Ato 1: O despertar
cinco e cinquenta e três despertei e esperei
O despertador só às seis, faltam sete pestanas
Fecho os olhos, está escuro, é inverno ou-tono
mas não há jeito, daqui pra frente só clareia
Levanto-me. A cama eu deixo bem arrumada
para o nosso encontro de logo mais à noite
Ato 2: O devaneio
calei todos os sonhos, o silêncio é todo meu
nem a minha própria voz eu quero ouvir
ela já fala muito na terra dos miolos
miolo de pão, miolo mole, miolo de flor
já está ela a me interromper o raciocínio
dá cá o fio da meada que borda esse poema
Ato 3: O banho
"o potássio é um íon com atividade osmótica"
Essa é a última frase do último sonho que tive
Talvez o sódio seja mais bem quisto a este papel
Fim do banho; saudosa me despeço da água quente
O dia já sussurra pequenos ruídos. super-rádio-tupi
O ar se adensa com fortes odores de colônias baratas
E meus olhos já não abrigam oníricos grãos de areia
Ato 4: O vestir
dentes escovados, antitranspirante nas axilas
cabelos para a esquerda - um penteado político
consciência na cabeça até o último fio de cabelo
calça larga, blusa se for de passar passo fora
ou visto sem passar. aposto que lanço moda
adornos? estou quase a doar os que ainda tenho
ficar bonita dá preguiça e quase sempre não funciona
Ato 5: O sair
seis e trinta e nove, tênis nos pés, mochila nas costas
bom dia vó, bom dia vô, tchau mãe bom trabalho
Desço a rua pensando: quando o relógio marcar
seis e trinta e nove pela segunda vez hoje
estarei novamente em casa. conto cada minuto
Seis e quarenta e nove chego ao ponto de ônibus
E os pássaros? não posso deixar de ouvir os pássaros
Fim