Madrugada súbita
Acordo banhada de luar
Teus sentidos idílicos
sobre meus quadris
Meu ventre iluminado
pela poética lunar
Leve como um beijo
- tua lunaridade
Leve-me como um beijo
me leva a sonhar
20 de julho
Qual nome você chama
Quando está delirando de febre
Qual nome você chama
Quando o medo te escala a espinha
Qual nome você chama
Ao precisar esconder um corpo
Qual nome você chama
Quando sua chama está se apagando
Qual nome você chama
Quando o choro é de soluçar
Qual nome você chama
Para dividir seu doce predileto
Qual nome você chama
Para a volta ao mundo num balão
Qual nome você chama
Para gargalhar das piores piadas
Qual nome você chama
Sabendo que vai beber até cair
Qual nome você chama
Para o seu plano mais estapafúrdio
Qual nome você chama
Quando precisa só pensar em um nome
Sol Enluarado
Ai que eu vi, vi!
Vi o Sol se indo, o danado
Brincando de ser lua
Lua vermelha tipo a de Bethânia
Toda sertaneja aprumada ela-ele
Eu vi, ai, um Sol Lunar!
De um tom terroso-celeste
Sei nem dizer o quê
De é tanta mistura
Até confunde as frases
E as fases
da lua, que agora são cinco:
nova, crescente, cheia, minguante
E solar!
Morrer pra viver
A cabeça fervilha cotidianices
Rola a roleta dos pensamentos
Quando te acha, não quer sair
Fica, fica aqui nessa estação
Um pouquinho mais só, mais mais
Mesmo com a roleta imóvel:
É incessante a confusão de pensamentos
Ah, perdão, eu não posso negar
E outra, não sei se melhora
Estar contigo me planta outras dúvidas
Estou que não me aguento de pensar
Quero férias de sinapses
Não é sobre morrer, mas é como se fosse.
Como se uma parte tivesse que morrer
Pra que eu continue vivendo
E me sabendo viva
E me sabendo viva
Ah, ainda bem que isso se dilui com sua presença
Porque eu, eu estou que não me aguento de pensar.
Do teu lado
Caminhos são tramas variadas
Riscam planos, tecem sonhos, apertam laços
Bagunçam meus passos e minhas certezas.
Por eles, juntos, conseguimos caminhar
mesclando-nos.
Gentilmente cedendo espaço pro outro,
essa peleja de vida fica mais fácil atravessar
Do teu lado.
Com alguns descontentamentos,
Mas do teu lado
Com algumas palavras mal ditas
Mas do teu lado
Com a paciência limitada
Mas do teu lado
Com um não-sei, com um sei-lá, com um talvez
Mas, acima de tudo, do teu lado.
Também com uma vontade de não se descolar,
Com um “eu te amo” quase preso, quase solto
Nas línguas moles de tanto se adorar
Na grande delícia de ser cada dia mais íntimo
Mesmo sem compartilhar um simples xixi.
Como assim, tem xixi no poema?
Intimidade deve ser isso.
Qualquer que seja o contexto
Desde que seja do teu lado.
Estrelas, pássaros e flores
Creia-me, eu não perdi o senso,
A voz das estrelas é como o canto dos pássaros.
E ao vir do Sol, ou das manhãs choramingosas,
Faço questão de ser atravessada pela melodia estelar,
Afinal, você sabe, eu fui aparelhada.
Hoje cedo, um segundo antes de entregar meu corpo,
mas não minha alma – minha existência ninguém toma –
Antes de me deixar levar na esteira do dia, eu vi.
Eu vi botões de flores quase quase se abrindo.
Pra quem não sabe, as flores são primas das estrelas.
Imediatamente, uma ideia óbvia me ocorreu:
Eu deveria parar; e devagarinho para não assustá-las,
colocar-me ao lado delas e admirá-las desabrochando.
Afinal, o que poderia ser mais importante que aquilo?
Canto de estrelas, cheiro de pássaros, brilho de flores.
mãos dadas com o vento
Vento que me bagunça os cabelos
e me arrepia pelos, pele e espinha
Sopra nas marcas desse coração
perpassa as lacunas que o tempo abriu
É gostoso sentir o som da sua passagem
Balança minhas certezas e me reinventa
Aquilo que tenho anda não me cabendo mais:
uma pequena coleção de mágoas cativas
problemas com os mesmos valores e apenas
enunciados diversos
Pode levar
Não quero mais do mesmo de mim
nem de ninguém
Leva esse punhado de desalentos
Aliás, pensando bem, deixa isso aí
Vamos só você e eu.
Primavera é quase verão
Essa raridade de noite fria
brotando na quase estação quente.
Beleza que insiste, e, resiste.
E eu – aqui – tão longe de você – aí.
Pra desintegrar a antítese dessa distância,
quisera eu, num ímpeto de desejo, atravessar
todas as fendas de espaço e tempo
pra te alcançar em tempo
de te encontrar sonhando acordado comigo
e de molhar meus lábios nos seus tão doces lábios
como um voto de boa noite, boa noite, meu amor
e ao seu lado deitar sem hora de acordar.
Já volto.
Ei, volta aqui!
Tanta coisa pra fazer aqui embaixo.
Essas nuvens aí,
tapete dos teus passos sonhadores,
alucinam teu coração de pássaro.
Olha, eu sei, felicidade é tanta
quando a imaginação é teu céu
– tão vasto céu.
Vontade tresloucada de voar
Eu sei, moça.
Mas, vem, desce aqui um pouquinho.
Depois volta
ou voa.
Ex-amor
Depois despencou vertiginosamente
Como montanha-russa na primeira queda.
Sem gritos;
sem frio na barriga;
só uma poça de lágrimas no fim da descida.
Decida!
Não se morre de amor-delírio,
só de amor-amor.
E os dias seguem taciturnamente vívidos.
Claramente foi um devaneio,
Um efêmero de brilho nos olhos,
beijos fantásticos,
incrível jeito de amar.
E se foi.
De repente, não mais que de repente.
Deixou alcançar o ápice e:
se foi.
