Mal da Dúvida

In-can-sa-vel-men-te tu vens
E o cansaço é imobilizante…
Outrora foste até saudável
Hoje és aflitiva e conflitante.

Agente da penitência
Das mentes exageradas
Criativas, confusas, nocivas.

Tua toxina vem para adoecer
Espanta seguranças frágeis
– que imploram permanência –
O chão faz escorrer
Desfalece toda alegria
Com ensurdecedores sussurros
De questionamentos vãos…

Será que a loucura reside no questionador
E, em verdade, tu, fonte de liberdade,
Só anseia dissipar a escuridão?

Fica a dúvida.

Hoje

Por um dia o sol de verão foi passear
Deu lugar à tua luz e foi pra outro céu.
No encanto de um firmamento nublado
O frescor e a brisa, teu dia, vieram coroar.

Será nublado o retrato de tua alma
Ou só a consciência prévia do porvir?
Ah, a inconstância dos dias não paridos
Inútil ansiedade que só faz confundir…

Conheço que é de teu agrado este céu.
Desfruta a beleza cantada pelas aves
Prenúncio de um dia de poesia sem véu!

Vive os momentos correntes e doces…
Só não esquece que o amanhã é gerado
No ventre despreocupado do hoje.

À mente

Deixa eu te escutar
Mas fala devagar
Tudo que lhe habita
É meu também.

Sua ânsia é gritar [eu sinto]
Mas espera o trem passar
Visita a paz do silêncio
Em lucidez, medita.

Pensa uma a uma
Toda ideia é singular
Dissolve a confusão
E descobre o deleite.

Contrafluxo

Gosto da voz do pensamento
Que fala e comenta sem som
Direito ao grito contido
Mudo e surdo

Da lágrima que goteja no cérebro
Nas lembranças
Da culpa que lateja e não cura
Dessas desgosto

Não quero voltar, mas volto
E volta e meia me encontro
Para um banho de mágoas
Que me tiram do fluxo

Gosto de me esconder
De ficar sozinha
De desencontrar de mim
Gosto do silêncio

Ouvir Estrelas 

Via Láctea (Olavo Bilac)

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Têm o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

Nova titulação 

Esta é a primeira vez que mudo o nome deste site. Pensando sobre o nome anterior (País das Maravilhas), percebi que não era adequado aos conteúdos que posto.

Já pensei em “Pó de Luva” mas era muito específico de uma atividade minha, aí escrevi uma postagem com esse título.

Lendo uma matéria na Revista Galileu, percebi que “Poeira de Estrela” é perfeito porque é o que eu sou, o que tudo e todos são. Sem máscaras. E quando eu venho aqui escrever é pra deixar um pouco de quem eu sou, sem rodeios. É como um Confissionário (mas esse nome eu não achei bom. Hehe).

Aqui está a matéria da revista. É incrível para quem ama ciência. É decepcionante para quem acha que é melhor que qualquer coisa no universo. É pura poesia.

Saudade, ai que saudade!

Ai, que saudade que dá
das intermináveis leituras,
dos inúmeros forâmes ósseos,
da consistência dos órgãos,
dos macetes para os pares cranianos,
das anotações de aula,
do caminho para o anatômico,
dos atlas,
dos desenhos da laringe,
da impressão cardíaca no pulmão,
da artéria gástrica,
da cérebro-basilar,
da língula pulmonar,
do corpo caloso,
do quiasma ótico…
Ai, que saudade de anatomia!

Como?

Como parar de chorar?
………..esquecer?
………..não pensar?
……………….lembrar?
……………….angustiar?
……………….deprimir?
………..fazer novos planos?
………..seguir em frente?
………..deixar o passado?
………..dar menos importância?
………..não exagerar?
………..parar de me culpar se a culpa é minha?

Como um pedaço de bolo pra ver se melhora…