encantada a mirar um céu
que entre o cinza e o azul
já foi do vermelho ao violeta
no arco cromático da deusa
Íris, brinde-nos com boas novas
nessa era de sombra e cegueira
(e aproveitando
retire bolsonaro
das nossas vistas)
Nunca-mais
Se a gente não se vir nunca mais
tudo bem. Tudo bem
se a gente não se vir nunca mais.
O nunca-mais é bicho calado,
é o nada mais denso, à espreita,
dono de uma certeza agudíssima.
O nunca-mais é o abraço gelado
do não-ser,
do quem-sabe,
do não-era-pra-ser.
O tempo se desfaz em nunca
O tempo já não é mais
O nunca-mais engole o tempo
e rumina o podia-ter-sido.
O nunca-mais é um oceano
de frustrações.
O nunca-mais
é um eterno
devir.
a cor do alvo
mais uma poeta branca
ninguém quer ouvir
um poema alvo
cafona
desbotado
fora da nova ordem mundial
mais um brado branco
em país de canto Negro
mais um privilégio
clara evidência
poder inconsistente
clássica tragédia branca
pálida de sentido
ninguém quer ouvir
branca
não é a cor do alvo
é lá que minha saudade bate
deita no teu tapete, late na tua porta
pousa na tua varanda, na tua janela
sopra forte de bailar com as cortinas
rouba o quente de um roçar na tua pele
ah... minha saudade
quer abalar os teus sentidos
te tirar do prumo, do eixo, do mundo
desviar teu olhar do repetível diário
colher teu sorriso - meu prazer lascivo
tua atenção repousada em meus olhos
quando mando a saudade buscar-te
é tudo que quero,
e espero
Ser Jardim
Eu quero ser o Sol
Os Raios do Sol
E as Nuvens e o Vento
E as Árvores todas
E todos os Insetos
Um Vagalume com certeza
Eu quero ser um Bater de Asas
Eu quero ser Lua e Estrela
E cometer a audácia de ser um Cometa
Ser Água, Chuva e ter olhos de Onda
Eu quero ser Luar, e Mar
Entardecer e Pôr do Sol
Ser a Noite, e as Manhãs
O Canto de uma Cigarra
Eu quero, ainda, ser Outono
E Primavera, claro [como um Relâmpago]
Um pouquinho de Verão e Inverno
A própria Mudança Climática
Eu quero mesmo é ser Trovoada
Eu quero ser um Coral, uma Cor
E Arco-íris
Eu quero ser Flor
E Rio e Riacho e Córrego e Nascente
E Orvalho. Ah, como eu quero ser Orvalho
Ser o Ar, uma Raiz, ser um Peixe quem dera
E Terra. cheinha de minhocas, eu
quero ser Minhocas, sim várias
Ser Pegada em terra molhada
Eu quero
Ser Jardim
Quem é vivo
sempre floresce
Levanto-me no fim do dia
sacudindo a coluna de poeira
que me soterra as pálpebras
Percorro o deserto da ausência
buscando palavras-leito
nas palavras-tantas do mundo
Prolixas de elos
Elos-prisões
Profusão de infinitos meios
de não suplantar a superfície
Deixar-se vestir e sumir
com o traje da rotina;
Fazer dele uma identidade
É adoecer de pretéritos imperfeitos
O tempo do havia, do iria, do amaria
nunca se conjuga no presente
Nunca chega a ser
E eu,
eu preciso
Ser
Minha pequena eternidade
Ela foi minha pequena eternidade
meu conto de fadas, meu oásis.
Ensaio de amor perfeito,
enquanto eu nada oferecia
além de narcísico querer.
Por vezes ainda me pego aquém
do que eu era dentro dos seus olhos.
Minha melhor versão nasceu e morreu
abrigada em seus devaneios.
Ainda não versava muito:
Com ela, eu própria poesia.
Descobri talento para o canto
em seus ouvidos sempre tão gentis.
Seus olhos, seus lábios, suas mãos...
Tudo nela era presença, como o Sol
que aquece mesmo sem ser visto.
As voltas e revoltas de seus cabelos
onde eu, mimada, me aninhava
emolduravam um belo e farto sorriso,
e um brilho perene no olhar
sobretudo quando acarinhava o meu.
Sua voz ainda ecoa em meus pensamentos
como trilha sonora nostálgica
de uma história que a brisa levou.
Quem me dera um dia passear por aí
e esbarrar em um afeto tão idílico
quanto ELA.
Nasce um poema
Alguns poemas nascem de remanso,
devagarinho num silêncio embriológico.
A unicelularidade cansa-se da singularidade:
Um verso vira dois, que viram quatro, e oito.
Depois vira um folheto, um tecido, desvira-se,
dobra-se, desdobra-se, divide-se ao meio.
Tecidos com entrelinhas e agulhas de vitrolas.
Alguns versos morrem apoptoticamente
para que sobreviva a melhor versão.
Já enversado de si, o poema adulto
parece cortina de palácio,
traje de reis, corpo celeste.
Deseja ávidamente se parir ao mundo
e testemunhar as primeiras lágrimas
em homenagem à sua existência.
Alguns poemas não apenas nascem,
dão-se à luz.
Os dois lados da janela
(ao amigo Ronaldo)
Meu isolamento é nada
Enquanto eu só, muitos voltam ao pó
Eu desço nessa solidão, aterrizo
As plantas dos pés, as digitais
Digitálicos são insuficientes
Ao meu coração congesto
Os dígitos estão a esmagar-nos
Faltam contadores
Para as nossas histórias interrompidas
Rompeu-se a linha do meio. Milhão
Milhões de vezes eu lá sorri
Naquele beco de corujas. Lá
Naquele Trem das Cores
Mel de olhos luz, a Vista que embaça
Difícil ser Alegre, difícil ser.
A máscara cobre o grito, cobre o canto
Teu canto que não encantará mais
Mas ecoará na pura memória, de algum lugar
Em comemoração à tua passagem
Seremos vivos dia após dia
Dia após dia os átomos todos a dançar
Como crianças cor de romã
Seremos vivos