquer lugar,
Na fotografia instantânea da memória:
cortina estrelada, lua crescente,
palmeiras em novos ângulos,
areia gelada, som de mar à noite,
brisa noturna, beijos quentes,
Me leva.

Me leva pra outro tempo,
Outro século, outra época…
Só me tire de onde não há você,
Onde a ideia insiste no papel de projeção
Me mostra a tua concretude –
– ainda que efêmera.
O que deseja?
Só uns minutos meus? Te dou.
Uma hora minha? Te dou.
Um dia inteiro meu? Te dou.
Uma vida? Te dou.
Ainda deseja? Te dou.

Mas não esquece,
Fala comigo só com poesia.

Precipitação

Incisuras luzidias invadem um céu
de homogênea inércia impregnado.
Fração temporal sus-pen-sa
no exato espaço-instante prévio.
Mistério prestes a desabar
Imerso em surda audição
Clama o cortante grito celeste
Enquanto a íris vitrificada
Segue hipnotizada pelo ato:
Arte em tempo real
Irreal
Surreal
Fantasia tresloucada,
Ansiada histeria das nuvens
Desfazendo-se;
Purificando-se;
Liquidificando-se…
Coloniza todas as frestas
– Insistentes feridas abertas –
Avassaladora ânsia no propósito
de inaugurar recomeços.

Precipita-te.

Não me chama pelo nome

Quero a poesia que não.
A música, a sintonia.
Há música? Há sintonia?
Notas ignotas
Vazias de informação e barganha

Onde o colorido do outono
Perdido onde?
Grama fofa de um parque nunca visitado
Pés gélidos de orvalho
Descalços?
Janela descortinada
Quadro sem moldura
Tarde turquesa, trivialidades, amenidades
Moldes?
Brisa sem cheiro
Vento sem vendaval
Descabelado?

Suspiro suprimido, suspenso
Contido, travado
No ar

Lágrima que não nasce
Abortada
Ectópica
Imparida, infértil, indesejada, imóvel
A es-pe-rar
Do verbo mesmo
Não do substantivo.
Sedenta de substância
Que súbito faça quedar
Em nossa prosa infinita
Nas marcas e nos sorrisos
Nas mãos que não se entrelaçam
No despedir-se sem olhar para trás
Na ausência
E
Nos braços daquele
que não me chama pelo nome.