no meu peito sopra um vento
que me leva a lugares distantes
terrenos ermos e selvagens
dentro de mim
eu me vi criança correndo a vida
eu me vi jovem a dançar com a eternidade
eu me vi mulher a contemplar as linhas
das órbitas estelares
das águas de rios, chuvas e lágrimas
dos sorrisos largos e incontidos
dos sorrisos secretos
dos raios de Sol que insistem em brilhar
da trajetória da vida em minha pele
outras linhas que já não me habitam
novas linhas que me desenham gentilmente
eu me vi obra de arte rara
esculpida pelas minhas próprias mãos
ainda agora remodelada com a brisa do futuro
em meu coração eu vi uma chama perene
que sequer oscilava com as tempestades
então de repente abri os olhos
como quem acorda de um transe
e o mundo não era cor de rosa
meu corpo ainda carregava as dores
minha pele ainda carregava os anos
mas minha visão já não era turva
eu me vi nítida
eu me vi gigante
tomada de delicadeza e fúria de viver
eu sou a mulher possível, o próprio vendaval
a mulher que ventou e chegou até aqui:
uma legítima vendaval-mulher