Sede de te amar

Esse frio remonta
o abrigo dos teus braços
nas curvas da memória.
Extensos desejos de permanência.
Nosso amor lúcido
existindo serenamente
na calada da noite.
Me abraça de um jeito
como se eu nunca mais
pudesse ir embora?

Poesia disforme

Desconheço ainda uma forma
Um molde para nosso querer-bem.
O indefinido, ou melhor,
Um indefinido (artigo mais coerente)
É mais íntimo dos nossos rumos
que qualquer outro verbete dicionaresco
imposto na cartilha social.

Este poema que me perdoe,
preciso mudar de assunto.
Uma palavra veio alada para me levar.
Furtou-me a poesia difusa, sem contornos.
Não me deu muito em troca, pois.
Eis o que deixou:

Íntimo. Intimidade. Quero. Ou quero-te.
Será que tu é (és) o sujeito?
A necessidade não sustenta existência,
Mas a vontade, ah, essa é intensa.
E digo mais,
perigosamente intensa.

Desatino

A memória do teu cheiro vem tirar meu sono
me fazer menina de coração palpitante
enrolada em trama fértil de pensamentos:
Devaneios novelísticos, cinematográficos,
Ensaios amorosos que desafiam o tempo,

que desafiam o amor do nosso tempo.
(O amor do nosso tempo: um quase-amor
que transborda em lava e petrifica
antes de queimar no peito.
Nunca chega a ser)

Minha cena é fluida, a melodia não desafina,
tece enredos encantados, fascinante obra.
Porém; nenhuma rubrica de ilusão.
Sabe-se volátil, prestes a sumir.
Desfaz-se ao menor sinal de realidade
Esterelizada na dura certeza do desatino.

Já volto.

Ei, volta aqui!
Tanta coisa pra fazer aqui embaixo.
Essas nuvens aí,
tapete dos teus passos sonhadores,
alucinam teu coração de pássaro.
Olha, eu sei, felicidade é tanta
quando a imaginação é teu céu
– tão vasto céu.
Vontade tresloucada de voar
Eu sei, moça.
Mas, vem, desce aqui um pouquinho.
Depois volta
ou voa.

Escrever oprime

Escrever é foda!
A palavra é traiçoeira:
Por maior que seja o esforço de tradução,
o que sai em verbetes ganha outro formato.
A emoção traveste-se no que foi escrito.
Já não é aquilo que nasceu na abstração.
O concreto rearranjo do léxico engessa
o significado prévio e o diminui,
mas tanto que dá pena.
A palavra, tão abusada, rouba o lugar da ideia,
tão subjetivamente lírica.
Terrível necessidade de aprisionar sentimentos em linguagem verbal.
O mundo das ideias é vastidão
Não cabe nas fronteiras do real.

Justiça Enzimática

Vontade de comer o mundo,
afogar num mar de suco ácido
toda amargura que vagueia sombria e pegajosa
em exaustas retinas de vívida opressão.
Engolir tristezas milenares,
ruminar polímeros de dor e convertê-los
em meros monômeros de esquecimento.
Catabolizar as fibras hipertrofiadas da iniquidade.

Justiça Enzimática.
Aprisionar no ventre toda fala torta que ignora o direito de outras vozes.
Aos poucos, bem aos poucos,
(a mudança exige urgência,
contudo mudar requer paciência)
digerir em silêncio os excessos.
Os excessos de toxicidade das espécies reativas.

Quando à sua forma mais primitiva
o tudo do mundo estiver reduzido,
a ressignificação das ruínas sociais
dar-se-á implacavelmente
como riso desenfreado, irrestrito, revolucionário.

A via de eliminação virá aos que a risada da justiça parecer macabra.
Não haverá espaço para os espaçosos.
Serão eles pesados, medidos
e considerados insuficientes
ao organismo da nova era.
Ignorada a alternância diária imposta,
os injusticeiros serão naturalmente expurgados. Quase por conta própria.
O ambiente será hostil àqueles que outrora hostilizaram seus semelhantes.

O novo SER homeostático será dono do mundo.
Do ser-tão ao ser-vir:
Entre substantivos e verbos equânimes,
nada escapará do compasso peristáltico do porvir.

“Liberdade Guiando o Povo” – Eugène Delacroix