O cansaço das Palavras

"O pior é quando as coisas se enrijecem em palavras, ficam duras, machucam ao serem jogadas, jazem mortas."  - Bertolt Brecht
Talvez as palavras esperem de mim
Algum verso de dor onde eu me derrame
Em um papel imaginário que julguei assumir
Um papel amarelo-ocre surrado pelo tempo
Carimbado de lágrimas noturnas e solitárias
Lágrimas-nascentes que salgam o solo
Rios de planos inconclusos
Planos nunca gestados
Não-planos tortuosos e cansados
Planos que anseiam transcender os devaneios
Formam-se e reformam-se em perfeitas sentenças
Tão logo nascem são varridas
E nunca chegam a renascer visíveis no poema
Todas as noites dormem frustradas
O picadeiro, pois, onde dançaram e festejaram
Não passava de um palco de ilusões

Des-vínculo

Há certas ações que falam por si
Débil vínculo em luta inútil de estabelecer-se
Guerreiro em frangalhos, farto, fraco e faminto
Gastando a rouquidão em gestos de indiferença e superficialidade
O olhar ingenuamente crédulo
Jura que não vê o óbvio
Desse terreno estéril
Não brota nem uma jura
Nem uma injúria de amor

Viaja comigo?

Quero viajar contigo
Por entre estradas e estantes
De mãos dadas a pé à padaria
De ônibus espacial até outros planetas
Do teu lado, eu iria.

Quero viajar contigo
Abrir florestas ou janelas
Mochila pesada cheia de tudo-um-pouco
A mala de intimidades vai se enchendo sem pesar
Do teu lado, eu queria.

Quero viajar contigo
Conhecer outros cantos despreocupada
Cantar para teus ouvidos gentis
Todo agora será um momento nosso
Aqui, ali, onde quer que seja a “nossa casa”
Do teu lado, eu todo dia.

Quero viajar contigo
Sinto falta de cada lugar que ainda não fomos
Mesmo no alto de uma montanha
Mesmo no fundo do mar, da cachoeira, ou do poço
Poder voltar para o teu abraço
Do teu lado, eu me abrigaria.

Quero viajar contigo
Sem pensar no destino
Vez ou outra cometer um desatino
Sair sem contar pra ninguém, vamos?
Fingir que sumimos pelo tempo eterno
de um fim de semana ou de uma vida
Do teu lado, eu fugiria.

Hoje

Por um dia o sol de verão foi passear
Deu lugar à tua luz e foi pra outro céu.
No encanto de um firmamento nublado
O frescor e a brisa, teu dia, vieram coroar.

Será nublado o retrato de tua alma
Ou só a consciência prévia do porvir?
Ah, a inconstância dos dias não paridos
Inútil ansiedade que só faz confundir…

Conheço que é de teu agrado este céu.
Desfruta a beleza cantada pelas aves
Prenúncio de um dia de poesia sem véu!

Vive os momentos correntes e doces…
Só não esquece que o amanhã é gerado
No ventre despreocupado do hoje.

À mente

Deixa eu te escutar
Mas fala devagar
Tudo que lhe habita
É meu também.

Sua ânsia é gritar [eu sinto]
Mas espera o trem passar
Visita a paz do silêncio
Em lucidez, medita.

Pensa uma a uma
Toda ideia é singular
Dissolve a confusão
E descobre o deleite.