Azul

Como pode não gostar
de azul
Azul a cor da imensidão
Azul o céu que invade-me
Todas as manhãs

Todas as manhãs
não são mais as mesmas
Já não acordo bonita
de olhos misteriosos e asiáticos
Pesam-me olheiras opacas
Não de noites mal dormidas
Sim de dias mal vividos

Nas pálpebras envergadas
carrego o instante-quase
o ponto de inflexão
entre o que sou
e o que poderia ter sido

São sete horas da manhã
Não vejo o Cristo da janela
O azul é pesado
E desaba sobre mim

Alguém que nos sinta

acho que no fim do dia
a gente só quer alguém
que nos ouça:
as nuances da voz,
cada palavra que tece a confusa
e importantíssima história comum
dos nossos dias

a gente só quer alguém
que nos olhe:
os tiques nervosos;
as maçãs rosadas de raiva ou alegria
e o corpo que se insinua ao toque

a gente só quer alguém
que nos beba:
todas as lágrimas,
o suor que abrilhanta as conquistas
e o gozo que só quer gritar a liberdade
e desfalecer em colo quente logo após

acho que no fim do dia
a gente só quer alguém
que nos sinta.
esperar-te entre serenas paredes
que versam sobre o ar que respiras
é como estar diante dos instantes
que antecedem um grande acontecimento
daqueles que alteram a polaridade do globo
que modificam a rota dos astros
que mudam uma - ou duas - vidas
para sempre

Banho de Sol

Quero
ter cheiro de flor
e fotossintetizar o que preciso
para me saber viva
Quero
elaborar a existência no silêncio
no soprar dos ventos gélidos
que se adensam na epiderme
no carinho morno da estrela amarela
desvendando o espraiamento da íris
Quero
ser confundida com as plantas

20 de julho

Qual nome você chama
Quando está delirando de febre
Qual nome você chama
Quando o medo te escala a espinha
Qual nome você chama
Ao precisar esconder um corpo
Qual nome você chama
Quando sua chama está se apagando
Qual nome você chama
Quando o choro é de soluçar
Qual nome você chama
Para dividir seu doce predileto
Qual nome você chama
Para a volta ao mundo num balão
Qual nome você chama
Para gargalhar das piores piadas
Qual nome você chama
Sabendo que vai beber até cair
Qual nome você chama
Para o seu plano mais estapafúrdio
Qual nome você chama
Quando precisa só pensar em um nome

Ato falho

Falo de um ato falho
verdade secreta soprada
na orelha da memória
In-consciente atuante:
desejo reprimido
Falo da falha atual
atuação e rara ação
pouco ato, muita fala
Qual raiz geratriz
de um ato falho, falo
de um ato em falha
O erro.
O erro?
Um passo em falso
será falho?
Falho em investigar
onde está o tropeço
tão limpo e nítido
Equívoco.
Sim.
Mas de quem?