Fanatismo

Eu quis tanto ser o seu refúgio
Ser a sua luz,
o brilho nos seus olhos
Ser a sua pequena, eu quis tanto
Ser sua, me sentir inteira sua
Ser o sol da sua noite em claro
Eu quis tanto, mas tanto
Ser a menina dos seus olhos
Sentir seu fanatismo
Eu quis tanto
Seus olhos postos em mim
Vidrados, cegos em me ver
Eu quis tanto ser sua morada
O destino para o qual se corre
Eu quis tanto
Ser a sua razão de atravessar o dia
Eu quis ser a sua razão
A sua falta de razão
Eu quis tanto ser
já toda a sua vida

Plantas Urbanas

Em cartaz: 
A Delicadeza Desconcretante das Plantas Urbanas
Plantas de cidade, mas desdomesticadas
Capazes de romper durezas asfaltadas
E amolecer o coração de pedra da sarjeta
Fuga verde contra a fadiga cinza
Passeando em frestas de paredes, pisos e piches

Tesouro que dá em árvore
Dinheiro em penca (Callisia repens)
Notas verdinhas de esperança
Poesia mansa a florir

Seguem reivindicando seus lugares de fala:
Desurbanização versus Desmatamento

Um silêncio de raiz forte corre pela relva e anuncia
A revolução planejada aos pés do mundo
No subterrâneo dos planos da modernidade
A retomada da Terra pela terra
A Era das Heras

Sim, só quero dizer sim

Sim, ainda sonho com a nossa casa
Cheia de livros e plantas por toda parte
Cheia de nós.
Hum, que frio, queria ver aquele filme
Me empresta a senha, aliás, vamos ver juntos
Sim, ainda planejo nossa próxima viagem
Que vai sair em qualquer hora
Absolutamente não planejada.
Mas sim, deixa eu te contar da minha semana
Esses dias comecei aquele curso, lembra?
Então, me conta como está por aí...
Olha que música linda
Musicaram aquele nosso poema da Florbela
Semana que vem tem show do artista, vamos?
Sim, quarta-feira é aquela exposição
Peguei os ingressos, tenta não se atrasar
Depois a gente toma um café, sim?
Vamos, quer dizer, vai fazer o que no feriado?
Espera, não me conta
Melhor não
Gosto de surpresas
Mas já te adianto
Minha resposta é sim.
Há penas em uma separação:
A demolição de toda uma casa.
Um grande cais destruído pelo sal.
O desaparecimento de um idioma.
A desterritorialização de um país.
Um planeta inteiro a desabitar-se.
Apenas em uma separação.

chuva para florir

Eu posso desejar a tua presença todos os dias
Posso não lembrar dos motivos de ir embora
Posso até mesmo esperar e esperar você chegar
Então eu posso todo dia fingir que estou feliz
Posso sorrir; sorrir; s-o--r---r----i-----r; só
E posso na mesma proporção chorar e chorar e...
Posso indefinidamente não saber o que fazer
Posso assumir que até achava que saberia
Mas agora posso admitir que eu não faço ideia
Posso pensar que estou me afastando mais hoje
Posso achar que meu caminho de ida não é
[a exata estrada da volta

Ah, eu posso ainda beber todo o vinho do mundo
Posso me enganar que consigo fazer isso sem saudade
Eu posso secar todas as lágrimas que vêm e vêm e...
Então eu posso ainda pensar que o tempo vai curar
Posso negar a etapa dolorosa do processo
Posso mais que isso, posso acreditar no que for
Até posso acreditar que não consigo me enganar
E posso estar muito cansada dessa "chuva para florir"
Confesso que tenho medo
Estou paralisada de medo
Querido, você está aí?
Ainda chora, ainda pensa?
Meu maior medo hoje
É você encarar minhas retinas,
minhas anêmicas retinas
e estar convicto do nunca-mais
Minha pele toda treme
de solidão agudíssima
Eu te amo, eu te amo eu te amo
Não preciso de mais