Ouço meu nome sair de tua boca
E faço amor com a tua voz
Quero inteira navegar em teus lábios
Descobrir um novo continente
Abrir caminhos em teus relevos
Cartografar tua pele com as pontas de meus seios
Singrar os rios que brotam de tua nudez
Dar-te um nome e o poder de uma nação
Tão vastos são os teus horizontes...
A Eternidade é Atemporal
"Penso que chega um momento na vida da gente, em que o único dever é lutar ferozmente por introduzir, no tempo de cada dia, o máximo de eternidade." - Guimarães Rosa
Uma água para fazer um café
A eternidade está no cheiro e nos olhos que se fecham para sentir
Despertar e não se levantar tão já
Eternidade são os sons dos pássaros que preenchem a bruma da manhã
Conversas corriqueiras sobre coisa alguma
A eternidade é a troca de olhares que se demora um segundo completo
Uma vitrola empoeirada ligada
Eternidade é o ruído nostálgico de fundo em cada faixa musical
Caminhar sob o céu repleto de estrelas
Eternidade é reconhecer júpiter ou a constelação de escorpião
Entrar em casa todos os dias exausta
A eternidade está no ronronar das gatas quando a porta se abre
O dia todo falando amenidades
Eternidade é quando os sorrisos e os olhares se encaixam
A vida passando à custa do tempo
Eternidade é um lapso transbordante de significado
No desconceito inventivo
A eternidade é atemporal, um temporal, uma chuva de beleza e de mistério.
Rendição
Atiraram-me um beijo pela janela
Em vez de desviar do tiro,
lancei-me como louca em ser o alvo.
O beijo-míssel flutuante e certeiro
atingiu-me da cabeça aos pelos.
Arrepiei-me toda;
senti o corpo inteiro beijado.
Meus passos descompassaram, e
com as faces rubras e febris,
viajei para o país dos ósculos.
Aquele beijo-bala atirou-me à poesia
e declarou fim às minhas guerras.
Apogeu e declínio de um quase-amor
O coração bateu no pescoço
e logo voltou para sua anatomia usual.
Os lábios desérticos em busca de um oásis
aceitaram o aquecimento global.
O jardim desa[m]parado não perfumou quatro mãos,
contentou-se calado com os mesmos calos de sempre.
O mergulho de trocar música e poesia
ficou no azar de quem vive na superfície.
O alinhamento planetário dos nossos corpos celestes
apenas seguiu sua órbita na manhã seguinte.
O ponto de fuga é o delírio da perspectiva
Ler acompanhada pelo céu e pelas árvores;
Ouvir passarinhos piando em outras línguas;
Viver com a cabeça na lua;
Caminhar palavra pelo silêncio de novos passos;
Praticar turismo disruptivo;
Desejar o fruto em sua inteireza;
Parir poesia das frases grávidas de palavras;
Sentir o cheiro derramado de café no tecido da manhã;
Embriagar-se de horizontes e tropeçar nos detalhes;
Andar sem rumo sem se perder de si;
Nunca terminar esse poema;
a paixão: puro afã (ou, amar é um deserto)
Antes de abrir os olhos,
sentia o crepitar granulado das areias
descoloridas dos teus olhos verde-ausências.
Ver-te já não era mais uma opção sensorial.
Explícita e incansável, visitei a folia das memórias
na ânsia de estar abrigada em tuas retinas;
sem cordas e blocos, sem sirenes e hospitais entre nós.
Era a forma mais palpável de tê-lo:
Fechar os olhos e tocar a tela das lembranças.
Carrego o peso de um corpo que inteiro
é capaz de recordar-te;
cada parte com seu jeito único e visceral de sentir.
Minha existência-colônia lançando areias
sobre os teus automóveis de Roma.
Tua existência-metrópole nem chega a me ver.
Cintilam areias consteladas numa noite qualquer
tal qual lágrimas suspensas e inertes
no deserto de dias que se somam ao silêncio.
Novamente viro a ampulheta
e o tempo nos escorre.
Felicidade custa pouco
Café da manhã com calma;
Banho de Sol;
Cortar o cabelo;
Andar sem roupa íntima;
Sorvete de iogurte;
Cantar;
Livro ilustrado;
Acordar e dormir cedo;
Olhar a paisagem;
Falar com as plantas;
Que lavem minha cabeça
e penteiem meus cabelos;
Parque de diversões;
Prosa no café da tarde;
Tropeçar nos detalhes;
Desenhar;
Ler.
só não esquece de me beijar
o beijo é a poesia
totalmente sem função
absolutamente indispensável
Querendo te encontrar
Onde está você?
Eu adoro essa música
Virando a esquina
Chegando sempre atrasado
Apareça aqui pra me ver
Vamos dançar essa
"Um dia vou tocar sanfona"
Me conta, não importa quando
Eu vou gostar demais
Venha ter outro déjà-vu
Acarinhar os cavalos
Miar no meu portão
Sabes onde estou
Me pesca nos detalhes
Então, você é sentimental
O que diz a sua intuição?
Venha me dizer
Tudo sobre a sua vida
Os filmes que quer assistir
As músicas que quer ouvir
Onde você andou
Ou de que céu talvez voou
Lá onde gostas de saltar
Só para ganhar
Beijos que nunca te dei
O próximo [poema] será melhor
O que faz as amêndoas caírem 10 cm ao lado
e não em nossas cabeças?
Pela quantidade de amêndoas que habita uma árvore,
pela quantidade de amendoeiras,
as amêndoas poderiam exterminar os humanos.
POR QUE
a natureza não acaba logo com isso?
Pois bem, entrou mais um ano.
A boa notícia é que já veio jogando um globo de ouro,
tal qual uma bigorna, bem na fronte da extrema direita.
Mas ainda é tanto fio costurando os postes,
como uma rede pronta a cair sobre nossas cabeças
de peixes que não se entendem cardume nesse rio de janeiro.
Os drones fazem um barulho de inseto irritante. Como pode!
uma tão alta tecnologia não ter um som melhor?
Até o caminhão do gás canta cidade maravilhosa.
E que pandemia de farmácia é essa pelas ruas?
Um lugar sem ao menos uma cadeira para sentar.
Se for para remediar o estresse, que se abram lojas de chá.
Senta um pouco, coloca uma música, reúne uns amigos,
melhora o sistema de saúde, de educação, de moradia.
Não deve ser tão difícil aliviar a tensão.
E outra,
qual a lógica de aumentar o salário mínimo,
se tudo aumenta de preço também?
Não me venha falar em inflação! Eu quero é saber
quando vai dar pra ser feliz com o que se ganha?
quando as contas fecharão sem sufoco?
Quando toda a gente não precisará de ópio
para sentir que a vida presta?
Todas as metas de ano novo esbarram em "não tenho tempo" (...)
"Se você não fizer por si, ninguém fará" é muita covardia.
2025:
Ainda estou aqui
e ainda me falto.