Passarinhos

Todas as manhãs eles vêm cantar para mim
Parece um privilégio estranho. Inacreditável, eu sei
mas é verdade. É para mim que cantam
Todas as manhãs
Em canções tecem as primeiras notas do meu dia
Sopram e dançam os presságios mais aquarelados
povoados das mais gentis nuances de um dia memorável
Um espetáculo particular só para me desejar bonjour
Sempre assíduos. Nunca faltam, nunca
Certos dias meus ouvidos não lhes dão plateia
A intranquilidade me embota e me azulece
Perco-me em sinuosos porões mentais
Veja só, enredos tão atraentes quanto inúteis
Rolos de frases emaranhadas em preocupações
Um labirinto de matéria prima de coisa nenhuma
De lá só saio quando percebo que perdi
Perdi a sinfonia matinal bailando só para mim
Meu termômetro de serenidade
Todas as manhãs

O raiar de um dia útil – em 5 atos

Ato 1: O despertar
cinco e cinquenta e três despertei e esperei
O despertador só às seis, faltam sete pestanas
Fecho os olhos, está escuro, é inverno ou-tono
mas não há jeito, daqui pra frente só clareia
Levanto-me. A cama eu deixo bem arrumada
para o nosso encontro de logo mais à noite
Ato 2: O devaneio
calei todos os sonhos, o silêncio é todo meu
nem a minha própria voz eu quero ouvir
ela já fala muito na terra dos miolos
miolo de pão, miolo mole, miolo de flor
já está ela a me interromper o raciocínio
dá cá o fio da meada que borda esse poema
Ato 3: O banho
"o potássio é um íon com atividade osmótica"
Essa é a última frase do último sonho que tive
Talvez o sódio seja mais bem quisto a este papel
Fim do banho; saudosa me despeço da água quente
O dia já sussurra pequenos ruídos. super-rádio-tupi
O ar se adensa com fortes odores de colônias baratas
E meus olhos já não abrigam oníricos grãos de areia
Ato 4: O vestir
dentes escovados, antitranspirante nas axilas
cabelos para a esquerda - um penteado político
consciência na cabeça até o último fio de cabelo
calça larga, blusa se for de passar passo fora
ou visto sem passar. aposto que lanço moda
adornos? estou quase a doar os que ainda tenho
ficar bonita dá preguiça e quase sempre não funciona
Ato 5: O sair
seis e trinta e nove, tênis nos pés, mochila nas costas
bom dia vó, bom dia vô, tchau mãe bom trabalho
Desço a rua pensando: quando o relógio marcar
seis e trinta e nove pela segunda vez hoje
estarei novamente em casa. conto cada minuto
Seis e quarenta e nove chego ao ponto de ônibus
E os pássaros? não posso deixar de ouvir os pássaros

Fim

É muito fácil amar pela manhã

É muito fácil amar pela manhã
Na bruma do sono insistente
Na areia dos olhos entreabertos
No corpo quase inerte
– salvo pelos sinais vitais –

Já amei assim sem amor
Digo-te logo, não há poesia nesse poema
só verdades ressecadas nos cantos dos olhos

É muito fácil amar pela manhã:
A cama, por exemplo, tem todo meu amor
A manta que me aquece e acolhe
Minhas plantas de folhas viçosas
Minha janela emoldurando os ventos e os sóis
Meu céu azul multitom – cores de horas que passam
Minha cortina de renda alva, onírica e esvoaçante
Meus livros, poucos, mas garimpados um a um

Meu amor preenche esse cenário
Todo dia, toda noite, quando estou
Todo dia, todo tempo, ou quando não estou
Entenda-me, acordo e estou em meu paraíso
Então de manhã não sei se te amo porque te amo
ou só porque é muito fácil amar pela manhã