"gostosa", sério?
toda a sua vastidão vocabular
não encontra outro adjetivo
para exaltar uma mulher?
sua língua é rasa e estéril
programada para perpetuar
o eco machista que nada enxerga
além de pedaços de carne-fêmea

estou cansada
dessa escassez de brilho no olhar
estou cansada
dessa escassez de poesia
Ai,
que interjeição doída
tão coerente com esse aperto
que me assalta as batidas do peito
desdobrando-se em uma disrritmia
toda vez que vens visitar
a passos leves e encantadores
o fértil terreno de meu pensar

junho de 2020

Com fins

Sei que vai acabar,
mas, fica comigo?
Só mais um pouco.

Só até eu me acostumar
que não tem futuro,
que já passou da hora derradeira.
Senta aqui, fica mais.
Só mais um pouco.

A vida pode ser isso aí
que está na nossa frente agora.
Sem promessas.
Tudo em tempo real:
Cada confim surgindo e se moldando
à nossa moda nada usual.

Só fica mais um pouco,
me dá mais um beijo.
Não sei se consigo me desfazer
dos teus lábios assim tão fácil.

Sua

O pronome é possessivo
E ainda assim é delicioso de ouvir:
Minha gostosa, minha putinha,
minha cachorra, minha.
O sangue sobe à face, fugaz.
Mas não se engane.
Não é só isso que me tira do prumo.
Experimenta meu amor.

Lego de léxico

Brinco com as palavras num lego de léxico
Mas prefiro aquelas que se aprumam em versos.
Essas são de se brincar, mas não só.
Quando choro elas também vêm.
Direis: são para consolar?
Respondo: não. São tempestades, raios, trovões!
Verdades indecentes, insanas, que,
logo depois de trovejar, desfazem-se:
em silêncio, olhos fechados e serenidade.
Me apronto para brincar outra vez.

Poesia disforme

Desconheço ainda uma forma
Um molde para nosso querer-bem.
O indefinido, ou melhor,
Um indefinido (artigo mais coerente)
É mais íntimo dos nossos rumos
que qualquer outro verbete dicionaresco
imposto na cartilha social.

Este poema que me perdoe,
preciso mudar de assunto.
Uma palavra veio alada para me levar.
Furtou-me a poesia difusa, sem contornos.
Não me deu muito em troca, pois.
Eis o que deixou:

Íntimo. Intimidade. Quero. Ou quero-te.
Será que tu é (és) o sujeito?
A necessidade não sustenta existência,
Mas a vontade, ah, essa é intensa.
E digo mais,
perigosamente intensa.

Escrever oprime

Escrever é foda!
A palavra é traiçoeira:
Por maior que seja o esforço de tradução,
o que sai em verbetes ganha outro formato.
A emoção traveste-se no que foi escrito.
Já não é aquilo que nasceu na abstração.
O concreto rearranjo do léxico engessa
o significado prévio e o diminui,
mas tanto que dá pena.
A palavra, tão abusada, rouba o lugar da ideia,
tão subjetivamente lírica.
Terrível necessidade de aprisionar sentimentos em linguagem verbal.
O mundo das ideias é vastidão
Não cabe nas fronteiras do real.

Justiça Enzimática

Vontade de comer o mundo,
afogar num mar de suco ácido
toda amargura que vagueia sombria e pegajosa
em exaustas retinas de vívida opressão.
Engolir tristezas milenares,
ruminar polímeros de dor e convertê-los
em meros monômeros de esquecimento.
Catabolizar as fibras hipertrofiadas da iniquidade.

Justiça Enzimática.
Aprisionar no ventre toda fala torta que ignora o direito de outras vozes.
Aos poucos, bem aos poucos,
(a mudança exige urgência,
contudo mudar requer paciência)
digerir em silêncio os excessos.
Os excessos de toxicidade das espécies reativas.

Quando à sua forma mais primitiva
o tudo do mundo estiver reduzido,
a ressignificação das ruínas sociais
dar-se-á implacavelmente
como riso desenfreado, irrestrito, revolucionário.

A via de eliminação virá aos que a risada da justiça parecer macabra.
Não haverá espaço para os espaçosos.
Serão eles pesados, medidos
e considerados insuficientes
ao organismo da nova era.
Ignorada a alternância diária imposta,
os injusticeiros serão naturalmente expurgados. Quase por conta própria.
O ambiente será hostil àqueles que outrora hostilizaram seus semelhantes.

O novo SER homeostático será dono do mundo.
Do ser-tão ao ser-vir:
Entre substantivos e verbos equânimes,
nada escapará do compasso peristáltico do porvir.

“Liberdade Guiando o Povo” – Eugène Delacroix

Sinto muito.

Apaixonados não é a palavra.
Talvez ainda. Talvez nunca.
Passeiam almas num trecho de vida.

(Quer-se algo?)(Há algo a se querer?)
(Se é que se quer) O que se quer não se diz:
Nomear pode petrificar, encarcerar na palavra,
esterilizar.
O cerebelo à espreita para tornar tudo
maquinalmente vivível.
Dar forma pode calar para sempre o que
podia ter sido.
Opressivo é a palavra?

O carcereiro canta como sereia:
Carcereia, Carsereia.
Um passo pro cárcere, um passo pro fim.

Passam pássaros.
Seus cantos-bolhas rompem-se em música
num auxílio de garganta seca
aos pensamentos que não aprenderam a silenciar.

Ah, confesso, acuso, delato:
Há um grito contido aqui!
aquietado pela sensatez tão matrona, tão
cúmplice do ego e da maturidade.
E está errada? não está.
O grito é pueril, nada sabe do difícil
ofício viver.
Melhor que brinque de ser só aqui dentro.
Lá fora seria inconvenientemente emocionado.

Mas fica por aqui, não deixa tua casa,
meu filho-grito:
Pro peito não achar que é Só
só uma caixa de bulhas.
Pra saber que ainda tem pulso.
Deixa teu ensaio arrítmico
no gatilho do potencial de ação.

Só pra eu não pensar que morri.
Se eu chorasse seria mais fácil?
Sinto falta de chorar.
Ah, sinto muito.

Desviver

Eu digo não
Eu digo sim
Digo ou desdigo

Não é bem assim
Estou certa disso
Claro como água
Água turva

Não sei, espera
Espera um pouco
Com certeza
Estou em dúvida

Confusamente
Certamente
Vivo ou desvivo

(2016)